quarta, 25 de novembro de 2020

Violência
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Motoristas de caminhão revelam o medo nas estradas

Bárbara Wanderley e Katiana Ramos / 02 de maio de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
O caminhoneiro Messias Augusto, de 44 anos, viveu momentos de terror enquanto trabalhava. Momentos que lhe deixaram um trauma de dirigir à noite e o fizeram, inclusive, perder o gosto pela profissão que exerce há 20 anos. “Já gostei muito, hoje eu só me seguro até me aposentar, porque não sei fazer outra coisa”, disse. Ele já sofreu três assaltos, sendo um no Ceará e dois na Paraíba, na região da divisa com Pernambuco, em Goiana.

O último, e mais grave episódio, ocorreu às 2h30 da madrugada, quando ele chegava ao posto fiscal de Goiana, em um caminhão dirigido por um colega com o qual revezava o volante. Eles foram abordados por um homem de moto armado com um revólver. Ao descer do caminhão, um veículo pequeno chegou com mais quatro pessoas.

O grupo levou os dois até um areial localizado pouco depois do posto, onde mais 12 pessoas apareceram para coletar a carga de correspondências e mercadorias diversas. Os dois motoristas foram deixados amarrados por cordas de nylon dentro do caminhão. A Polícia Rodoviária Federal chegou 15 minutos depois e Messias foi considerado suspeito de ter relação com o roubo. Acabou sendo demitido.

Apesar de ter feito tratamento com uma psicóloga, ele afirma que não consegue mais trabalhar à noite, pois imagina que cada carro que se aproxima vai assaltá-lo, e por sorte conseguiu outro emprego no qual só precisa dirigir durante o dia. O medo faz parte do dia a dia dos caminhoneiros e é difícil encontrar algum que não tenha vivenciado alguma situação perigosa. O caminhoneiro Lúcio Bastos, de 40 anos, se considera um abençoado por nunca ter sido roubado, mas não foi por falta de tentativas. “Já tentaram duas vezes. Tentaram me fechar na estrada com um carro e uma moto, mas como a carreta estava vazia, estava leve, eu consegui acelerar e deslanchei embora dali”, lembrou.

Segundo ele, situações como a de Messias, que foi acusado do roubo do qual foi vítima, são comuns. “Por mais que as cargas tenham seguro, a empresa sempre vai em cima do lado mais fraco, o carreteiro. Até você conseguir provar que não teve nada a ver com aquilo, já passou por muita humilhação”.

Charque, combustível e desodorante

Caminhoneiro há 15 anos, Paulo Sérgio só foi assaltado uma vez, em São Bento, sertão paraibano. Ele contou que dois homens armados saíram do mato enquanto ele passava com baixa velocidade e atiraram no parabrisa do caminhão, que ele parou imediatamente. Os homens levaram o celular e o dinheiro que ele carregava para abastecer o veículo, mas não se interessaram pela carga de rodos e vassouras. “Eles estavam atrás de uma carga de desodorante spray, acho que me pegaram por engano”, disse.

Desodorante, carne de charque e combustível estão entre as cargas mais visadas pelos ladrões, segundo os caminhoneiros, pelo alto valor de mercado e a facilidade de venda. “Um desodorante daqueles custa R$ 9. Imagine pegar uma carga com 16 toneladas?”, disse Messias.

O Trevo do Ibó, localizado em Cabrobó, e as regiões dos municípios de Xexéu e Palmares, todos em Pernambuco, foram citados como alguns dos trechos mais perigosos, além da própria área de Goiana.

“No trevo do Ibó tem assalto direto. Eles colocam paus e pedras bloqueando a pista e não tem como voltar. Um conhecido foi tentar dar ré, para escapar de um assalto lá, e acabou virando a carreta. Para pegar outro caminho a gente anda uns 150 km a mais e com o diesel no preço que está não dá.”, disse Paulo Sérgio.

Sem confiar

Lúcio Bastos contou que há também quadrilhas que se especializam em roubar pneus de caminhões. “Cada pneu desse custa uns R$ 2 mil, eles suspendem a máquina e arrancam”, contou. Para isso, ele acredita que há olheiros em postos de combustíveis e outras paradas que passam informações para as gangues. “Tem gente que fica de olho se o pneu é novo”, comentou.

Como nunca sabem quem pode estar envolvido nesses grupos, os caminhoneiros desconfiam de todos, até mesmo dos agenciadores que intermediam os trabalhos. “A gente nunca sabe”, disse Lúcio.

Muitos caminhões já possuem no parabrisa um adesivo com a mensagem “Proibido carona”. Isso porque os ladrões também podem se disfarçar de caroneiros. “Eu só dou carona se for uma pessoa conhecida, ou amiga de um conhecido, alguém que eu tenha referência”, comentou um motorista.

Risco nas divisas

Em menos de uma semana, dois motoristas de uma empresa de móveis e eletrodomésticos da Paraíba tiveram parte da carga roubada em um trecho da BR-230, próximo a Campina Grande.

Fábio de Souza é caminhoneiro há 17 anos e já viajou praticamente para todos os estados do País transportando cargas a partir da Paraíba. Apesar de nunca ter sido vítima de criminosos durante o trabalho, ele conta que constantemente ouve relato dos companheiros de estrada. “Aqui no Nordeste a gente vê menos esse tipo de situação de roubo. Não digo que as estradas são seguras, porque sempre tem o risco de acontecer alguma coisa. Mas, no Sudeste, é pior”, relatou.

Também paraibano e caminhoneiro há mais de 20 anos, Daniel Leopoldo também considera um risco trafegar pelas vias que passam pela Paraíba, sobretudo nas divisas entre os estados. Para não ser vítima de assaltantes e ainda evitar acidentes, uma das estratégias adotadas por ele é não dirigir pela madrugada e parar sempre em postos de gasolina que oferecem pontos de apoio. “Dirijo a noite só quando é realmente necessário e esses pontos de apoio é muito bom pra gente porque tanto você descansa, quanto fica mais seguro”, complementou o caminhoneiro.

Em reforma

Na Paraíba, desde agosto de 2017, os postos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) localizados no Distrito de Santa Teresinha, na saída de Campina Grande para João Pessoa, e em São Mamede, estão fechados em virtude de uma reforma. Segundo a assessoria de comunicação da PRF, as estruturas devem voltar a operar em setembro.

Na BR-230, exceto o posto localizado na saída de Campina Grande para João Pessoa, apenas o da localidade de Farinha, próximo ao município de Pocinhos, está em operação.

Foi exatamente em um trecho da BR-230, nas proximidades de Riachão do Bacamarte onde ocorreu o roubo da carga de uma loja de móveis e eletrodomésticos da Paraíba, na manhã da última segunda-feira.

Segundo o coordenador de segurança da empresa, os bandidos aproveitaram o momento em que o caminhoneiro reduziu a velocidade, para subir uma ladeira, e abordaram os funcionários. Os criminosos levaram celulares e eletroeletrônicos, segundo afirmou o responsável pela segurança. No último dia 26, uma abordagem semelhante aconteceu com outro caminhão da mesma empresa, próximo ao município de Cruz do Espírito Santo. Até essa terça-feira (1º) , a polícia não tinha informações sobre a identificação dos bandidos.

PRF

A Polícia Rodoviária Federal alegou ainda não ter número das ocorrências de roubo de cargas registradas no Estado. Contudo, a assessoria de comunicação do órgão alegou que há monitoramento das rodovias em pontos estratégicos com reforço de patrulhamento em feriados e operações especiais, quando o tráfego aumenta.

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