sábado, 21 de setembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Monitorado

28 de julho de 2019
A cada dia, uma surpresa maior com a fragilidade da nossa individualidade. Agiganta-se a evolução dos aplicativos digitais, e de forma direta perdemos, pouco a pouco, nossa privacidade.

As constatações das invasões nas comunicações deixaram de ser fato especulativo. São concretas. Ao longo dos últimos tempos sempre tive algum amigo bem informado alertando para nossas fragilidades.

O ex-presidente Tancredo Neves seguia uma máxima pela qual “telefone só deve ser usado para marcar reunião inexistente, e em lugar errado”. Então, grampos e vazamentos não são atividades recentes.

Vemos agora, à luz de vários fatos, que a fantástica evolução digital, no seu lado negativo, contribuiu para nos desnudar completamente. Somos monitorados a pleno. Sabem exatamente onde estamos, e o que é pior, com quem estamos.

Nossas conversas podem ser gravadas nas 24 horas do dia, quer estejamos online - em conexão com outro celular -. ou com o aparelho desligado, pois dependendo da tecnologia usada, ainda poderá emitir sons e imagens para o mundo.

Para você ter uma exata noção dessa realidade, vale a pena assistir ao filme “Privacidade hackeada”. Imperdível! E o que está ali relatado é apenas parte de uma verdade guardada a sete chaves.

Recentemente, tivemos o rumoroso caso dos grampos que expôs autoridades máximas do nosso País. Os boatos iniciais apontavam para uma trama internacional, coisa entre nações. As primeiras investigações indicam que as operações supostamente são de responsabilidade de contraventores locais, useiros e vezeiros na prática de grampos e de extorsões de segundo nível.

Empresas da chamada grande mídia acreditaram na veracidade das mesmas e divulgaram produto do roubo, da contravenção. Tornaram-se intrujões das notícias. Crime!

Não temos mais em quem, nem no que, confiar. Todos estamos expostos. O céu é o limite na evolução das tecnologias.

Acabo de ler sobre um novo produto, desenvolvido pela “Verily”, empresa-irmã do gigante Google.

Foi criado um sistema de monitoramento de bebês por meio de fraldas inteligentes. O produto foi desenvolvido para atender demanda comercial da linha “Pampers”, da Procter & Gamble, líder mundial do setor.

Trata-se de um conjunto de sensores, software e vídeos que permitem que pais vigiem os filhos enquanto dormem, molham ou sujam a fralda. As informações são armazenadas em aplicativo capaz de preparar gráficos diários e rotinas semanais.

As fraldas inteligentes permitem, finalmente, através de outro equipamento fabricado pela “Logitech”, que os pais vejam seu bebê a qualquer tempo, independente de onde estão no mundo.

Tudo foi inicialmente desenvolvido para elevar o faturamento dessas empresas, haja vista a perda de mercado pela redução de nascimento de bebês nos EUA. Agrega-se valor ao produto para que, com a evolução dos seus preços, o faturamento volte a crescer.

Encantados com essa maravilha tecnológica, os pais esquecem os sérios riscos à privacidade. É evidente que através desses dispositivos, estaremos conectados à internet, com alto-falantes inteligentes, sem descartar outros que, no corpo, permitam as empresas sugarem dados cada vez mais delicados, que vão muito além do que tradicionalmente imaginamos como informações pessoais.

Estamos inquestionavelmente ligando nossas vidas ao mundo digital, e, com isso, não mais nos pertencemos. Falta, além da nossa vigília comportamental, a ausência total de leis que, adequadas a nossa realidade tecnológica, nos defendam dessa crescente invasão.

Peço aos meus que haja vista a minha atual exposição ao mundo, me poupem, ao menos ao final da vida, dessas fraldas, naquele momento em que o velho volta a ser criança.

Espero não passar por um vexame global: o mundo ter ciência exata da hora e da intensidade com que o velho Roberto, de fralda inteligente, estará fazendo.

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