segunda, 10 de dezembro de 2018

Renato Félix
Compartilhar:

A aula de John Ford

05 de dezembro de 2018
Existe um vídeo no YouTube com um depoimento de Steven Spielberg falando de uma vez, quando jovem, em que foi ao escritório do mítico John Ford em busca de conselhos sobre como ser um bom diretor. Tão irascível quanto mítico, Ford deu o conselho bem ao seu estilo.

“Quer ser um diretor? Bem, está vendo aquele quadro na parede? O que tem nele?”

“Uma paisagem, senhor”, respondeu o garoto.

“Não, não! Me descreva o que vê!”.

“Um horizonte”.

“E a linha do horizonte? Onde ela está no quadro?”.

“Bem, está na parte de baixo".

“Ótimo. Agora va embora. No dia em que você souber se vai colocar a linha do horizonte em cima ou embaixo no seu quadro, aí você terá se tornado um diretor”.

O que Ford quis dizer com isso? Pode não ser muito claro para o espectador porque a linha do horizonte numa paisagem está “mais embaixo”, mostrando muito mais céu do que chão, ou o contrário, mais em cima, mostrando mais chão do que céu.

Mas o que o Homero do cinema quis dizer é que o diretor não pode (ou não deveria) filmar a paisagem a esmo, de qualquer jeito. Ele precisa ter, nem que seja para si, o motivo pelo qual ele colocou a linha do horizonte em determinada posição.

É claro, também, que a paisagem, a linha do horizonte é uma metonímia. Ou seja: ele está falando do todo pela parte, usando essa imagem em particular para falar do cinema em geral. O diretor precisa saber como vai filmar suas cenas e por que fazer deste ou daquele jeito.

Spielberg, em particular, parece ter aprendido bem a lição. Em todos os seus filmes há um cuidado bastante evidente não só sobre o que mostrar, mas como, com planos e movimentos de câmera planejados e muitas vezes fascinantes.

Relacionadas