domingo, 19 de maio de 2019
Violência
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Cidades pequenas paraibanas sofrem com a falta de entrega de correspondências

Fernanda Figueirêdo / 22 de julho de 2018
Foto: CHICO MARTINS
Déficit de 40% no número de funcionários, falta de carteiros nas cidades, agências fechadas, gerentes acumulando serviço e insegurança nos postos de atendimento são apenas alguns dos sintomas de um sucateamento da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) na Paraíba.

“Algumas agências abrem um dia e dois não por falta de gerente, por falta de carteiro. O que está acontecendo é o sucateamento da empresa explicou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos do Estado (Sintect-PB), Evandro Tavares.

Em municípios como Barra de Santana, Barra de São Miguel, Alcantil, Aroeiras, Caraúbas, Cabaceiras, Parari, Gurjão, Gado Bravo, Natuba e São Domingos do Cariri a situação é praticamente a mesma: os moradores precisam se deslocar até às agências dos Correios para receber suas correspondências. Isso quando elas ainda funcionam.

Ivanildo da Silva, 46 anos, comerciante na cidade de Barra de Santana, Cariri paraibano, conta que mudou toda a sua rotina em virtude da falta de carteiro no município.

“Há alguns anos havia carteiro aqui, agora não existe mais. Então para evitar de todos os meses me deslocar até à agência para eu mesmo procurar em meio a um monte de correspondências minhas contas, prefiro resolver tudo pela internet. Termina sendo mais prático, sem contar que os Correios tornou-se um local perigoso. A qualquer momento pode haver um assalto, como todo mês ocorre em alguma cidade da região”, disse.

Insegurança também fecha postos

Em algumas das cidades visitadas pelo Jornal Correio da Paraíba, a equipe de reportagem encontrou a única agência dos Correios existente no local fechada ou até explodida pela ação de bandos armados.

Em Barra de Santana, por exemplo, um grupo armado explodiu a agência no centro da cidade na madrugada do dia 27 de abril. Em Cabaceiras, poucas semanas antes da reportagem, havia acontecido a mesma coisa. Em Alcantil, um assalto a clientes à mão armada e durante a luz do dia deixou toda a população preocupada e desassistida.

“Infelizmente é uma realidade que se repete. As agências dos Correios, que já são poucas, estão ficando cada mais vez mais difíceis de se encontrar. Aqui em Barra de Santana abre só três dias na semana, porque o gerente que trabalha aqui também atende em Boqueirão. Ele é só um, não tem como estar em dois lugares ao mesmo tempo”, afirmou a diarista Vanderleia Alves da Silva, 48 anos, moradora da Rua Projetada, denominação que inclusive se repete em muitas outras ruas do município

Ela crescenta que “outra dificuldade é que aqui, depois da última explosão que os bandidos levaram todo o dinheiro dos aposentados, os Correios não funciona mais como correspondente bancário. Isso aqui tudo é abandonado. Com a desculpa da falta de carteiro, qualquer um que chega na agência mexe em todas as correspondências procurando o que quiser”.

A cabeleireira Edilene Alves, 37 anos, diz que ter um negócio próprio e conviver com a falta de carteiros é um grande desafio. “A gente vai nos Correios, procura as faturas e não acha, depois volta lá, procura de novo e quando encontra já paga tudo atrasado e com multa. É difícil trabalhar por conta própria já porque não existe emprego, cuidar de casa e de três filhos e ainda se preocupar com o atraso das faturas que deveriam ser entregues na minha casa. Sem falar no tempo que eu perco indo na agência pra procurar isso no meio daquele monte de papel”, lamentou Edilene.

“Carteiro informal”

O agricultor Alcimar José da Silva, 29 anos, morador do Sítio Barriguda II, há 16 km de Barra de Santana, passa mais de 10 minutos selecionando as correspondências de pessoas que residem na comunidade em que ele mora. Apesar disso, ele conta que a maior dificuldade nem é essa e sim “perder a viagem” quando a agência está fechada.

“Em zona rural Correio não entrega nada. Conta de luz a Energisa ainda leva, mas outras faturas não. Quando explodiram a agência e ficamos mais de dois meses sem esse serviço, as contas ficaram todas atrasadas e todo mundo pagou com juros. Mas outro problema é que agora, no dia que não abre é muito arriscado vir alguém do sítio e dar a viagem perdida”, lembrou Alcimar.

Em Barra de Santana, com uma população de aproximadamente 8 mil habitantes (segundo o IBGE), na agência onde trabalha apenas o gerente, aproximadamente 200 pessoas procuram correspondências diariamente. A assessoria dos Correios afirma que este município, como em muitos outros que funcionam sem carteiro, possui apenas 10% de população urbana. No entanto, essa informação torna a falta de atendimento diário um agravante, já que nem todo mundo da zona rural que procura o serviço encontra o local aberto.

Ritual em busca da correspondência

O professor de geografia Jocélio Gonçalves da Costa, que mora no sítio Riachão, em Barra de Santana, conta que ir à agência procurar correspondência é um ritual à parte. “Pelo menos eu estou na cidade praticamente todo dia, por conta da minha profissão, mas nem todo mundo tem essa sorte. Sem carteiro já era ruim, mas sem segurança e com a agência fechada por conta de assalto ou por falta de funcionário é ainda pior”, assegurou.

No município de Alcantil, também no Cariri Oriental, a aposentada Cleide Maria da Silva, 60 anos, mora na Avenida São José, vizinho à única agência dos Correios na cidade. “O ponto é meu, mas há mais de 30 anos funciona os Correios aqui. Esse mês teve um assalto à mão armada logo de manhã, roubaram até os clientes, saíram atirando pra cima, foi horrível. Depois disso, a agência só abre das 8h ao meio dia, quando abre, porque a gerente daqui também é gerente em outra cidade”, disse.

Seu Evandro Genival da Silva, 49 anos, é dono de uma quitanda, um dos poucos comércios da cidade que permanecem abertos no horário de almoço. “Por Alcantil já fazer divisa com o Pernambuco, aqui sempre teve muitos assaltos. Todo mundo tem medo. Fecha tudo depois do meio dia e só reabre depois das 14h, o Correio nem isso, porque no dia que abre é só até 12h e pronto, já é pra ser feliz”, pontuou.

Para Leandro Figueiroa, dono de um restaurante às margens da BR-104, na Rua Oito de Setembro, bairro Gameleira, só o fato de ainda ter onde pague as contas já é uma vitória. “Aqui só teve carteiro há uns oito anos atrás, quando era a prefeitura que oferecia o serviço”.

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