segunda, 10 de dezembro de 2018

Roberto Cavalcanti
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In memoriam

04 de outubro de 2018
Nunca deixe para depois!

Amanheci neste primeiro de outubro tremendamente impactado. Deixarei de realizar um dos meus maiores sonhos; de cumprir, para comigo mesmo, a promessa de um presente que gostaria muito de ter me dado.

Como as folhas do outono parisiense, o vento da vida levou Charles Aznavour. Aos 94 anos, partiu como eu gostaria de partir: ele cantando, eu empreendendo.

Acompanhei por toda a minha vida este mago da composição e da interpretação de canções. Atento a sua agenda, sabia exatamente onde se encontrava, a cada dia, em sua última turnê em Tóquio, Japão.

Monitorava sua programação de shows para que ajustasse minha própria agenda e, por fim, pudesse estar ao seu lado. Fiz planos e planos. Falhei! Deixei sempre para depois.

Mais uma vez, a realidade e a irreversibilidade se faz presente e volta a me ensinar que nunca devemos deixar para depois. Como ele estava com 80 anos de carreira, tive mais tempo do que toda a minha existência para contemplá-lo. Charles Aznavour foi ídolo de muitas gerações. Tive tempo.

Como justificar a mim mesmo ter adiado tão sonhado encontro?

Foram mais de 800 canções próprias, mais de 1000 por ele cantadas. Gigante com seus 1,60m, era o mais fantástico dos intérpretes franceses que conheci. Superava tudo para compensar suas limitações, inclusive de voz. Cantava em seis idiomas com perfeição.

A sorte lhe sorriu pela primeira vez exatamente no ano em que nasci, 1946. Foi quando ele chamou a atenção de nada menos que a magistral cantora francesa Edith Piaf, que o levaria a uma turnê pelos Estados Unidos.

Para os jovens que me leem, talvez esteja falando sobre desconhecidos. Porém, afirmo serem monstros sagrados da música mundial. Inesquecíveis!

Como escolher músicas para representar o seu vasto trabalho? Impossível obter a unanimidade. Ouso destacar duas: a primeira, por ter sido, a meu ver, a melhor canção já feita para homenagear a mulher. Por ironia do destino, para esse artista que se consagrou como o melhor intérprete das canções francesas dos últimos 100 anos, sua versão consagrada foi em inglês, “She”.

“She may be the face I can’t forget

A trace of pleasure or regret

May be my treasure or the price I have to pay

She may be the song that summer sings

May be the chill that autumn brings

May be a hundred different things

Within the measure of a day”.

Poderia citar várias outras canções pelas quais tenho fascínio. Como sinto a sua perda e lamento a minha imprevisibilidade – de que adianta agendar egoisticamente o futuro para encontrar alguém aos 94 anos de idade? Tinha que ser no presente, nunca no futuro – destaco, finalmente, a melancólica canção: “Que C’est triste Venise”.

“Adieu tous les pigeons

Qui nous ont fait escorte

Adieu Pont des Soupirs

Adieu rêves perdus

C’est trop triste Venise

Au temps des amours mortes

C’est trop triste Venise

Quand on ne s’aime plus”.

Na canção, Veneza estava triste. Hoje, triste estou eu.

Roberto Cavalcanti Ribeiro. Empresário e diretor da CNI.

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