quinta, 15 de abril de 2021


Roberto Cavalcanti
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Mudança de hábito

01 de novembro de 2015
Quem foi demitido?

Verdade que ela será promovida?

E cadê a minha xícara de café que estava aqui?

Essas trivialidades, tão comuns no dia a dia do mundo corporativo, não são nada triviais.

Fazem parte, na verdade, de um amplo conjunto de motivos para insistir na manutenção de um ambiente que a maioria de nós gostaria (ou pensa que gostaria) de se ver livre: o escritório.

Uma experiência, aliás, que virou febre em várias partes do mundo – incluindo, mais recentemente, o Brasil.

Meu primeiro contato com o ambiente doméstico de trabalho ocorreu há exatos 16 anos, durante uma viagem ao Canadá, em pleno inverno de Quebec. Lá, fui recebido por um casal de amigos - ele policial militar, ela uma funcionária do American Express.

A missão dela, segundo me contou, era monitorar um determinado número de clientes lojistas do cartão. As instruções eram enviadas (já naquela época) digitalizadas, e acessadas em sua residência através da televisão.

Confesso que eu e minha mulher, Sandra, ficamos fascinados.

Até hoje, aliás, a ideia de não precisar ir para o escritório e fazer o trabalho em casa é o sonho dourado de muita gente.

Mas, para um leque amplo dos que conseguiram concretizá-lo, os matizes não são tão assim cor de rosa.

As vantagens – claro – continuam existindo.

As principais delas (da perspectiva dos funcionários) é estar mais próximo da família ao mesmo tempo em que se vê livre do trânsito. A empresa, por sua vez, corta gastos consideráveis com a acomodação dos funcionários.

O que, então, está transformando esse sonho em pesadelo?

Artigo publicado semana passada no Financial Times relata diversos efeitos colaterais de se trabalhar de chinelos.

O principal deles é a solidão.

Ao quebrar o elo com o ambiente corporativo, perde-se também a conexão com a empresa e a dimensão da importância do trabalho. Resultado: muitos ficaram insuportavelmente complacentes e saturados.

Imagino que o fenômeno é análogo ao da aposentadoria.

Em tese é um acontecimento maravilhoso - ganhar sem trabalhar, tendo todo o tempo disponível para, enfim, fazer o que quiser.

Muitos, porém, acabam acompanhados pela depressão.

Eu, que me considero auto-aposentando há muito tempo, fujo dessa solidão.

Mesmo sem ter escritório fixo, circulo sempre pelas empresas e mantenho nelas meu ambiente de trabalho. E enquanto a saúde ajudar, não abrirei mão de sair todos os dias de casa para trabalhar.

O dia a dia da empresa, o ambiente coletivo, as relações interpessoais são imprescindíveis – tão essenciais que acabam colocando em xeque o modelo doméstico de trabalho.

Pois é no ambiente fora de casa e do nosso círculo familiar que aprendemos a ser mais humanos. É no escritório, também, que os mais jovens interagem e aprendem com os mais experientes. É lá, por fim, que nos convencemos - ao testemunhar tanta gente empenhada no mesmo propósito - que estamos fazendo algo relevante.

Transpiração e tensão são inevitáveis.

Já as fofocas vêm de brinde – um plus social. Afinal, ninguém é de ferro.