segunda, 14 de junho de 2021

Violência
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Violência: Quatro mortes por dia e o grito de socorro que vem das famílias das vítimas

Mislene Santos / 08 de maio de 2017
Foto: Rafael Passos
As lágrimas que rolaram dos olhos de Sandra Bezerra chegaram a molhar o gravador por várias vezes durante a entrevista. “Ela saiu para se divertir e não voltou. Só de me lembrar disso, não consigo nem falar”, desabafou. Sandra perdeu a mãe, Maria das Dores Silva Bezerra de 54 anos, no dia 17 de março de 2013. “Quem fez isso com ela acabou com a nossa família, pois ela era tudo que nós tínhamos”, lamentou.

Dona Dora, como era conhecida, morreu vítima de uma bala perdida, em um bar no bairro de Nova Mangabeira. “Eles chegaram atirando para matar os inimigos deles que estavam no bar também, mas mataram a minha mãe. Levaram minha mãe que não tinha nada a ver com a briga deles”, lembrou Sandra.

A morte de dona Dora mudou completamente a rotina da família. A depressão, o pânico e vários traumas passaram a fazer parte da vida de quem ficou.  Sandra Bezerra, filha mais velha, perdeu a perspectiva de vida. Por conta disso, se afastou do trabalho e teve que ser levada às pressas para o hospital por várias vezes. Para poder seguir a diante passou a fazer uso de vários remédios controlados.

A outra filha, Sirleide Silva mergulhou em uma depressão profunda. Chorava com facilidade e não via mais razão para continuar a vida. “ Ela só vivia trancada no quarto chorando, dizendo que queria morrer”, lembrou Sandra. A impaciência e irritabilidade tomaram conta dos outros dois filhos, Silvânia e Sidney Bezerra. “Até de casa meu irmão (Sidney) saiu deixando a família para trás. Se minha mãe tivesse viva nada disse teria acontecido”, lamentou Sandra.

Onde encontrar ajuda

Perder alguém que ama e não ter ajuda para tentar amenizar e superar essa dor. Esta é a situação da família de Sandra e de inúmeras pessoas que vivem na Paraíba e viram a vida de entes queridos serem finalizadas precocemente devido a violência. O sentimento que fica é o de pleno abandono por parte do poder público e, diante disso, há quem pense em fazer justiça com as próprias mãos.

Quem passa por esse tipo de situação pode se entregar ao álcool, as drogas, entrar para criminalidade para tentar superar a perda. Estas pessoas com certeza precisam de um acompanhamento profissional para poder superar esses traumas, conforme prevê a psicóloga Patrícia Diniz.

Na Paraíba fica sob a responsabilidade dos municípios oferecem assistências às pessoas que enfrentam algum tipo de trauma ou vícios, através dos programas de assistência social e psicológica, através dos  Centros de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (Caps), Centro de Referência de Assistência Social (Cras), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). Em todo o Estado existem 81 Caps, 104 Creas, sendo 26 estaduais que atendem a todos os municípios que não têm Creas e 78 municipais.



Serviços não atendem a contento

O presidente da Federação das Associações de Municípios da Paraíba (Famup), Tota Guedes, disse que os programas sociais implantados pelo Governo Federal e geridos pelos municípios não oferecerem os serviços a contento à população devido à insuficiência de verbas.

“Os Craes, Cras e Caps não são suficientes e não oferecem os serviços com a excelência que deveria, porque o Governo Federal implanta o programa, mas quem tem que mantê-los são os municípios. Então, para se ter um ideia, para manter um Cras o Governo encaminha R$ 6 mil por mês e o resto quem tem que bancar são as prefeituras”, reclamou Tota Guedes.

Segundo ele, os municípios arcam com cerca de 70% da manutenção dos programas implantados pelo Governo Federal. “Para isso, tem que retirar recursos de outras fontes como FPM (Fundo de participação dos Municípios) e do ISS (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza). Então, a conclusão que tiramos disso tudo é que esses programas estão aí de enfeite”, concluiu Tota Guedes.

O que diz o Estado. A secretária de Desenvolvimento Humano, Cida Ramos, informou que o Estado não disponibiliza nenhum tipo de serviço para dar apoio aos familiares de vítimas de homicídios. “As pessoas que estão nessa situação devem procurar os serviços que são oferecidos pelos municípios como Caps (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas), Cras (Centro de Referência de Assistência Social), Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), pois eles disponibilizam de assistência psicológica, assistentes sociais que ajudam a fortalecer os vínculos familiares”, afirmou Cida Ramos.

