sábado, 21 de setembro de 2019
Cinema
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Fest Aruanda traz para a PB produções inéditas que dialogam com passado

André Luiz Maia / 11 de dezembro de 2018
Foto: Divulgação
Mais uma noite de estreias no Fest Aruanda. Pela primeira vez, o público pessoense poderá conferir duas produções, uma delas dirigida e produzida no estado, que é o caso de Ambiente Familiar, de Torquato Joel. Hoje, o público também poderá conferir a cinebiografia Simonal, de Leonardo Domingues.

Primeiro vem o filme de Torquato. O nome já dá alguma pista sobre a temática do filme, a família. No entanto, não se trata do modelo tradicional, mas sim os novos e múltiplos arranjos que se apresentam na sociedade. Torquato afirma que, embora seja uma ficção, sua percepção pessoal do longa é que se trata de um grande documentário reconstituído.

Tudo começa quando o diretor conhece três rapazes que moram juntos, constituindo uma família sem vínculos sexuais ou consanguíneos. O que os une, na verdade, são as memórias e traumas em comum, que desencadeiam uma rede de afeto. Eles alugaram o apartamento do cineasta e, com o tempo, estreitaram laços de amizade.

Em uma viagem para a Praia do Sagi, na divisa entre Paraíba e Rio Grande do Norte, veio o estalo. “Dois deles viajaram e logo quando chegaram lá, ficaram bastante preocupados em avisar ao outro que ficou que chegaram bem, que a viagem tinha dado certo. Começamos a brincar, que isso era bem típico de ambiente familiar, que a gente faz com pai, mãe, irmão. Pensei: 'essa história daria um filme'. A ideia ficou na cabeça”, relembra Torquato Joel.

Ao longo do tempo, ele foi observando alguns acontecimentos-chave na vida do trio que foram aos poucos virando referência para cenas que poderão ser vistas no filme. Entre os quase três anos da aprovação do projeto do filme no edital Walfredo Rodriguez, da Prefeitura de João Pessoa, e a liberação da verba, muita coisa mudou, inclusive o contexto político.

“Falar sobre outras possibilidades de família no tempo atual é importante e imprescindível. É acabar com essas ideias pré-concebidas, dessas caixinhas que tentam nos colocar todo o tempo”, pontua Joel.

Ao falar das transformações sociais como termômetro da produção de um filme, é inevitável não entrar no outro filme da noite. Simonal é um projeto que o diretor Leonardo Domingues alimenta desde 2010, após a repercussão do documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, do qual integrou a equipe de pesquisa.

Para quem não sabe, Wilson Simonal foi um sucesso meteórico na década de 1960, se tornando um dos negros mais bem-sucedidos na música popular massiva no Brasil até então. O que parecia glória se torna tragédia quando ele passa a ser apontado como informante do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), o órgão repressor do regime militar instaurado no Brasil em 1964. Nunca houve provas que conectassem Simonal à ditadura, mas a classe artística e o mercado musical o rechaçaram prontamente.

“Quando eu comecei a tentar fazer o filme, o Brasil vivia outro momento. Agora, mais próximo das filmagens, delação já não tinha a carga negativa de antes, estava estampado nos noticiários com a palavra 'premiada' junto. Foi um desafio tentar contextualizar aquele momento para que tudo ficasse bem contextualizado no filme”, conta o diretor, em entrevista ao CORREIO.

O racismo também, na opinião do diretor, é preponderante para entender o caso. “Antes mesmo desse episódio, as pessoas já desmereciam o trabalho de Simonal, por ser algo mais comercial, sem comprometimento político. Na mesma época, Roberto Carlos e a Jovem Guarda recebiam as mesmas críticas, mas quem não era perdoado por nenhum deslize era Simonal. Havia sim uma questão racial envolvida. É um tema muito discutido hoje, então há certa atualidade no filme”, completa.

Essas críticas à superficialidade e “alienação” não se restringiam apenas a Simonal, mas sim ao movimento do qual fazia parte, o Pilantragem, liderado por Carlos Imperial. “Eu vejo que só o ato de ser da pilantragem já era um ato político, com outro viés, é claro, mas só de eles representarem o que representavam já dizia bastante”, opina Domingues.

Quem encarna o cantor nas telonas é o ator Fabrício Boliveira, que vem desenvolvendo uma carreira sólida em trabalhos no cinema e na televisão. “O conheci em Nise - O Coração da Loucura, onde fui montador. A montagem te dá um recurso ótimo que é ver o ator em sua completude. Fiquei muito impressionado com ele ali e foi minha primeira escolha ao escalar o elenco para Simonal”, afirma.

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