segunda, 15 de julho de 2019
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Violência faz motoristas de aplicativos evitarem rotas

Halan Azevedo / 07 de março de 2019
Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A falta de segurança, principalmente no período noturno, vem fazendo com que motoristas de aplicativos deixem de rodar em bairros considerados violentos em João Pessoa, ou adotem estratégias de segurança, por medo de assaltos.

Ao Portal Correio, o jornalista e motorista de aplicativo Allan Hebert contou que trabalha na área de transporte privado desde 2017 para complementar a renda mensal. Ele atua como motorista pela manhã e à noite, mas por conta do risco de assalto, estende o horário noturno apenas até as 22h.

“Pelo caos de violência que o nosso estado atravessa, tenho evitado rodar muito no período noturno. Nunca fui assaltado, mas já peguei alguns usuários que me deixaram com medo”, disse Allan.

Um dos fatores apontados por Allan Hebert para a desconfiança em determinados clientes é o destino final da corrida. Em um dos aplicativos que ele trabalha, o Uber, não é possível que o motorista saiba para onde irá levar o passageiro, fato que ele considera como importante para segurança.

“Já pela 99Pop, que sabemos o destino final logo quando aceitamos a chamada, sempre cancelo a corrida quando vejo que o bairro não é dos melhores. É melhor não arriscar”, contou Allan Hebert.

Além de evitar bairros considerados mais violentos, Allan e alguns dos amigos que também trabalham como motoristas de aplicativo usam táticas para tentar driblar assaltos. Uma das ideias é, com uso do WhatsApp, compartilhar em tempo real o local onde estão. Outra tática é o desligamento dos aplicativos após realizar uma corrida para alguns bairros.

“O principal cuidado que tomo para evitar a violência é evitar aceitar corridas em bairros com histórico de violência. Além disso, eu e mais uns dez amigos temos um grupo no WhatsApp onde compartilhamos a nossa localização em tempo real”, afirmou Allan.

Outros dois motoristas de aplicativos, que preferiram não se identificar, disseram ao Portal Correio que evitam muitos locais de João Pessoa porque já foram barrados por criminosos e traficantes. “Eu levava uma senhora que pegou a corrida no Centro para uma comunidade de João Pessoa. Ao chegar, depois de uma lombada, um grupo de criminosos armados pediu que eu parasse e me identificasse. Eles conheciam a senhora, nos deixaram passar, mas pediram que eu fosse rápido e saísse pelo mesmo local. Fiquei apavorado e não pego mais corridas para locais como esses”, disse um.

Evitar não é o caminho. Para o presidente da Associação dos Motoristas de Transporte Privado Individual da Paraíba, Paulo Queiroz, a tática de evitar determinados bairros considerados mais violentos não garante a segurança de nenhum motorista.

“Não recriminamos os motoristas que não querem ir para determinados bairros porque é uma decisão individual, faz parte da decisão dele como profissional liberal de tomar o melhor caminho e pegar a melhor corrida para que acima de tudo ele se sinta bem. Porém, deixar de buscar ou levar pessoas para determinados bairros não é garantia de que você não vai sofrer qualquer tipo de violência. Já ocorreram casos em que o motorista busca ou deixa pessoas em bairros nobres e ele acaba sendo assaltado por essas pessoas durante o trajeto. Além disso, os assaltos costumam ocorrer mais quando o motorista aceita corridas ‘por fora’, sem uso do aplicativo”, explicou Paulo Queiroz.

Conforme Paulo, duas medidas que podem ajudar os motoristas de aplicativo a escaparem do risco de abordagem criminosa em alguns bairros são o acionamento das luzes internas e baixar os vidros do veículo. “Serve para que o motorista não seja confundido com uma autoridade policial ou que levante suspeita, levando os criminosos a abordarem o carro”, disse.

Associação pede mais segurança



Um dos pontos mais questionados pelos motoristas é a falta de informações sobre os passageiros. Segundo Paulo, a Associação tem tentando diálogo com os aplicativos para que eles forneçam um cadastro mais efetivo dos clientes, com mais informações para a segurança dos motoristas.

“Brigamos muito para que os aplicativos tenham um cadastro mais efetivo quanto a segurança. Você ser abordado por questões externas ao aplicativo é uma coisa, outra coisa é o aplicativo lhe trazer um passageiro que seja um criminoso, o que é inadmissível. Os aplicativos não tomam uma ação efetiva quanto à solidariedade e quanto ao ressarcimento do motorista que foi colocado em risco por conta de um cadastro mal feito”, destacou Paulo Queiroz.

Operadoras explicam



Procurada pelo Portal Correio, a Uber informou, que a segurança é uma prioridade para a empresa e que investe em aprimoramento tecnológico para fazer uma plataforma mais segura possível.

“A empresa passou a adotar no Brasil o recurso de machine learning, que usa a tecnologia para bloquear viagens consideradas mais arriscadas e lançou uma ferramenta que reúne os recursos de segurança para motoristas parceiros, inclusive um botão para ligar para a polícia em situações de risco ou emergência diretamente do app”.