Saudade que fica 

Os anos se passam, mas o dia que a matriarca da família se foi ficou marcado como uma cicatriz que dói na alma das filhos e netos de Dona Dora. No Facebook, a data é lembrada ano após ano.

“Hoje faz exatamente quatro anos que a senhora nos deixou, mas creio que está em um bom lugar. O que nos resta é só saudade. Te amo mãe, eternamente”, escreveu Sirleide Silva Bezerra. A outra filha, Silvania Bezerra comentou: “Minha eterna rainha...”.

A neta Evillyn Costa desabafou. “Quatro anos sem você mãe, que saudade de ter teu colo e teus conselhos. Te amo para sempre... Eloah (bisneta de dois anos) sabe da sua existência, pois sempre falo da senhora. Ela  te chama de mãe também.  Ela vê a sua foto e diz olha mãe, mamãe. Minha filha  sempre ouvirá falar do seu nome. Te amoooo”, publicou Evillyn Costa em sua conta do Facebook, no dia 17 de março de 2017.

Sem saída. Morar em uma comunidade não é sinônimo de bandidagem, muito menos de que todos que ali são criminosos. Assim como em todas as classes sociais, há multiplicidade de personalidades e de condutas. Há quem batalhe para ter uma vida melhor de forma honesta, quem não queira nada com a vida e quem tenha se envolvido em atividades ilícitas devido às circunstâncias que só a própria pessoa conhece.

Morando em uma das comunidades de João Pessoa que é dominada pelo tráfico, o rapaz que vamos chamar de João esteve entre a vida e a morte após o dono da boca de fumo do local em que vivia ser assassinado por um rival. Eles eram amigos de infância e respeitavam o estilo de vida que seguiram, mas ao traficante que assumiu o local só importava uma cosia:  aumentar seu ‘exército’.

“Depois que mataram ele (dono da boca), o cara que tomou conta queria que todo mundo fosse trabalhar para ele. Disse a ele que não era bandido e que não ia, porque sou trabalhar, sempre trabalhei desde criança. Por conta disso, mandou me matar. Descarregaram um resolver todinho em cima de mim, mas Jesus me protegeu e hoje eu vivo me escondendo feito um verme”, desabafou João.

Depois desse episódio, João passou a ser perseguido. Para não morrer, tentou exterminar quem queria tirar a sua vida. “Eu vivia ameaçado, me escondendo sem poder trabalhar. Tenho minha família, meu filho, eles precisam comer e tenho que trabalhar para isso. Tive que me proteger para não virar robô do dono da boca. Agora, estou respondendo por tentativa de homicídio”, comentou.

João disse ainda que quando teve um revólver totalmente descarregando contra ele, mesmo sabendo quem era o autor dos disparos e o mandante do crime não contou nada à polícia.

“Se for prestar queixa, além da polícia não fazer nada a gente corre mais risco ainda. Quando estava no hospital baleado, vieram me perguntar se eu sabia quem queria me matar, mas não disse nada. Falei que não tinha visto nada e que não sabia de nada. Tentaram me executar e eu tinha que me proteger, pois a polícia não iria resolver nada, porque ela não vai estar na casa da pessoa 24 horas”, contou João. “Me sinto excluído de tudo. Tenho família, minha casa, mas vivo jogado, excluído da sociedade, me escondendo dos criminosos”, complementou.

Morto na esquina de casa

Como fazia todos os sábados, o escrivão da Polícia Civil Waldir Ponce di Leon saiu para comprar pizza. Em casa, a família esperava ansiosa para iniciar o jantar. No caminho de volta, um desentendimento no trânsito. Em casa, os familiares ouviram disparos, em seguida uma batida no portão: “Seu pai foi baleado”, disse quem tentava socorrê-lo.  A filha do policial, Vanessa Ponce, correu, mas quando chegou ao local seu pai já estava sem vida.

“Ele (Waldir) já estava chegando. Ainda estava com as pizzas nas mãos. Foi um trauma muito grande, porque aconteceu na esquina de casa e vimos tudo até a chegada da perícia. Ficamos esperando aquele carro chegar (o rabecão) e levar o meu pai para sempre”, desabafou Vanessa Ponce.

