quarta, 26 de junho de 2019

Renato Félix
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Bem começados

07 de novembro de 2018
"Bem começado é meio caminho andado", já dizia Mary Poppins em seu filme homônimo, de 1964. No cinema, sem dúvida, começar bem um filme pode não significar com certeza que o resto dele vai estar à altura, mas pode ganhar o espectador mais atento à narrativa, deixá-lo mais "favorável" ao que virá.

Não por acaso, o digipack com quatro filmes de Ernst Lubitsch, lançado recentemente pela Obras-Primas do Cinema, tem, em um de seus extras, essa observação feita por Peter Bogdanovich a propósito de Ladrão de Alcova (1932). Em vez de partir para o óbvio, mostrando um plano geral de Veneza e seus canais e gôndolas, para ambientar a história, Lubitsch se esforçou para um início diferente, que estimulasse o espectador.

Assim, o filme começa com uma porta comum à noite, que poderia ser em qualquer lugar do mundo. Logo entra em cena um homem nada glamourouso: é o lixeiro, que vem recolher o lixo que está à sua espera na porta. E ele o leva para sua condução, aí, sim, inesperadamente para o espectador, uma gôndola. Estamos em Veneza.

Com ironia e sagacidade, o diretor fugiu do lugar-comum.

Você certamente vai lembrar de outros inícios criativos de filmes. O Poderoso Chefão (1972) tem um dos melhores: o discurso que começa na tela preta e com "Eu acredito na América", por um personagem que, vamos descobrir, é supercoadjuvante na trama.

Ou que tal o de Cidadão Kane (1941), com o close na cerca e na placa "Não ultrapasse", para depois ultrapassarmos com a câmara, que se aproxima cada vez mais da mansão, mostrando aos poucos os estranhos arredores, até invadir o quarto e presenciarmos a última palavra de um moribundo.

Qual seria o melhor de todos? É uma pesquisa difícil, mas prazerosa. Não custa nada começar. Lembre-se: bem começado, já é meio caminho andado.

 

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