sexta, 20 de setembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Estou chocado!

01 de agosto de 2019
De um sonho, nosso ambicionado projeto da Transposição do São Francisco tornou-se um pesadelo. Espero que temporário. Hoje, relaciono o histórico das minhas preocupações, para que ao final possa conquistar seu apoio para essa causa em favor do Nordeste e, especialmente, da Paraíba.

Relembro parte do texto do meu artigo “Que país é esse”, editado no Correio da Paraíba. Diferentemente de outras republicações, não a faço por ter identificado erro, mas por excesso de acertos.

Meu primeiro alerta foi feito há 7 anos e meio, exatamente no dia 15 de janeiro de 2012. Vejam os problemas que identifiquei e o lamento que registrei, esperando que fossem superados por uma tomada de posição do governo na correção dos rumos da obra.

“Será uma batalha difícil. Nos canteiros de obras dos canais só se vê abandono - estruturas de concreto estão completamente estouradas, vergalhões de aço foram abandonados e proliferam as rachaduras.

Em alguns trechos, os canais terão de ser refeitos, jogando pelo ralo todos os recursos e esforços empreendidos nos três primeiros anos da obra.

O cenário atual da transposição é fantasmagórico. Os trabalhadores foram embora. E a erosão que destrói os equipamentos deixados pelo meio do caminho sepulta a esperança nordestina de ver o encerramento do ciclo das secas seculares.”

Recorro também ao meu último artigo sobre a Transposição, o de quinta-feira, 25 de julho último, no qual, sob o título “Alerta” , externava minha decepção com o que tinha visto no Eixo Leste da Transposição, inaugurado oficialmente pelo ex-presidente Michel Temer e extraoficialmente pelo ex-presidente Lula, ambos em março de 2017.

E o que vi, no dia 30 de abril último, foram os canais secos, placas quebradas, fortes sinais de erosão, mato avançando... Parecia abandonada e de dispendiosa recuperação.

Tenho em minhas mãos a Informação Técnica do MPF/PRPB n° 14/2019, elaborada com extrema competência pelo Dr. Marcelo Pessoa de Aquino Franca, analista pericial de Engenharia Civil do MPF, trabalho técnico primoroso, documentado com imagens. Não deixa dúvida quanto ao desastre que se avizinha se não houver decisão e ações rápidas no tocante à obra.

Do seu relato, pinço texto comprovador: “As fissuras estão associadas à retração plástica do concreto, e as trincas à retração hidráulica (por secagem); foi constatado também que em determinados locais, foi realizada uma tentativa frustrada de recuperação destas fissuras/trincas, por meio da colocação de um selante flexível. Tal selante atualmente se encontrava totalmente deteriorado”.

Por fim, conclui: “Tenho a expor que os canais da Transposição do São Francisco apresentam uma série de patologias que são incompatíveis com o tempo decorrido desde a construção. A meu ver, tais patologias estão associadas a impropriedades quando da concepção e/ou execução da obra e não a fenômenos naturais ou climáticos da região”.

Alerta ainda que “ou a qualidade do material ficou aquém daquela desejada (elevado fator água/cimento, condição de cura insatisfatória, etc), ou existe uma deficiência na concepção das juntas de dilatação e controle”. Finaliza: “Em qualquer dos dois casos, deve-se buscar a causa e corrigir o problema, sob pena de comprometer a vida útil da obra.”

Esse relatório está datado de 24 de julho - há apenas uma semana -, porém se refere ao procedimento n° 1.24.004.000005/2017-61. O 2017 contido no mesmo demonstra que a preocupação do MPF não é recente.

Revela ainda que minha aflição era pertinente. O laudo é concludente. Estou em choque!

Contudo, essa apreensão não deve provocar paralisia. Não podemos permitir que a Transposição do São Francisco sofra mais atrasos. Devemos unir esforços com o MPF para que a obra seja corrigida e concluída, e se houve crime na sua execução, que os culpados sejam identificados e responsabilizados.

O que não pode é o sonho coletivo não seguir o seu curso transformador de vidas e realidades numa região que só precisa de garantia regular de água para florescer.

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