quarta, 05 de agosto de 2020


Roberto Cavalcanti
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Ladrão cara de pau

19 de março de 2020

Talvez tocado por São José em seu dia 19 de março buscarei na Bíblia o meu entendimento sobre o perdão. Volto 2.000 anos para o diálogo entre Jesus e um dos dois ladrões que o ladeavam na crucificação. O ladrão arrependido disse: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no Teu Reino” (Lucas 23:40-42). Jesus lhe respondeu: “Em verdade, te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23: 43).



O ladrão arrependido foi salvo por causa da sua fé mediante a graça do Senhor, que é o único caminho para a nossa salvação. (Efésios 2:8-9).



Tenho ao longo de toda minha vida, lastreada na fé cristã, disciplinadamente me aplicado em abraçar o sentimento do perdão. Forças internas, instintivamente, conduzem-me lamentavelmente a abrir exceções e por vezes não perdoar.



Cito como exemplo, por mais cristianamente que busque agir, não consigo superar o assassinato do meu primo Paulo Brandão. Nunca busquei vingança familiar, porém, perdoar nunca, esquecer jamais. Incorro, e sou réu confesso, nesse pecado.



Considero-me vivido, não apenas pelo tempo, mas, sobretudo pela intensidade da vida que pratico. Já vi de tudo um pouco, estive em infinitos cenários.



Busco o equilíbrio e a graça divina que tem me proporcionado ponderar hoje sobre tudo, fruto também do irreversível amadurecimento. Ponderar não me tira, em momento algum, a capacidade que também cultuo que é a indignação.



Enoja-me assistir em tempos atuais a desfaçatez com que desmascarados bandidos, ladrões profissionais, agem ao serem incontestavelmente flagrados em suas rapinagens.



Graças aos instrumentos da boa justiça não resta dúvida quanto à veracidade dos crimes. Investigações, indiciamentos, denúncias, condenações com decisões em vários graus de instâncias, anulam a possibilidade de equívocos. Negar sempre, arrepender-se jamais. Esse é o lema deles. Covardes, não tenho visto esses bandidos processarem os que fazem delação premiada acusando-os, o que seria uma atitude lógica. Vejo ameaçarem processar indiscriminadamente a mídia.



Volto ao sentimento cristão. O perdão é para quem se arrepende. Eu jamais perdoarei aos que não se arrependem, aos que não saem midiaticamente do palco se apresentando como vítimas. Considero, em todos os níveis, “coiteiros de ladrões” aos que de braços abertos acolhem réus condenados não arrependidos.



Não me refiro a pré-julgamentos. Considero que quando o rito processual é obedecido, fruto de uma densidade de provas irrefutáveis, e há condenações, o perdão só teria espaço após arrependimento público e explícito.



O que assistimos na província e País afora é uma afronta à lógica, um insulto ao bom senso. É o desmedido sentimento egocentrista que capitaneia a mente desses ladrões sem um mínimo traço de humildade ou arrependimento. Ladrão não arrependido para mim é bandido sem direito ao perdão. É a “cara de pau” inerente a todo enganador.



Você já foi enganado por alguém que se apresenta como bandido? Não!



O enganador, o vendedor de ilusões, se apresenta sempre como salvador, pai dos pobres, dos desiguais, dos oprimidos e discriminados.



Tenho sempre em mente que quem defende bandido é porque irremediavelmente segue o seu exemplo. Agora entendo o porquê dos que lá atrás sempre defenderam os bandidos. A esses ladrões impenitentes que continuam zombando e não pedindo perdão pelos seus erros não preciso me preocupar.



Havia escrito um final não cristão que falava sobre fogo do inferno. Consultei o meu orientador espiritual padre José Carlos e o mesmo lembrou-me que até a undécima hora existirá a chance do arrependimento. Que só assim, livrará os inconsequentes dos abismos.