domingo, 09 de maio de 2021

Cinema
Compartilhar:

Coleção em DVD reúne a obra completa de Jacques Tati

Renato Félix / 23 de dezembro de 2018
Foto: Divulgação
Um homem de aparência e postura tão particulares, que possui uma dignidade própria a despeito das trapalhadas em que se mete, e, de alguma maneira, parece meio deslocado do tempo que o cerca. Podia ser o Carlitos de Charles Chaplin, mas também é uma descrição apropriada para o Sr. Hulot, personagem de Jacques Tati em quatro longas-metragens, e que o ajudou a ser consagrado o maior mestre da comédia francesa no cinema.

O lançamento do selo Obras-Primas do Cinema é um digipack que reúne toda a obra de Tati para o cinema em seis DVDs. Tati dirigiu pouquíssimos longas, apenas seis, mas a coleção traz também seus curtas, além de oito horas de extras, que incluem documentários e entrevistas sobre o homem e sua obra.

Os filmes de Tati já haviam saído em DVD no Brasil em edições questionáveis da Continental/ Magnus Opus.Agora, os filmes estão restaurados e é possível apreciar a beleza visual dos filmes do cineasta, com  seu olho sempre desconfiado para o progresso e simpatia pelos sentimentos simples, humanistas e desprovidos de vaidades.

Tati era descendente de russos (seu nome era Taticheff) e seu avô era um conde. Tati graduou-se em artes, mas depois enveredou pelos esportes: boxe, tênis, rugby. Mas ele também era ótimo em imitar os colegas e em fazer pantomimas, e, aos 24 anos, em 1931, foi tentar também o mundo dos espetáculos.

Durante sua trajetória por teatros e circos, encurtou seu nome, começou a fazer sucesso e estrelou seus primeiros curtas, onde explorou a pantomima sobre os esportes: fazia piada com o boxe e com o tênis.

A carreira sofreu um hiato forçado por causa da II Guerra Mundial e a ocupação nazista na França. Não fez nenhum filme de 1938 a 1946, mas voltou às telas pelas mãos do amigo diretor Claude Autant-Lara em um pequeno papel em Silvia e o Fantasma (1946), que não consta nessa coleção que reúne apenas os longas dirigidos por Tati.

O primeiro foi Carrossel da Esperança (1949). É a história de um carteiro de uma cidadezinha a quem pregam uma peça: um filme falso que mostraria técnicas avançadas dos Correios nos Estados Unidos. Achando que era tudo verdade, no dia seguinte, ele tenta, com sua bicicleta, implementar essas "novas técnicas".

Ainda não era seu personagem mais famoso, que estrearia em seu segundo longa: As Férias do Sr. Hulot (1953). De pernas longas, sobretudo, chapéu e cachimbo, Hulot é um boa-praça que não consegue se adaptar muito bem ao mundo tecnológico que começa a aparecer ali nos anos 1950.

Hulot também fala pouco. Isso favorece a comédia visual, a pantomima, no que Tati era uma grande craque. E aproxima o personagem e seus filmes do cinema mudo — e, por associação, de Chaplin e de Buster Keaton.

Hulot voltaria em mais três filmes. O seguinte é a obra-prima de Tati: Meu Tio (1958), em que Hulot é o tio de um garotinho cujos pais vivem em uma casa cheia de traquitanas modernas, muitas desnecessárias ou que acabam não funcionando direito. Hulot, por sua vez, é um tio à moda antiga, que liga o sobrinho a uma realidade mais pé no chão e amorosa.

Tati levaria dez anos para que sua nova empreitada chegasse ao cinema — desta vez, muito mais ambiciosa. Playtime — Tempo de Diversão (1967) foi filmado em 70mm e demandou três anos de filmagem e grandes cenários em seu próprio estúdio, batizado de Tativille. Era um grande painel de novo colocando Hulot contrastando com um mundo tecnológico e frio, mas numa escala maior que a de Meu Tio. O filme era uma sucessão de gags nessa ambientação e havia ainda menos história. E Tati se recusou a fazer uma cópia 35mm para exibir em cinemas menores, limitando a exibição às salas que podiam projetar em 70mm. Resultado: um fracasso de bilheteria, que deixou Tati endividado por anos. Precisou vender a casa da família, inclusive.

O filme, com 2h35, teve outras remontagens que o encurtaram (nos EUA, chegou a passar com 1h33). A crítica já o reconheceu na época e, hoje, Playtime tem status de clássico.

Quatro anos depois, Hulot estaria de volta para sua despedida, em As Aventuras do Sr. Hulot no Tráfego Louco (1971). Como o título deixa claro, agora Hulot está ás voltas com o mundo dos automóveis. É uma produção financiada na Holanda, inicialmente prevista para ser um telefilme.

O longa final de Tati é Parada, telefilme para a TV sueca, onde não há história: Tati se apresenta diante de uma plateia e mostra suas capacidades de mímico em uma série de números.

Tati queria retornar a Hulot em um novo filme, Confusion, mas morreu em 1982 antes de conseguir filmar. Ficaram as obras que formam um belo testamento de um artista que prezou por sua integridade.

Relacionadas