domingo, 15 de setembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Empanzinado

21 de julho de 2019
Qual o bem mais valioso que o homem pode dispor? Diamantes, rubis, turmalina Paraíba ou outras pedras preciosas? Carros fantásticos, iates luxuosos e casas por todo o planeta? O comando de empresas globais, que dão prestígio e poder?

Entendo que todos os itens citados são cobiçados porque são símbolos de riqueza e status, mas para mim nada se compara com o tempo, cujo valor é inestimável.

Precisamos de tempo para usufruir do que gostamos, para nos dedicarmos às pessoas que amamos, para enfrentarmos os desafios que nos impomos. Tempo e vida estão intrinsecamente ligados.

No filme “Lucy”, de Luc Besson, tem um diálogo da heroína que em razão da ingestão de uma droga passa a acessar 100% de sua capacidade cerebral, quando no atual estágio da humanidade, a média seria de 10%. Ela explica o que importa:

– Filmem um carro correndo em uma estrada, acelerem a velocidade da imagem infinitamente e o carro desaparece. Então que prova temos de sua existência? O tempo dá legitimidade à sua existência. O tempo é a única unidade real de medida. Ele é prova da existência da matéria. Sem o tempo não existimos.

Tempo é o que estamos perdendo, sem que a maioria perceba. É um efeito negativo da revolução tecnológica. O volume de informações que recebemos diariamente faz parecer que ganhou velocidade extra, que está passando muito mais rápido.

A tecnologia está nos escravizando. É extraordinário constatar que nossos smartphones são mais poderosos que o computador que há 50 anos guiou o homem à lua. Segundo cálculo da “ZME Science”, o Iphone 6 - já superado pois estamos no XS - é cerca de 120 milhões de vezes mais rápido que o computador da Apolo XI.

A consequência é que, como a tecnologia, já não nos desligamos. Se recebemos um telefonema enão retornamos, ficam com raiva. Quando atendemos, a conversa é marcada por sinais de mensagens entrando via redes sociais – e são muitas –, e-mails e ligações em espera.

Admito: estou empanzinado. Para quem não está familiarizado com a palavra, estou abarrotado, empachado, empanturrado, farto, repleto, saciado...

Eu tenho sentido a perda de domínio sobre o meu tempo. Não consigo mais controlar aquilo de mais precioso que uma pessoa tem, pela invasão digital ao qual estou exposto.

Como sair desse dilema? Qual o caminho? Busquei na literatura atual e encontrei a inteligência intrapessoal, pela qual adquirimos a“habilidade de trabalhar limitações, potencializar características positivas e enxergar melhor oportunidades que aparecem em sua vida”.

Segundo esse ensinamento, é possível aperfeiçoar a capacidade de autognose e de utilização plena das nossas competências.

Sócrates dizia: “Conhece-te a ti mesmo”. Estou tentando me autoanalisar, aprimorar a minha capacidade de conhecer a mim mesmo e utilizar isso na ocupação do meu tempo.

Tenho buscado valores importantes, só que a invasão pelo mundo digital proporcionou uma nova forma e conceito de relacionamentos. Multiplicou as interações pessoais, fazendo com que as suas referências do passado e do presente estejam no seu dia a dia.

Você antigamente tinha um colega de turma, sobre quem, ao longo da vida, só saberia se estava vivo ou morto. Hoje formam-se grupos de colegas que passam a estar presentes no seu dia a dia. É uma coisa fantástica para a minha geração, mas infelizmente ocupa o nosso tempo.

A sensação que tenho é de estar perdendo algo precioso, o que tem gerado em mim uma grande interrogação: se tempo é o que temos de maior valor, estou utilizando-o bem, gastando-o em redes sociais, respondendo não raro a mesma mensagem recebida de diversas origens?

Não somos imortais. Nosso tempo é finito. É por estar consciente disto que sinto-me empanzinado.

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