sábado, 21 de setembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Alerta

25 de julho de 2019
“Sonho que se sonha só/ É só um sonho que se sonha só/ Mas sonho que se sonha junto é realidade”, cantou Raul Seixas em “Prelúdio”.

Há 142 anos, foi plantada a semente de um projeto que tem potencial para transformar o Nordeste. Nascia em 1877, quando o imperador Dom Pedro II, impactado pelos danos humanos e materiais de duas grandes secas (1844-1845 e 1877-1879), deu início a um sonho que minimizaria o sofrimento do povo nordestino, e agora é sonhado por milhões.

Erroneamente batizado de transposição no Império, esse megaprojeto foi abandonado por muitos governos, da Velha à Nova República.

Sempre os opositores levaram nítida vantagem, a começar pela divisão das forças da região Nordeste. Levantaram-se sistematicamente contra os nordestinos da Bahia, Sergipe e Alagoas, por terem o “Velho Chico” cortando as suas terras. Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, os reais beneficiários, muito lutaram para vê-la materializada.

Sinto-me confortável em abordar o tema porque, pelo tempo que levou até agora - e ainda não está finalizada -, passou por todas as tendências ideológicas que governaram nosso País.

Poderia pinçar alguns nomes de governantes que estão vinculados à sua história: em 1943, Getúlio Vargas retomou discussões para viabilizar um projeto, mas foi João Batista de Figueiredo quem conseguiu concretizar o primeiro, feito pelo seu atuante ministro do Interior, Mário Andreazza.

Itamar Franco deixou sua marca ao enviar ao Senado um decreto declarando ser a obra do interesse da União, e designando o seu ministro da Integração, o nordestino Aluízio Alves, para levar adiante sua execução.

Fernando Henrique Cardoso imprimiu sua digital ao assinar o documento “Compromisso pela vida do São Francisco” e um novo modelo de gestão dos recursos hídricos, expresso pela “Lei das Águas”. Já Luiz Inácio Lula da Silva, em seu primeiro mandato, contratou os estudos ambientais para fins de licenciamento pelo Ibama, para finalmente em 2005 aprovar o Projeto de Integração do rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional.

Em 2007, o Exército iniciou as obras do Eixo Leste, tendo um consórcio de construtoras assumido o Eixo Norte. Muitas histórias rolaram, passando pelo governo Dilma Rousseff, até ser simbolicamente inaugurado o Eixo Leste ao final do governo Michel Temer.

Como nordestino, acompanhei, detalhe por detalhe, essa fantástica obra. Nunca, no entanto, tinha estado lá fisicamente. Tenho um vizinho de prédio e amigo, Cícero Lucena, ex-ministro da Integração, que participou diretamente do projeto. Sempre recorri as suas informações privilegiadas.

Só boas notícias, principalmente após testemunhar o socorro hídrico dado às populações de 19 cidades abastecidas pelo açude de Boqueirão no final do ano passado. Estava o São Francisco despejando as suas águas após a Serra do Jabitacá (PE), na calha do rio Paraíba.

Lá fui eu abraçá-lo, enfim, fisicamente, nas várzeas do Moxotó, nas mangas da Santa Maria dos meus encantos.

O impacto foi grande. Levei anos amando a distância e, mesmo assim, não contive a emoção. Em 30 de abril deste ano, dormi nos braços da transposição, digo, da integração de bacias. Não dormi bem. Já estava configurada a não prioridade da conclusão da obra.

Como vimos, os pais foram vários, paralisações foram muitas. Eu mesmo, no Senado, ainda no governo Lula, protestei contra uma dessas paralisações. Em 05.06.11, já no governo Dilma, escrevia no jornal Correio sobre seus impactos. Agora, que falta tão pouco, não podemos abandonar o recém-nascido à inclemência do tempo, aos efeitos do sol.

Parte dos seus canais estão secos desde abril. Vi com meus próprios olhos. É chegada a hora de abandonarmos os discursos e posicionamentos da discórdia e “nordestinamente” abraçarmos essa causa.

De todos, somos nós, paraibanos, inquestionavelmente os mais necessitados e futuramente beneficiados maiores dessa integração de bacias. Hoje, vivo um amor, uma paixão pelo sonho que o projeto nos permite sonhar. Não vou abandoná-lo jamais. Ou é agora ou perderemos tudo.

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