terça, 20 de abril de 2021

Violência
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Cresce número de maus-tratos a crianças em João Pessoa

Katiana Ramos e Ainoã Geminiano / 03 de janeiro de 2017
Foto: Assuero Lima
Após concordar que a mãe ficasse com a guarda dos filhos, um homem que se separou da mulher procurou ontem o Conselho Tutelar Sul, de João Pessoa, para pedir a revisão da guarda, alegando que as crianças, de 3 e 8 anos, estavam sofrendo maus tratos, promovidos pela mãe. Essa foi apenas uma das inúmeras ocorrências de conflito familiar, atendidas pelos conselhos tutelares de Mangabeira, Valentina e Norte, que constituem a maioria dos atendimentos feitos por essas instituições. Somente o Conselho Tutelar de Mangabeira recebeu 479 ocorrências desse tipo, em 2016.

De acordo com a denúncia feita pelo homem que procurou o Conselho Sul, a mãe estaria espancando e permitindo que o atual marido faça o mesmo com as crianças. Revoltado, ele quer de volta a guarda dos filhos. “Soube que o atual marido dela bateu no menino com fio de energia e a menina está cheia de marcas de queimaduras. Ela não explicou como aconteceram essas queimaduras, mas parecem marcas de cigarro”, declarou o denunciante. A informação será investigada pelo Conselho.

A denúncia segue o que tem se tornado uma rotina nos conselhos tutelares da Capital. Segundo os conselheiros, as situações de conflito familiar são motivadas, em sua maioria, pela falta de entendimento entre os pais sobre a guarda dos filhos. Outras questões, como pagamento de pensão e até mesmo negligência, também são frequentes.

Aconselhamento. Nas três unidades dos Conselhos Tutelares, outra ocorrência bastante registrada são os aconselhamentos. Somente o Conselho de Mangabeira registrou 217 atendimentos desse tipo, em 2016. Conforme o conselheiro Jamil Richene, esse tipo de atendimento envolve tanto casos de desentendimentos entre pais e filhos, sobretudo no caso de adolescentes, como também orientações para os serviços de saúde.

Ficam no meio da briga. A preocupação com o bem-estar da criança ou adolescente alvo do conflito familiar, na maioria das vezes, não é a prioridade nos casos de conflito familiar. Ao contrário disto, os filhos são usados como objetos para alimentar brigas entre o ex-casal. É o que explica o psicanalista clínico e psicoterapeuta, Tibério César Pessoa.

“O alvo é o outro e não o amor para com a criança em si. Levando em consideração as mães, o percentual das que agem dessa forma é de 30%. Isso porque as mulheres já saem da separação mais resolvidas e têm o desejo real de ficar com o filho, enquanto que o pai não está resolvido na saída do relacionamento e usa o filho para atingir a mãe. Isso ocorre em 70% dos casos”, explicou o psicólogo Tibério Pessoa.

O psicanalista alertou ainda que a exposição da criança ou adolescente nessa situação de conflito entre os pais ocasiona problemas emocionais, como depressão, hipomania e fobias, além de afetar a convivência familiar e social da criança quando esta chegar à fase adulta.

“Podemos elaborar pelo menos três males para uma criança nessa situação. O primeiro, é a visão exata do desamor dos pais para com ela; o segundo, é que os pais acabam se odiando o que acarreta na criança a perda do relacionamento estável dela para com os pais ; e a terceira coisa é que a criança carrega esse mal, projeta e transfere a raiva dos pais entre si para outras pessoas, o que pode torná-la extremamente agressiva e hostil aos outros. A criança perde a referência de lar”, detalhou Tibério Pessoa.

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