sábado, 24 de outubro de 2020


Roberto Cavalcanti
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06/03/2020

05 de março de 2020
Esta é uma missiva dirigida ao futuro. Enquanto você lê, recorto, envelopo e lacro estas inquietações (partilhadas hoje nas páginas do Jornal CORREIO) para que o tempo me traga as respostas.

Minha cápsula já tem data para ser aberta: dia 6 de março de 2020.

Por quatro anos, ela hibernará. Só então retirarei o lacre. Revisarei minhas inquietações. E responderei minhas dúvidas.

Se não estiver por aqui (toc, toc, toc), quero que os meus abram. Eles comungam das mesmas dúvidas. E sei que em 6 de março de 2020 elas estarão dirimidas. Nesta data, o que hoje está revolto pelo turbilhão dos acontecimentos, finalmente, estará claro.

E a pergunta que envio hoje ao futuro é elementar. Assalta, com certeza, a maioria dos brasileiros sacudidos pelas turbulências deste 2016:

A Lava Jato produzirá antídoto eficiente para que o Brasil de 2020 esteja vacinado contra o vício da ladroagem, da bandalheira e da vantagem que sobreviveu 500 anos, inoculado na alma nacional?

Será que vamos conseguir alvejar os ritos contaminados dessa pátria historicamente tão gentil com seus corruptos e corruptores?

A Lava Jato nos trouxe essa esperança ao sinalizar que não há limites para prisões.

O que todos nós nos perguntamos é se bilionários, vendo o sol nascer quadrado, terão potencial para alterar o curso do círculo vicioso que emperra as engrenagens do País?

Ou se as algemas que laçam os políticos mais poderosos podem anular, finalmente, as regras perversas desse jogo que contamina o Brasil?

De uma coisa sabemos desde já: nem quando Cabral aportou sua barca colonizadora sobre a liberdade ameríndia; nem quando Pedro bradou pela independência do jugo da Coroa; nunca antes (nunca mesmo) na história desse País, o Brasil teve suas entranhas tão reviradas. E os filhos seus tão suscetíveis.

Do mais raso lobista ao executivo mais poderoso; do mais inexpressivo prefeito à presidente da República – ninguém parece blindado (graças a Deus) contra esta surpreendente devassa empreendida pelas instituições jurídicas e policiais do País, batizada de Lava Jato.

A lavanderia está aberta. A sujeira também.

Até o mais ingênuo dos brasileiros sabe que está é uma nação contaminada pela corrupção, pelo tráfico de influências e por “propinodutos” que entopem as artérias do poder.

Estas são as regras do jogo. E são duras.

Mas, repito: será que o gigantismo da Lava Jato pode nos conduzir a epílogos inéditos?

Minha experiência particular – e de muitos que, como eu, viveram tempo suficiente para acompanhar os fluxos e refluxos da República nacional – não sinaliza para futuro promissor.

O que vi nessas quase sete décadas foram erupções midiáticas arrefecerem em operações abafa. Escândalos serem esquecidos. Prisões relaxadas. Provas anuladas pela esperteza advocatícia remunerada a peso de ouro.

Esta jurisprudência negativa, porém, não me impede de desejar um Brasil diferente em 2020 – uma aspiração coletiva, um sonho plural, partilhado pela maioria dos brasileiros que acordaram neste domingo.

Aos que estão escrevendo o futuro, meu recado do presente:

Esse Brasil, que tanto desejo encontrar ao abrir minha cápsula do tempo, só poderá ser forjado numa condição essencial:

Numa pátria que decrete o fim irremediável da impunidade.

*Artigo publicado originalmente em 6 de março de 2016