sábado, 17 de agosto de 2019

Renato Félix
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Boechat tinha ginga

13 de fevereiro de 2019
A morte de Ricardo Boechat me bateu forte.

Poucas vezes eu gritei "Meu Deus!" na redação, como hoje, ao ao me deparar com a notícia da morte de alguém.

Era um dos jornalistas que eu mais admirava. Mesmo não concordando sempre com ele, o que faz parte.

Minhas primeiras memórias dele são do final do século passado ou começo deste, sendo o comentarista de política do "Bom Dia Brasil" reinventado e comandado por Renato Machado e Leilane Neubarth.

Me marcou muito, numa época em que o jornalismo de TV ainda era muito sisudo, aquele telejornal mais despojado, estilo com o qual as participações de Boechat casavam perfeitamente.

Boechat era um comentarista político que tinha ginga, sabia ser engraçado. Nunca tinha visto aquilo.

Isso não afastava sua contundência. Batia firme em castas cheias de privilégios, como magistrados que iam escapar em uma reforma nas aposentadorias. Estou falando de uma coluna de 1997, para ver que o problema não é de hoje, nem a indignação de Boechat. Já na Band, teve ministro do STF pedindo sua cabeça ao dono da emissora — pedido negado. Continuou ouvindo verdades que não queria.

Anos depois, voltei a encontrar seu trabalho mais de perto na Band. Principalmente via Band News. Seu comentário matinal entrava ao vivo no Café com Jornal, na TV, e era aí que ele era acompanhado diariamente lá em casa. "É hora do Boechat, muda o canal", a gente dizia. E vinham 15 minutos de um bom papo.

Ali ele estava livres das amarras de âncora do Jornal da Band: falava com os pingos no is e chamava na chincha.

Nessa época sombria do Brasil, com o jornalismo prestes a ser perseguido abertamente e poderosos namorando irresponsavelmente o fascismo, ele era uma voz fundamental.

O jornalismo perde, o Brasil perde, a inteligência perde, o bom humor perde.

Fica a lembrança de um cara que nunca foi pego com batom na cueca. Toca o barco.

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