Ainda conforme a Uber, a empresa lançou um aplicativo voltado para motoristas. O serviço inclui a informação de qual será a forma de pagamento antes de o usuário embarcar. Segundo a empresa, o motorista conta com um número de telefone 0800 para registrar e solicitar apoio da Uber depois que comunicarem incidentes às autoridades e estiverem em segurança.

“O aplicativo exige do usuário que quiser pagar somente em dinheiro que insira o CPF e data de nascimento, dados que são checados com a base de dados da Receita Federal. Todas as viagens são registradas por GPS, o que permite que a Uber colabore com as autoridades, nos termos da lei, em caso de necessidade, e o motorista também pode compartilhar a localização, o trajeto e o horário de chegada, em tempo real, com quem desejar”, informou a empresa.

Ao Portal Correio, a assessoria de comunicação da 99Pop informou que a empresa realiza um mapeamento de áreas de risco e envia aos motoristas uma notificação caso a viagem comece, passe ou termine em regiões consideradas áreas de risco.

“O levantamento utiliza estatísticas internas do app e dados externos das Secretarias de Segurança Pública. Os condutores podem aceitar corridas em áreas de risco. A empresa acredita que é importante dar informação e liberdade aos parceiros para que eles tomem a melhor decisão baseados nos próprios contexto e experiência. O mapeamento é uma das funcionalidades desenvolvidas pela área de segurança da companhia, uma equipe composta por mais de 100 pessoas incluindo ex-militares, engenheiros de dados e psicólogos. O time trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, cuidando exclusivamente da proteção dos usuários”, informou a assessoria.

A empresa também listou uma série de procedimentos que estão em execução ou em fazem de testes para melhorar a segurança tanto de motoristas como de passageiros. Veja abaixo:



  • Câmeras de segurança embarcadas nos veículos e conectadas diretamente com a central de monitoramento da companhia. As câmeras começaram a ser implementadas em setembro e se encontram em fase de testes e expansão.


  • Inteligência artificial que monitora o perfil de todas as chamadas, identificando situações de risco e bloqueando o acesso à plataforma. Assim, o sistema pode prever incidentes antes que eles aconteçam.


  • Mapeamento de áreas de risco que envia aos motoristas notificações sobre zonas perigosas. O levantamento utiliza estatísticas internas do app e dados externos das Secretarias de Segurança Pública.


  • A 99 possui um botão de segurança em que passageiros podem ligar automaticamente para a polícia; adicionar e telefonar para contatos de confiança; além de compartilhar sua rota em tempo real com parentes e amigos.


  • Canal de atendimento exclusivo para incidentes de segurança no 0800-888-8999. A assistência oferece auxílio imediato — que pode incluir o envio de um carro em ocorrências em que o veículo tenha sido levado, por exemplo.


  • Algoritmo que rastreia automaticamente denúncias de assédio deixadas nos comentários ao fim das corridas, agilizando a resposta da empresa. A tecnologia foi desenvolvida em parceria com a consultoria feminista Think Eva.


  • Análise de perfil dos motoristas que verifica histórico público dos condutores a partir de documentos como CPF, CNH e licenciamento. A 99 possui uma parceria com o Denatran, que permite acessar informações sobre carro e motorista.


  • No momento do cadastro, é solicitada ao condutor uma selfie segurando a carteira de habilitação. Ele também precisa subir fotos da própria carta e do licenciamento do veículo.


  • Passageiros são convidados a verificar se a imagem do motorista bate com quem realizou a corrida, antes e depois da chamada


  • O aplicativo pede que todos os passageiros coloquem CPF ou cartão de crédito antes da primeira corrida.


  • Condutores podem optar por não receber pagamento em dinheiro. A empresa acredita que é importante dar essa liberdade aos parceiros para que eles tomem a melhor decisão baseados nos próprios contexto e experiência.


  • Todos os usuários estão protegidos em suas corridas realizadas pela 99. Desde o aceite até a finalização das corridas, passageiros e motoristas são cobertos por um seguro contra acidentes pessoais de até R$ 100 mil.


  • O app realiza rodadas de treinamento para condutores, em que apresenta um curso especial com dicas práticas de proteção e orientações sobre o combate ao assédio, desrespeito e discriminação.




PM diz que promove operações



A assessoria de comunicação da Polícia Militar disse que realiza operações em João Pessoa para combater crimes e ajudar a população, incluindo motoristas de aplicativo, com sensação de segurança.

“Frequentemente, a Polícia Militar, através do Comando Regional Metropolitano, realiza operações com intensificação de abordagens, pontos de checagem e blitzen no trânsito, com o objetivo de combater os crimes patrimoniais, resultando na prisão de suspeitos, apreensões de armas de fogo e recuperação de itens roubados. As ações reforçam o policiamento preventivo, que pode ser acionado através do número 190, ou por qualquer pessoa que presenciar uma situação suspeita”, informou a PM.

*Matéria atualizada às 13h27 do dia 8 de março para inclusão de posicionamento da 99Pop.

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