segunda, 10 de dezembro de 2018

Roberto Cavalcanti
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História demolida

06 de dezembro de 2018
Lamentavelmente, cultuamos muito pouco a nossa história. Para mim, história é o minuto passado. Não importa há quanto tempo, será sempre um registro do passado. Ela é registrada de muitas formas. Desde os relatos dos contadores de estórias, ruínas do que já teve um passado pujante e até marcos preservados. O que denomina um marco? Pode ser uma edificação que, inicialmente, não teve um propósito específico no sentido da preservação histórica, até aqueles cujos propósitos eram exatamente registrar em forma de aço, pedra e cal algum fato específico.

A “Torre Eiffel”, construída em 1889, é um exemplo marcante, tornando-se símbolo de uma cidade. Jamais fugiria em plena consciência de não guardar as proporções devidas, porém, um marco será sempre um marco.

Recebi, na semana passada, telefonema de um amigo me dando ciência e me alertando de que o monumento construído às margens da BR-230, no município de Cabedelo, no acesso ao Loteamento Intermares, estaria prestes a ser demolido. Novo traçado da rodovia, fruto de sua expansão, determinou construtivamente o fim daquele marco histórico.



Fui em busca do passado. Quem foi o criador e responsável pela obra? Para mim, não importava nenhuma característica de gestão, linha ideológica político-partidária. Buscava apenas lembrar a semente do fato. Enfim, registro histórico faz parte da história.

Em contato com o ex-prefeito de Cabedelo, médico José Ribeiro de Farias Junior (Dr. Júnior, do PT), tive como resposta que sua construção fez parte das obras do seu mandato, iniciada em 2003 e inaugurada em 2004. Foi uma homenagem símbolo da “geminação” da cidade de Cabedelo com a cidade de Viana do Castelo, em Portugal, em acordo firmado àquela época entre os dois municípios.

Relembrou o ex-prefeito que o projeto arquitetônico deste monumento, bem como um similar, construído no limite extremo-leste do município de Cabedelo com o município de João Pessoa, na PB-008 Norte, ambos foram de autoria da arquiteta Sandra Moura.

Estava eu em casa, descompromissadamente, legislando em causa semiprópria. Não importa! Fato é fato! O registro histórico permanece.

Perguntando a Sandra a origem do traço arquitetônico que a inspirou, obtive dela como resposta ter sido um resgate do conceito do mais importante marco histórico daquele município, a Fortaleza de Santa Catarina. A base do monumento, em forma de muralha de pedra calcária, resgata aquela fortaleza. O canhão (réplica) afixado no seu topo seria a consolidação física da colonização de Portugal em nossa costa. Os elementos metálicos estaiados no seu coroamento simbolizavam a união dentre os dois países e a busca de um futuro moderno e tecnológico.

O monumento é um elo entre as duas cidades, dois povos, a história e a visão dos novos tempos.

Agora, não tenho como não me tornar um defensor da não demolição do mesmo. Algo tem que ser feito para deletar a impessoalidade de um teodolito. Dirijo-me ao Dnit no sentido de evitar que a demolição ocorra. Apelo ao prefeito de Cabedelo em exercício no sentido de defender o nosso município, à Câmara de Vereadores no sentido de evitar que tal fato se materialize, às lideranças políticas do nosso estado, aos órgãos públicos responsáveis pela defesa e preservação dos nossos patrimônios, enfim, à própria população do município no sentido de abraçarem essa causa. Basta de tanta omissão da não preservação da história do nosso país. Além de tudo, é dinheiro público que pode vir a se tornar pó. Derrubar é fácil, preservar gera história.

 

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