quinta, 21 de março de 2019

Roberto Cavalcanti
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Meu inteiro

22 de julho de 2018
Quando eu nasci, o Brasil convivia com uma política partidária bem definida. A Constituição Federal de 1946 permitiu registro de vários partidos políticos, mas os que realmente disputavam o poder eram UDN (antigetulista) e PSD (pró-Getúlio), este contando com o PTB (sindicalista) como aliado.

O PCB viveu apenas dois anos na legalidade. Outros também tentaram se firmar, a exemplo do PSP (ademarista), do PRP (integralista), o PDC, o PR e o PSB, sem tanta representatividade.

A UDN proclamava-se liberal e antipopulista, defensora da moralidade, da iniciativa privada e dos investimentos estrangeiros. Reunia a alta burguesia e a classe média. Uma das suas vozes mais famosas foi Carlos Lacerda.

O PSD, de centro-direita, populista, era o preferido dos proprietários rurais. Teve entre seus filiados Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. O paraibano José Américo de Almeida foi prestigiado ministro de Getúlio Vargas.

Fui criado em uma casa que tinha posicionamento e profundo respeito partidário. A convivência política era baseada em princípios.

Minha juventude – entre 65 e 75 – foi observando a mesma clareza durante o bipartidarismo - Arena e MDB.

Os partidos tinham viéis ideológicos bem definidos e os políticos refletiam suas opções. O paraibano Ernani Sátyro é um exemplo de posição extremamente clara. Tinha a cara da Arena.

A partir de 1979, com a volta do pluripartidarismo, os políticos passaram a criar siglas com uma facilidade incrível, culminando numa verdadeira salada de letrinhas, sem perfil que permita ao eleitor identificar seus ideais. Já temos 35 partidos registrados no TSE e outros 73 em processo de formação.

Hoje, é missão impossível identificar o perfil ideológico dos nossos políticos. Não temos como enquadrá-los como conservadores, neoliberais, sociais-democratas, socialistas ou comunistas. A característica que se destaca é o culto ao egocentrismo.

Se os partidos já foram agrupamento de políticos que comungavam de determinado ideal, agora, os “inteiros” são agremiações do “eu só eu”. E com dinheiro público para financiar seus projetos – os fundos eleitoral e partidário.

A atual bancada da Paraíba na Câmara Federal tem 12 membros, e cada um é “dono” de seu partido, ou melhor, do seu “inteiro”.

Hoje tenho dificuldades de adaptação. Imagina o eleitor que não está igualmente familiarizado com os movimentos da política.

A cláusula de barreira, que passa a valer a partir do resultado destas eleições, vai mudar essa realidade ao impedir acesso aos recursos públicos aos que não receberem votação mínima?

Essa é a expectativa. Eles precisam se mostrar, assumir suas ideias, apresentar suas propostas para que possamos votar com convicção. E saber o que esperar do nosso Congresso.



*Roberto Cavalcanti. Empresário e diretor da CNI

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