terça, 19 de março de 2019

Roberto Cavalcanti
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Calote

14 de fevereiro de 2019
De uma forma geral, calote é dívida ou compromisso não cumprido. Para mim, acertado é acertado, estando certo ou errado. Vou em busca de resgatar histórias nossas, e dos outros, do presente ou do passado, para deixar claro esse entendimento.

Quando falo em errado, parto da suposição de que o acordo não deveria ter sido pactuado. Já que foi, não tem desculpa: é compromisso não cumprido.

Mergulho no passado pelas mãos do historiador Frederico Pernambucano de Mello, especificamente no capítulo cinco, “O capanga da legalidade”, do livro “Apagando o Lampião” (Global Editoral, 2019), que narra a contratação, pelas forças governistas, de Virgolino Ferreira da Silva, o célebre Lampião, que passou então a ser chamado de “Capitão Virgolino”, patente essa oficializada no Juazeiro, em 1926.

Não foi presente para o cangaceiro. Foi acordo; foi negócio. Em troca, garantia seus serviços - e de todo o seu bando, é claro -, no combate à coluna Prestes, movimento revolucionário que irrompeu no Sul e que, à época, percorria o Nordeste.

A concessão conferida a Lampião tinha base legal. Obedeceu ao decreto n° 13.750, de 10 de setembro de 1919, do presidente da República, garantidor de “todas as vantagens e regalias” da patente em que tivessem sido aproveitado o ungido, “na conformidade do n° 5, letra C, do regulamento de continências do Exército Brasileiro”.

Formou-se, assim, um grupo conscrito na emergência, uma mistura de soldados do Exército, cangaceiros e jagunços – o Batalhão Patriótico do Juazeiro.

Adiante temos a narrativa de um Lampião desesperado para receber o que lhe era devido e ao seu bando, pelo Governo Federal.

Revela uma reunião secreta de cobrança, em 9 de abril de 1927, com o padre Cícero, fiador do acerto. Observa que com certeza não era tarefa fácil cobrar do sacerdote. Por outro lado, como não ser recebido “quem traz no bornal fatura de serviços prestados de boa-fé, inteiramente de acordo com os ajustes levados a efeito?”

Nem o “santo” conseguiu que o governo honrasse a dívida. Sem pagamento, o capitão Virgolino, revoltado, abandona perseguição à coluna Prestes e volta ao puro cangaço, a ser Lampião, e de imediato saqueia a sede do município de Bezerros, seguindo essa trilha até a sua morte.

Já assisti, ao longo da vida, quebras de compromisso de todas as magnitudes. Não esquecerei jamais, por exemplo, o não pagamento por parte do Dnit de serviços contratados e realizados pela construtora de um grande amigo.

Tentando reparar esse inaceitável calote, cheguei às portas do então ministro responsável, César Borges, meu ex-colega no Senado, e de nada adiantou. O débito não foi pago. Como consequência, perdi, no desespero, meu amigo, e o Brasil, um grande empresário.

Considero imperdoável, e verdadeiro calote, aquele que é dado por quem acerta, contrata, tem o serviço ou produto entregue, e podendo pagar, não paga. Aos que não podem, minha compreensão.

Empresarialmente tenho vários calotes a resolver, cobranças a fazer. As que mais me trazem indignação são aquelas do “fio do bigode”, as pactuadas entre amigos cujo documento único é a palavra.

Lamentavelmente, atualmente assisto ao total desrespeito à palavra empenhada. Falo de pessoas físicas ou jurídicas. Quebra de compromisso não é resultante da dimensão, do valor. É simplesmente um problema comportamental.

Registro também aqueles do serviço público, que, por trás de uma suposta impessoalidade, ficam jogando o jogo sujo da não responsabilidade.

Tenho 50 anos de atividade empresarial. Imagine por quantas pendências tive de passar, e resolver. Como cristão, tenho a consciência de que perdoar enriquece a alma, eleva seu crédito para com o Senhor. Como empresário/gestor tenho o dever profissional de não perdoar. Faço todo tipo de acordo, desde que não saia de mãos abanando.

Novos tempos? Novos hábitos? Não! A história da humanidade está repleta de quebras de compromisso. Faz parte do ser humano e de suas deformidades.

Citei o caso de Virgolino para ilustrar e caracterizar o lado do compromisso supostamente errado, jamais para justificar os seus métodos de cobrança, se bem que ele estava corretíssimo em cobrar. Quem quebrou a palavra não foi ele. Nesse caso, estava apenas, ao seu modo, executando uma dívida.

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