sexta, 18 de setembro de 2020

Cidades
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Um estupro a cada 40 horas e secretário diz que número real é ainda maior

Bruna Vieira / 31 de maio de 2016
Foto: Arquivo
Uma mulher é estuprada a cada 40 horas na Paraíba. O dado já é alarmante, mas o secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Cláudio Lima, afirma que ele é ainda maior, pois, boa parte das vítimas não denuncia. Medo, vergonha e a culpabilização da mulher impedem que elas entrem para as estatísticas. A conseqüência é que menos agressores são punidos.

O estupro coletivo contra uma adolescente de 16 anos ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 21, causou indignação em todo o País e trouxe à tona essas e outras discussões. O delegado do caso foi afastado, depois que insinuou culpa da vítima. Nas 12 delegacias da Mulher da Paraíba, o atendimento é feito por mulheres, para se evitar situações de constrangimento, mas o problema permanece nos municípios onde não há delegacias especializadas.

O silêncio impede que os criminosos sejam punidos. “Os dados de estupro não são confiáveis, porque a mulher não procura. Foram 10 casos na delegacia norte e cinco na sul. Em 95% dos casos conseguimos prender, como no último que envolveu um PM e mais de cinco mulheres. Só que a gente toma conhecimento de casos que não chegam à polícia. A política de prevenção contra crimes sexuais ainda é nova. Muitas não denunciam porque não confiam no aparato estatal ou querem preservar a intimidade”, declarou o secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Cláudio Lima.

Para Cláudio, é importante que o atendimento inicial seja prestado por outras mulheres. “Não é só o fato de ser mulher, é de ser capacitada. Há um treinamento específico. Aqui na Paraíba, não temos casos de constrangimento por parte dos delegados. Mesmo formados em Direito, muitos homens não estão preparados para atender”, ressaltou.

Tratamento reprovado. No caso do Rio de Janeiro, o delegado que atendeu a ocorrência, Alessandro Thiers, foi substituído no último domingo pela delegada Cristiana Onorato, da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV). A mudança foi devido ao tratamento dispensado à vítima, que alegou não se sentir à vontade durante o depoimento e ter sido culpada pela autoridade policial.

Medo de ser julgada. Liliane Oliveira, assessora da Coordenação de Combate à Violência contra a Mulher, da Secretaria de Políticas para as Mulheres de João Pessoa, associa a cultura do estupro ao machismo. “Está enraizada, achar que a mulher é objeto que pode ter a qualquer hora. A mulher tem que ter coragem de denunciar. Em algum momento, a vítima se sente culpada, até pela própria sociedade que não se coloca no lugar. Os dados apresentados não são a realidade e mesmo assim são altos. Há o medo de ser julgada. Quem estupra não é a roupa, nem o lugar, é o homem”, disse.

“Não há perfil de vítima. Qualquer uma de nós pode ser estuprada. É uma situação absurda nos dias de hoje. A mulher precisa ser atendida de forma humanizada pois o momento é muito delicado. Elas se sentem mais à vontade com delegadas mulheres. Já foram violentadas por homens e ainda terem que contar isso para um, não é fácil”, afirmou Amin Oliveira, delegada da Mulher de João Pessoa.

É preciso denunciar logo

4A delegada da Mulher, Amin Oliveira, explicou que se o exame de esperma demorar dias para ser feito, pode não apontar provas, ficando apenas a palavra da vítima contra a do agressor. “A mulher tem que procurar imediatamente a delegacia , sem nem tomar banho. A tendência é se sentir enojada e tomar banho, o que dificulta os resultados da coleta. A profilaxia também deve ser feita logo para evitar doenças e gravidez. Seja no âmbito doméstico ou na rua, tem que ser apurado imediatamente. Assim, mais rápido se encontra autoria. Quanto mais cedo se prende, mais damos uma resposta à sociedade de que a justiça está sendo feita”, afirmou a delegada.

A sociedade é machista

“Os homens são criados pela mãe. Quando a vítima vem denunciar está extremamente desamparada, não sabe o que fazer, com vergonha de tudo, dos vizinhos. Se for casada, se preocupa como será tratada pelo marido. Muda completamente a vida. A cultura do estupro é muito forte. Há o medo de ser julgada pelas autoridades, pela sociedade machista e patriarcalista. Nossa sociedade ainda faz barbáries. A impressão é que vivemos em séculos passados”. Amin Oliveira, delegada da Mulher.

“Não pode ser qualquer delegado”

“Não é só machismo, é estupidez masculina de alguns elementos. É irracional, não tem explicação. Desvios de conduta sempre ocorrem na sociedade, mas, é inaceitável e precisa repressão. O caso do RJ é uma barbárie. O ser humano nunca vai parar de cometer crime, mas temos que nos preparar para combater e ter uma sociedade pacífica. Isso nos serve de lição no sentido de que um crime de natureza especial tem que ser tratado de forma especial. Não pode ser qualquer delegado”. Cláudio Lima, secretário de Estado da Segurança Pública.

 

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