A perda repentina de Waldir Ponce não deixou apenas saudade, mas trouxe traumas e desespero. Os familiares entraram em depressão e, por isso, precisaram de apoio psicológico. “Estamos aprendendo a sobrevir dia após dia. Nada que se faça vai suprir a falta que ele faz. Fazemos tratamento, tomamos remédio controlado. A família está abalada,  todos navegamos no mesmo barco, pois é muito difícil de aceitar uma perda como esta”, lamentou Vanessa Ponce.

Waldir Ponce di Leon foi assassinado no dia 21 de maio de 2016 quando trafegada de moto no bairro Valentina. Ele foi atingido por vários tiros que teriam sidos disparados por Marcelo Ramos Alves, 33 anos, que estava em um veículo que vinha atrás da moto do policial. O acusado foi preso no final de março deste ano em um restaurante localizado no município de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro.

Ajuda da Aspol

Vanessa Ponce informou que o tratamento psicológico da família está sendo custeado pela Associação dos Policiais Civis de Carreira da Paraíba (ASPOL). “Fomos muito bem acolhidos pela Aspol. Eles disponibilizaram tudo para nós. Não temos o que reclamar com relação a isso”, comentou.

Quatro mortes por dia na Paraíba

Nos últimos cinco anos (2012, 2013, 2014, 2015 e 2016) foram registrados 7.416 homicídios na Paraíba. Isto indica uma média de quatro mortes por dia. Os dados são da Secretaria de Estado da Segurança e da Defesa Social do Estado. Somente nos três primeiros meses de 2017 a Secretaria de Segurança já registrou 343 homicídios no Estado.

O secretário de Segurança, Cláudio Lima, informou que na Paraíba há uma média de 33 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes. “Esse número ainda é considerado alto, se comparado com os países de primeiro mundo que têm um índice de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes”, comparou o secretário.

Para Cláudio Lima, vários fatores, objetivos e subjetivos, contribuem para o aumento da criminalidade, um deles é o tráfico de drogas. “Não tem uma causa única para explicar esse fenômeno. Há uma pluralidade de acontecimentos que envolvem a cultura, a intolerância e a questão socioeconômica”, comentou.



Psicóloga alerta para risco de virar justiceiro

Agressividade, insônia, pânico, crises de ansiedade e choro fácil. Esses são sintomas que indicam que é momento de buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica para superar a situação que desencadeou tais sinais.  O alerta é da psicóloga Patrícia Diniz. Segundo ela, a perda repentina de um parente pode desenvolver vários traumas, como Transtorno Psicológico de Pressão (TPP), Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT) e a depressão.

“Em regra, o luto dura em média de seis a oito meses. Depois disso, as pessoas vão retomando a vida aos poucos. Quando os sintomas persistem mais do que isso é sinal de que há um trauma que precisa ser cuidado e essa pessoa precisa de ajuda”, afirmou Patrícia Diniz.

De acordo com a psicóloga, quanto mais cedo se cuidar dos traumas psicológicos desenvolvidos devido à perda trágica como o homicídio de alguém que se amava, mais chances há de reverter o quadro. Segundo Patrícia Diniz, há casos que se não forem tratados podem provocar danos psicológicos irreversíveis.

“Se houver predisposição, esse trauma pode desencadear um transtorno de personalidade de difícil reversão. Além disso, o assassinato de um ente pode causar revolta em quem ficou ao ponto deste querer virar justiceiro e fazer justiça com as próprias mãos”, finalizou a psicóloga.

Creas

Equipe Estadual – A equipe de operacionalização da Proteção Social Especial de Média Complexidade no Estado da Paraíba desenvolvida nos CREAS é formada por: 01 (uma) Gerente Operacional da Proteção Social Especial, 01 (uma) Coordenadora dos CREAS do Estado, 03 (três) Assistentes Sociais, 03 (três) Psicólogas, 01 (um) Advogado, 01 (uma) Pedagoga e 03 (três) Auxiliares Administrativos.

Endereço: Avenida Presidente Epitácio Pessoa nº 2501, 2º andar, sala 202, Bairro dos Estados, João Pessoa – PB.  Fone: 3218-6666.  E-mail: creas.sedhpb@gmail.com

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