sexta, 14 de agosto de 2020


Roberto Cavalcanti
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Morte

25 de janeiro de 2020
Inimaginável estar aqui, justo em um domingo, abordando esse tema. Tinha assumido comigo mesmo o compromisso, que hora quebro, de aos domingos vir sempre com textos amenos e proativos. Nos últimos tempos, tenho sido, porém, intempestivamente atingido de forma direta e indireta por este inapelável destino.

Impressiona-me a constatação do dito popular de que vaso ruim não quebra. Não devo nominá-los, os bons que partiram e os maus que por aqui continuam perambulando. Não faço o pré-julgamento, simplesmente exponho uma constatação, uma verdade nua e crua. É a pura realidade. Prova cabal da boa convivência.

Sempre sinto a perda dos bons que estão ao meu lado, do meu time, por uma razão curta e grossa, convivo com os bons.

Tempos atrás não entendia o porquê desse desequilíbrio de que só os bons partiam.

A resultante matemática estatística é o universo da amostragem. Não contabilizo os maus porque estão fora do meu foco, do meu universo pesquisado. Torço contra eles, porém, não os enxergo.

Atenho-me à morte física. Aquela que deixa saudade e um vazio imponderável. Quanto à espiritual, creio na eternidade cristã.

Como me sinto pequeno diante da morte. Que força eu tenho para reverter qualquer desses infindáveis acontecimentos?

Os impactos das perdas permitem que reflitamos sobre o que devemos valorar na vida. Em momentos como esses, constrange-me relembrar como valorizamos o lado material de nossas vidas. Como o pragmatismo nos faz apenas enxergar aquilo que é pedra e cal.

É inacreditável aceitarmos e convivermos com a transformação de valores espirituais em pura matéria. Não tendo tempo para darmos amor, nos abastecemos com o que há de pior no ser humano, a materialização dos sentimentos.

Quanto sedentos e carentes de carinhos e de afagos temos ficado a cada dia? Assisto nesse filme da vida a perda constante dos verdadeiros sentimentos. Ao fitarmos um outro ser humano o que nossos olhos passam hoje a nos fazer enxergar?

Estamos desfocados dos reais valores, percebendo apenas as silhuetas materiais ou mesmo encandeados pelo brilho dos supérfluos. A cada perda, o forte remorso de não termos dado mais, de não termos relegado aquela insignificante divergência.

Nos confrontos diários, cobramos e somos cobrados apenas pela obtenção de resultados que, muitas vezes, em nada vão abalar as nossas vidas.

Convivo com o mundo da intolerância.

Um corpo inerte, sem vida, é a constatação da impotência de, em vida, buscarmos a tolerância. Despidos na pedra, somos todos iguais, zero de materialidade.

O desespero da morte não é pela saudade que virá, e sim pela saudade arrependida do que não vivemos, do tempo não partilhado. Assisto a cada pranto o arrependimento, o remorso pelo que não foi feito, pelo que não foi vivido. O cotidiano nos embrutece, priva-nos das coisas importantes da vida.

Nosso tempo de hoje é digital, nos aproxima dos distantes e nos afasta das intimidades. Perdemos o nosso bom e precioso tempo com imagens invasoras na sua totalidade nada construtiva. Perdemos a maravilha de um nascer do Sol e o melancolismo de um entardecer. A morte nos faz enxergar tudo isso fora de tempo.

Impactado pelas perdas, tento refazer o passado impossível, buscando construir o futuro possível.

Só enxergamos a vida em companhia da morte. Sempre busquei entender esse fenômeno. Acredito que ainda haja tempo para reverter todo esse meu sentimento e que possa em vida legar aos meus uma visão terna e participativa.

Peço desculpas, principalmente aos hoje ausentes, por não ter dado a eles o bom lado da minha visão e dos meus sentimentos.

Ainda há tempo! Trato hoje da morte com uma visão de vida.