segunda, 11 de novembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Lição de vida

19 de outubro de 2019
No amanhecer do último domingo, fui convidado para curtir a praia e, de quebra, comer alguns petiscos em aprazível restaurante-bar, em um dos pontos nota 10 da beira-mar paraibana, dia em que agiria de forma inversa ao que sou, um eterno otimista.

Lá fora, tempo instável. Coloco logo catinga na programação, dizendo que, com certeza, iria chover. Sandra, minha interlocutora, contorna: “Nada de chuvas, no máximo pancadas esparsas”. Do contra, me viro para botar defeito na maré. Sou de imediato desmentido: “Além de não haver navegação no programa, iremos de carro a apenas um quilômetro de nossa casa”.

A tábua de marés mostrava que a lua era quarto crescente, sendo a baixa-mar às 10h, no limite ideal.

Como amanheci “Zé do Contra”, mesmo assim digo que não vou. Alego que não iria para um local de maravilhosa comida, com os melhores crustáceos, se não poderia comê-los por ainda estar convalescendo de pequena cirurgia no pulso direito, com algumas restrições de dieta.

Fui convencido de que me salvaria com boas agulhas fritas e outras opções de peixe.

Quebrada a minha radicalização negativa, meu humor continuava nublado. Minha inflexibilidade foi minada com um argumento imbatível: lá encontraríamos com meu neto de um ano e meio, o rei Arthur.

A caminho, para agravar, na rua de casa, sou solicitado a parar o carro e comprar gelo para resfriar meu vinho branco preferido, que não poderia beber por estar dirigindo e ter profundo respeito com os rigores da lei seca.

Já no aprazível local, estaciono o carro providencialmente em estratégica sombra. Somos os últimos a ocupar um bom local. Tudo certo: beira-mar, pés na areia, sombra de coqueiros, guarda-sol para defesa de eventual chuva, tudo no limite do bom, porém, nada conseguia livrar-me da urucubaca do mau-humor.

 

Meu drama interno foi agravado ao assistir à chegada dos tira-gostos: camarões gigantes, empanados, com coco ralado (meu prato preferido), caranguejos cevados com patolas imensas, e eu apenas nas agulhas fritas anêmicas.

Arthur, deslumbrado, a me mostrar o mar e curtir com os pés na areia. Mulher, filha, genro e neto, todos tramando para ter um companheiro de farra, no mínimo, mais simpático. Aí, Deus começou a agir.

As chuvas eram fortemente visíveis em nosso entorno e zero no local onde estávamos, como se obedecesse a uma força estranha da natureza. Meteorologista amador, analisava as nuvens, a direção dos ventos, e dizia: “Essa vai nos pegar”. E nada. Nem o vento frio, comum nessas situações, ocorria. Visual lindo, tudo encantador.

Eis que de repente minhas atenções foram voltadas para um espetáculo de vida incomum. Passava pela minha frente, surgido do nada, como se posto ali pelas mãos de Deus.

Vislumbro um cadeirante motorizado, em plena beira-mar, que alegremente contemplava todo aquele entorno que nos cercava, enquanto eu estava com uma venda psicológica que me impedia de ver.

Como e porque aquele cidadão anônimo veio desfilar na minha frente, pujante em sua alegria?

Como me senti pequeno por não agradecer a Deus os primeiros raios de luz daquele amanhecer de domingo. Apegando-me ao ditado popular, “fiquei morto nas calças” de vergonha de mim mesmo, da minha injustificada intolerância. Foi como acordar de repente e perceber que seria uma tremenda injustiça não ter, pelo menos, a mesma alegria daquele exemplar cidadão.

Como alguém, com tamanha dificuldade, supera tudo e curte a vida alegremente? Agradeço a ele pelo modelo, e a Deus pela lição. Fiquei curado!

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