quarta, 20 de junho de 2018

Roberto Cavalcanti
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Estado-Deus

18 de janeiro de 2018
Eu sou de uma época em que os bandidos não assaltavam as igrejas. Um cálice de ouro ficava sobre o altar e era tão intocável e sagrado quanto o ostensório (peça usada para expor a hóstia consagrada), feita do mesmo metal precioso.

Mesmo criança, para mim era inimaginável um ladrão cobiçar aqueles objetos sagrados. Na verdade, existiam alguns limites que não eram ultrapassados.

O desrespeito às coisas divinas não aconteceu de uma hora para outra, mas como resultado de um projeto cujo objetivo é induzir a transferência da devoção das massas de um Deus que nos impõe limites éticos e morais, para um Estado-Deus, que estabelece suas próprias regras, e o partido que o governa.

Essa ‘evolução’ confronta tudo o que nos trouxe até aqui: a força da família, da fé e valores.

Os cristãos e judeus seguem os mesmos mandamentos, que dizem: Não matarás, não furtarás, não adulterarás, não dirás falso testemunho, não cobiçarás nada do próximo, e honrarás o teu pai e a tua mãe.

Os budistas ensinam o mesmo, e acrescentam que não devemos mentir, nem ser avarento ou abusivo, e muito menos alimentar raiva.

Os espíritas explicam que Deus fez a lei para garantir nossa felicidade. Por isso, está escrita em nossas consciências.

A sociologia reconhece a importância da religião. Está provado que o freio da fé é mais forte que o da lei dos homens.

Qual desses valores é impróprio? Por que tentar apagá-los de nossas consciências?

A fé foi o combustível das cruzadas, formadas para resgatar Jerusalém dos muçulmanos. A vitória impulsionou os cristãos até o Oriente, e tempos depois, quando foram organizadas navegações para o Novo Mundo, embarcaram com a firme determinação de espalhar os ensinamentos de Jesus.

Os jesuítas, franciscanos, beneditinos e capuchinhos, por exemplo, trabalharam na catequização de indígenas e conquista de sua lealdade para os portugueses, mas também abriram escolas para atender à colônia emergente. Foram fundamentais.

Outras ordens e congregações religiosas acompanharam os espanhóis em suas expedições, como a que conquistou a Bolívia, onde, pelo último censo, 78% são católicos, 19% são protestantes e 3% professam outras religiões.

Conhecendo essa realidade, foi difícil acreditar que o governo Evo Morales é responsável por um novo Código Penal que criminaliza o recrutamento religioso.

O art. 88 equipara a conversão religiosa ao aliciamento para conflito armado ou tráfico de pessoas. Por ele, “acolher e receber” pessoas com a finalidade de atrai-las para organizações religiosas ou culto, pode resultar em pena de 7 a 12 anos de cadeia e multa.

Não basta um Estado forte. O ex-líder sindical dos plantadores de coca que chegou a presidente e está há 12 anos no poder, com essa norma, vai asfixiar as religiões, enquanto viola a dignidade humana ao impedir os bolivianos de praticarem sua fé, seja ela qual for. Atinge a todos.

O Estado-Deus não pode ter concorrente. Não se pode servir a dois senhores. Para dar certo e garantir longevidade aos seus poderosos, tem que ser pai e mãe de todos, que devem retribuir com lealdade.

A luta dos bolivianos para recuperar o que perderam não será pequena. Aqui no Brasil o projeto do Estado-Deus foi sustado. Vamos preservar assim. Afinal, como ensinou Aristóteles, “a política não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça – o bem”.

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