sexta, 20 de setembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Imortalidade

22 de agosto de 2019
Amanhã, se Deus assim desejar, cumprirei a última etapa de um processo eleitoral objetivando ocupar a Cadeira de número 27 da Academia Paraibana de Letras (APL), iniciado em janeiro passado.

Naquele mês foi decidida, pelo todo Poderoso, a ausência do seu então ocupante, o respeitado cronista Carlos Augusto Romero. Ponto final em sua passagem material entre nós.

Nada mais forte para demonstrar o conceito dessa imortalidade, que é imaterial. Lá na Academia, essa verdade está exposta em suas paredes, repletas de fotos dos que já não mais estão aqui.

A imortalidade que oferece, contudo, é muito significativa: está no acervo literário de cada, na preservação das suas histórias e das suas obras, visto que a Academia tem a amplitude de sua marca “Decus et Opus”, ou seja, estética e trabalho.

No dia seguinte à votação, realizada em 7 de junho, dentro do espírito criativo e do fantástico humor de minha mãe, Beatriz, brinquei com um amigo. Disse que estava arrasado com uma constatação pós-eleitoral.

- O que houve? – quis saber. Não me fiz de rogado.

- Vencedor do pleito, tornando-me dessa forma regimentalmente imortal, tinha tomado como primeira providência destruir todos os meus cartões de planos de saúde. Atente que, prevenido que sou, tenho quatro desses planos e dos melhores disponíveis no mercado, para suprirem, lamentavelmente, uma saúde previdenciária deficiente.

E completei: ora, se teria o certificado de imortalidade, para que planos de saúde?

Detalhei que teria comparecido à Academia e esclarecido, junto a sua eficiente secretária-gestora Tânia, detalhes sobre procedimentos futuros. Só aí teria obtido a informação técnica sobre essa imortalidade.

- Roberto, tenha a partir de agora e para sempre a consciência de que você é morrível – foi sua sentença, claríssima. E verdadeira.

Brincadeiras à parte, amanhã será um novo dia. Estava em uma sessão literária no último sábado, na Livraria do Luíz, quando um renomado professor português, em visita à Paraíba a convite da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), iniciou sua fala: “Passo a falar de pé. Sou uma pessoas de hábitos muito simples, porém, sou de facto um catedrático. Ocupo uma cadeira e por consequência tenho que me ater a um certo rito”.

Formalidades europeias e, principalmente, portuguesas à parte, ele estava certo. Longe de mim formalizar um comportamento diferente do Roberto que todos conhecem, porém, já fui advertido por pessoa a quem tenho grande respeito e admiração, que, de agora em diante, teria de estar sempre lembrado que sou um acadêmico.

Ouvi que deveria proceder obedecendo controle e moderação na escrita e na linguagem, afinal de contas estava passando a compor uma entidade que preserva o estilo e a beleza.

Qual a razão do conteúdo desse meu texto de hoje? Apenas externar a todos a plena consciência de que, como “imortal morrível”, passo a ser confrade da nata da intelectualidade do Estado que adotei e berço das mais sólidas raízes da nossa cultura.

Talvez este longo período que precedeu o dia de amanhã - 235 dias entre a vacância da cadeira e a posse - me tenha dado a plena consciência e a devida maturidade para ocupá-la. Em um processo eleitoral, cujo universo de votantes se restringe a apenas 39 acadêmicos, foi enriquecedor me fazer entender; explicar as razões que me levavam a disputar tal honra.

Foi-me permitido, nos contatos pessoais, ter a real dimensão do valor de cada um. Encantei-me com todos, alguns dos quais, fruto dos meus 50 anos de Paraíba, já tinha o privilégio de conviver. Resta agora comemorar e cada dia ter aprimorada a consciência da minha responsabilidade.

Matematicamente – forma como vivo e respiro -, carrego o peso de 80% dos votos válidos. Em um Estado com aproximadamente 4 milhões de habitantes, como somos apenas 40 em nível de Academia Paraibana de Letras, representamos 0,00001% dessa população, e eu, individualmente, 0,00000025%. Um privilégio! Obrigado, Paraíba!

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