quarta, 05 de agosto de 2020


Roberto Cavalcanti
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A força do olhar

14 de março de 2020
Ao retornar de uma fantástica viagem ao sudeste asiático trazia dentro de mim um incontido desejo de transmitir, partilhar alguns sentimentos. Nascido e criado em uma família que sempre cultuou as academias (no caso me referindo aos centros de cultura e ensino, isso mesmo, sem acento circunflexo, o que nos levaria ao gesso), desejava repassar fundamentalmente um pouco do que vi e senti. Onde embasar o tema antes de abordá-lo?

Fui célere ao meu ponto de encontro dos sábados que é a "Livraria do Luiz". Sabia que, além do acervo editorial, encontraria sempre algum parceiro de meus voos literários. Pela sorte que sempre me acompanha esbarrei em nada menos que Hidelberto Barbosa de Araújo Filho, um confrade da A.P.L.

Tenho por ele elevada consideração e cultuo essa amizade desde quando disputei uma vaga naquela academia e conquistei a duras penas o seu valoroso voto. Sabia que estava com o interlocutor perfeito. Perguntei onde me apoiar teoricamente para escrever sobre um tema: "Sorriso". De pronto, fruto de sua sapiência, ele foi direto: "Busque o livro 'O Riso' de Henri Bergson".

Como estava em busca de transmitir apenas sentimentos, não interessava falar sobre o substantivo masculino em si, que significa o ato de sorrir, riso, discreto e silencioso: sorriso. No sentido figurado, é demonstração de simpatia, do que é amável, gentil. Expressão facial, com os lábios distendidos para os lados, de quem está contente.

Muito menos trataria sobre a etimologia (origem da palavra sorriso, do latim subrisus, us, de sudridere, “sorrir”).

O riso desarma as pessoas. É universal na espécie humana, única a ter esse privilégio; é muito mais que uma manifestação de alegria; atenua hostilidades e agressões. Quanto importante é o sorriso, que nós frequentemente rimos quando nos desculpamos.

Volto à fantástica viagem que muito me enriqueceu durante rápidos 23 dias dos quais 12 dedicados exclusivamente ao Vietnã. Devo tudo isso ao esmero, competência, foco de visão e cultura da minha mulher Sandra. Não fosse ela, estaria gostosamente atendido em um pagão carnaval no veraneio de Camboinha.

Foco absoluto em história e cultura. Shoppings, centros comerciais, só para fotografar detalhes arquitetônicos.  Compras, em feiras livres e mercados artesanais. Museus, templos, cidades tombadas pela Unesco fizeram parte do nosso cardápio diário.

Sorte, muita sorte. Iluminação divina e planejamento. Momento único!

O sudeste asiático (Camboja, Vietnã e Tailândia) estava às moscas. Tinha perdido em um só impacto (coronavírus) 50% dos visitantes apenas com a ausência do turismo chinês, majoritário naquela região.

Males que vêm para o bem. Disponibilidade de tudo. Upgrade automático e espontâneo nos melhores hotéis, restaurantes, mesmo os mais exclusivos disponíveis sem reserva prévia. A pandemia agora declarada já causava danos imensuráveis ao turismo mundial e, em especial, ao daquela região.

Gastaria a paciência e páginas para descrever o que vi de bom sem ser incomodado.

Chego agora à essência do meu relato. Como tudo na vida existem dois lados, duas visões. Privilegiado pela ousadia de lá estar em tempos de quarentena, desfrutando de não ter o desconforto que teria com grandes fluxos turísticos, perdi, no entanto, parte do sorriso daquela gente.

Máscaras cirúrgicas por todos usadas me impediram de expor meu sorriso e de aferir os deles. Perdi! Restou em substituição a esse precioso dom humano a acuidade de decifrar olhares.

Esses sim, encantavam-me onde quer que estivesse. O brilho do olhar daqueles que milenarmente habitam aquela região é surpreendente. Trago de forma inesquecível em minha mente os registros de tão lindos e sofridos olhares.

Perdi parte dos sorrisos, superei com esse outro dom humano que é a capacidade sensitiva que nos permite aferir olhares. Voltarei um dia para dar e receber sorrisos.