terça, 13 de novembro de 2018

Roberto Cavalcanti
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Cinismo

23 de setembro de 2018
Em meio à crise econômica, cujo pico foi em 2015/2016, muitos brasileiros optaram por mudar para outro país, na esperança de garantir um futuro sem sobressaltos para suas famílias.

Em meio às crises ética e política, ouvi muitos depoimentos de viajantes que evitaram propagar nossa nacionalidade, que um dia foi sinônimo de alegria e hospitalidade e passou à vergonha da corrupção.

Como cidadão, tenho feito de tudo para não perder a fé no Brasil. Ao invés de focar apenas no cenário presente, tento olhar lá na frente e focar nas potencialidades, afinal somos também um país gigante. E o mundo reconhece.

Contudo, admito que nem sempre essa estratégia funciona. Às vezes, até conseguimos escapar de dar uma resposta, mas a pergunta ouvida fica martelando em nosso cérebro, exigindo que encaremos a situação.

Como não me sentir encurralado quando questionado por parceiros comerciais sobre a “normalidade” com que acompanhamos a condução de uma campanha à Presidência da República, de dentro de uma cadeia?

Outra: no Brasil, igualmente aceitamos que bandidos que não são do colarinho branco comandem suas operações criminosas de dentro dos estabelecimentos penais?

Quem demonstra ter mais poder a partir do cárcere, os políticos condenados e vitimizados, ou os criminosos comuns?

Como nossos magistrados, especialmente da Suprema Corte, têm tratado essas questões, de forma a preservar os valores do estado democrático de direito, baseado na democracia representativa e participativa, no império da lei, igual para todos, na segurança jurídica e na justiça social?

Mentalmente ensaio as respostas, começando por esclarecer que não é possível identificar viés ideológico na origem dessa crise nem nas “soluções” que a classe política tem apresentado.

A reforma política resultou da necessidade de dar uma satisfação aos brasileiros, estarrecidos com as revelações da Lava Jato. Acabar de vez com as doações empresariais seria o tiro de misericórdia na corrupção, no “sistema de trocas” entre políticos e financiadores.

Na verdade, a reforma introduziu um sistema que fortalece exponencialmente as chances de perpetuação de quem está no poder. Os grandes partidos ficam com mais recursos públicos e mais tempo de propaganda, e distribuem da forma que quiserem.

Foi um freio na almejada renovação, como antecipam as pesquisas de intenção de votos. Até as regras da propaganda protegem quem tem rabo preso.

Considero mais fácil assegurar que o confronto “esquerda” versus “direita” não pode ser entendido ao pé da letra. Que as coligações em diversos Estados mostram que os partidos, de A a Z, se misturam com facilidade, e que as separações são determinadas pelos interesses pessoais, não por ideologias.

Penso em abrir um parêntese e afirmar que, para mim, a divisão só é possível se colocarmos de um lado os com princípios éticos e morais, e, do outro, os imorais, que são aqueles que conhecem as regras, mas escolhem desrespeitá-las.

Como devo classificar um candidato que, questionado sobre crimes praticados pelo seu partido e por ele como gestor, mantém-se sorrindo? Que é o máximo do cinismo?

Devo lembrar que houve um tempo em que o Brasil se mobilizou contra a esquerda que ameaçava “criancinhas”, mas que hoje os temidos são os bandidos disfarçados de políticos?

Como estamos a 14 dias das eleições, vou torcer por uma resposta coletiva. Vou aguardar a inspiração das urnas. Sou do tempo de mocinhos contra bandidos. Que os mocinhos vençam, para que possamos reconstruir, inclusive, a imagem de nosso País lá fora.

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