segunda, 11 de novembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Inteligências

17 de outubro de 2019
Fui treinado para conviver prioritariamente com pessoas inteligentes. Persegui esse conselho dos meus pais e tive sempre muita sorte, a boa sorte.

Desde 1966 cultuo uma fraterna amizade com o meu professor de Economia, meu parceiro na elaboração do primeiro sonho industrial da minha vida, ex-reitor da Universidade de Brasília, ex-governador de Brasília, ex-ministro da Educação, meu ex-colega no Senado Federal e até hoje guru para eventuais consultas, Cristovam Buarque.

Esta semana, senti vontade de ir em busca de suas opiniões. Trocamos mensagens.

- Amigo, líder, professor, senador!!! Aqui Roberto Cavalcanti. Peço quando possível me ligar. Forte abraço - enviei.

- Amigo e tudo o mais, que prazer receber este seu pedido. Estou na Índia, participando de um seminário sobre política e inteligência artificial. Vou tentar ligar pelo WhatsApp. Volto dia 26.10. Abraços, Cristovam - respondeu.

Necessário dizer algo mais? Dize-me com quem andas e te direi quem és. Ou melhor: dize-me o que fazes que te direi quem és!

Surpresa zero ao localizá-lo num evento sobre inteligência, quaisquer que sejam, natural, artificial ou ambas. Essa é a cara desse meu companheiro de mais de 50 anos, sempre adiante do seu tempo.

Enriqueço-me durante todo esse tempo, com sua visão de mundo. Visionário, Cristovam, já em outubro de 2000, destacou-se mundialmente abordando um tema presente nos noticiários de hoje, 19 anos depois - a internacionalização da Amazônia.

Acompanhe o que disse quando foi convidado a analisar a questão.

“De fato, como brasileiro, eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro”.

Cristovam é isso. Ele me enriquece com sua inteligência natural e por meu culto à liberdade ideológica e respeito ao contraditório. Ele sempre se posicionou ao lado esquerdo do tabuleiro da vida, no entanto, jamais pactuou com a deformidade moral da política destes anos que estamos agora sucedendo.

Votei nele para Presidente, não pelo fisiologismo de uma grande amizade. Votei, sobretudo, pela certeza que teríamos hoje um outro Brasil, tudo consequência do seu lado íntegro, sua visão global e o seu coração patriótico.

Viva as boas inteligências.

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