sexta, 20 de setembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Modus operandi

05 de setembro de 2019
Modus operandi é uma expressão em latim que significa o modo de operar ou executar uma atividade seguindo, geralmente, os mesmos procedimentos. É exatamente assim que a França opera no Brasil há mais de 500 anos.

Desde o início da nossa colonização, para que houvesse a conquista desse Novo Mundo, se fazia necessário estabelecer um bom relacionamento com as tribos nativas.

Percebendo a rivalidade natural entre os novos “donos das terras”, que buscavam colonizá-la aprisionando os índios e os escravizando, os franceses exploraram uma relação descomprometida em razão de legalmente não terem direito sobre o Mundo Novo.

Contrariando o Tratado de Tordesilhas, adotavam estratégia de serem os primeiros a ocupá-la. Defendendo o princípio do direito internacional “uti possidetis”, pelo qual a terra pertence a quem dela toma posse.

O controle da população ameríndia foi decisivo na nossa colonização, sendo as alianças com as diversas tribos fator de vitória ou derrota.

Logo os franceses se aperceberam que conquistar um território tão hostil passava pelas referidas alianças.

A não homogeneidade entre as diversas tribos, em razão de não terem a mesma cultura e os mesmos costumes, apesar de algumas semelhanças, facilitou a aproximação entre eles.

Os portugueses, colonizadores, eram vistos como o inimigo maior, como explica o professor Carvalho França: “Os franceses não colonizaram a região, e é a colonização, o implantar-se na terra, que cria animosidades”.

Foi assim que, sempre através da conquista dos índios, os franceses obtiveram facilidades nas invasões e saques ao nosso Brasil. Como registro histórico desse relacionamento, temos, já em 1509, a ida de sete índios brasileiros ao porto de Rouen, levados pelo capitão Thomas Aubert.

Em 1512, aparece uma descrição do desfile dos indígenas pela cidade. “Eram originários dessa ilha que chamam Novo Mundo, e chegaram a Rouen com sua barca, seus adornos e as suas armas. Têm a cor carregada e os lábios grossos. Seus rostos são recortados por cicatrizes. Não têm pelos nem barba, nem no púbis nem em qualquer outra parte do corpo, salvo os cabelos e sobrancelhas”. Pasmo, o cronista acrescenta: “Falam pela boca”.

E continua: “Fomos e somos usados ao longo da nossa história. Nossa flora e nossa fauna foram saqueados durante todos esses séculos até os dias atuais”.

Para ilustrar o que já ocorria em 1550, transcreve narrativa do historiador Jean Marcel Carvalho França, sobre o circo tupi na França: “Por entre árvores carregadas de frutas e folhagem exuberantes, exibiam araras e papagaios, e gorjeavam diversas outras aves. Macacos e saguins corriam para o solo e dali voltavam aos seus esconderijos.”

“Ao redor, uma paliçada servia de muralha protetora. Atrás dela, estavam cerca de 300 homens de cabeleira revoltas, bronzeados e nus, ou vestidos de inocência, como descreveu Cristóvão Colombo em seu primeiro contato com os indígenas da América”.

“Os brasileiros traziam seus rostos enfeitados, suas faces e orelhas furadas e entrelaçadas de pedras longas, brancas e verdes. Uns atiravam flechas tentando acertar aves e pequenos animais, outros corriam atrás dos macacos. Ali perto, um grupo cortava madeira, que trocava por machados, foices e rastelo de ferro com marinheiros franceses”.

“De repente, um conflito: surgidos do meio da mata, Tabajaras iniciam um combate com os Tupinambás”. A batalha e o escambo, muito comuns no litoral sul da América recém-descoberta, não era lá, mas na francesa Rouen, na foz do rio Sena e capital da Normandia. De brasileiros mesmo, havia 50 indígenas, provavelmente Tupinambás, afirma o brasilianista Ferdinand Denis.

O acontecimento fazia parte da “entrada” do rei francês Henrique II e de sua mulher, Catarina de Médici, na cidade. Era uma disputa entre Lyon e Rouen, para mostrar ao rei como era a vida e os costumes dos habitantes do Brasil. Já naquela época, nós, brasileiros, em conjunto com nossa fauna e flora, divertíamos os franceses. Éramos as marionetes do palco.

Antes, em 1540, o rei Francisco I ironizou a decisão do Papa acerca do Tratado de Tordesilhas: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que me excluiu dessa partilha”.

Não era apenas pelo pau-brasil que os franceses cobiçavam o nosso Brasil. A moeda, ducado, continha 3,5 gramas de ouro. Peles de animais estavam cotadas a 3 ducados, e papagaios que falassem francês valiam 6 ducados.

“A eterna camaradagem” dos franceses com nossos índios tinha como objetivos enfraquecer o colono português, dificultando nossa colonização; fomentar a discórdia entre as tribos rivais, incentivando as guerras entre eles; ter mão de obra local na captura de animais e na derrubada de nossas florestas de pau-brasil; tê-los como guerreiros para enfrentar os donos da terra.

Assim como há cinco séculos, assistimos hoje tudo do mesmo. Nossos cooptados caciques estão em Paris fomentando o fogo na floresta. Tudo igual, o modus operandi, as mesmas técnicas, os mesmos personagens. Nós, brasileiros, temos memória curta.

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