sábado, 16 de novembro de 2019
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Transgêneros ainda vivem excluídos e ‘invisíveis’ na escola

Katiana Ramos / 19 de agosto de 2018
Foto: Rafael Passos/Jornal Correio da Paraíba
O gosto por roupas em tom de cores escuras, as habilidades no futsal e o pensamento crítico, sempre com uma opinião formada na ponta da língua, são as principais características de Marcelo (nome fictício). A voz firme do garoto de 14 anos, que se reconhece como homem trans, é sua principal aliada para enfrentar o preconceito – por vezes velado – que ocorre inclusive no lugar onde o respeito deve prevalecer: a escola. O menino está entre outras centenas de crianças e adolescentes País a fora que são invisíveis nas cadernetas escolares e nas estatísticas educacionais e de população.

“Eu não sabia nem o que era trans. Eu só me sentia diferente e não me via igual as outras meninas na escola. Conseguia me identificar mais com os meninos, com o jeito como agiam, falavam. As meninas me tratavam diferente por eu não ser igual a elas. Às vezes, eu tentava ser igual, mas era muito ruim não ser eu mesmo”, contou Marcelo. Aluno do Ensino Médio, o garoto chegou a ter a matrícula negada em uma escola da Capital e o caso só foi resolvido com intervenção da Defensoria Pública Estadual.

Além dos olhares julgadores dos demais alunos e da indiferença até por parte de alguns professores e funcionários da escola, antes da intervenção judicial, Marcelo ainda sofreu bullying e até violência verbal. “Eu percebia que estavam falando de mim. Mas, fingia que não era comigo, só que eu sabia que era. Me sentia desconfortável. Sempre tinham piadinhas, por parte das meninas. Mas, os meninos não me tratavam com indiferença”, contou o estudante.

Mãe do adolescente, Lúcia (nome ficitício) afirma que ainda falta sensibilidade e desconhecimento, por parte de muitos professores e demais profissionais da educação, para lidar com as questões de gênero na escola.

“Foi difícil para mim, porque eu não sabia como era meu filho. Mas, eu fui atrás, busquei conhecer e aceitá-lo do jeitinho que ele é. Para mim, ele é um adolescente normal. Agora, falta conscientização por parte dos educadores em compreender as questões de transgênero para que não julguem ou coloquem religião no meio disso. Já teve um episódio em que uma professora quis obrigar o meu filho a usar um vestido”, relatou Lúcia.

Nome é um empecilho

Bom aluno e com habilidades no futsal, Marcelo (nome fictício) é, por vezes, chamado pelo nome de registro nas chamadas da sala de aula e quando precisa se identificar em clínicas e hospitais. Por não querer enfrentar um processo judicial demorado para oficializar o nome de homem transgênero na documentação, ele também não pode participar oficialmente de jogos e outras atividades que identificam times em grupos masculinos e femininos. A invisibilidade forçada pela qual o adolescente passa aparece também nas pesquisas educacionais e também nos levantamentos de população organizados e divulgados pelo governo federal.

“A gente produz materiais e documentos orientadores sobre a importância do nome social nas escolas, mas não há vontade nos aparelhos dos estados e municípios para implantar isso, apesar de existir um decreto que garante esse direito no espaço escolar. Com isso, essa população continua sem existir oficialmente”, explicou a presidente da Ong Rede Trans Brasil, Tatiane Araújo.

Além do respeito ao nome social, Tatiane Araújo lembrou ainda que ainda falta nas escolas educadores que ajudem e orientem os adolescentes que estão descobrindo sua identidade de gênero.

Pressão que causa evasão escolar



Para estudantes transgêneros frequentar a escola é um desafio. Muitos não aguentam a pressão e abandonam os colégios. Só em João Pessoa, dos 300 inscritos no Programa de Cidadania LGBT de João Pessoa, na faixa etária dos 20 e 40 anos, 50% não concluíram o Ensino Médio.

Lumara Souza é um exemplo de quem abandonou a sala de aula, inúmeras vezes, por não suportar o preconceito por parte de alunos e também de professores. Entre idas e vindas ao ambiente escolar, ela garante que este ano vai conseguir concluir o Ensino Médio. “Frequentei a escola somente até a 5ª série. As pessoas tem que entender, seja na escola ou não, que ser travesti e ser mulher trans não é colocar só uma roupa do gênero feminino. Mas, é viver a sua identidade, o que você é. Na minha infância foi horrível. Hoje, ainda tem o preconceito, mas é menor”, relatou.

O coordenador de Promoção a Cidadania LGBT, da Prefeitura Municipal de João Pessoa, Roberto Maia, reforça que a evasão escolar das pessoas trans acontece justamente pela exclusão, o que também causa impacto no acesso ao mercado de trabalho.

“Temos feito parceria com o EJA para que elas possam voltar para a sala de aula, mas percebemos que a escola para essas pessoas é um local que ela não se sente a vontade. Não só pela questão do nome social, mas por serem motivo de chacota, de palavrões. Dentro da escola, esses direitos são violados o tempo todo”, afirmou.

A universitária Francisca Vaz vai na contramão do preconceito no ambiente escolar. Aluna da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), ela conta que só conseguiu assumir sua identidade de mulher trans, ao entrar na universidade, após anos de repressão e preconceito no ensino básico. “O ambiente universitário é mais aberto”, disse.

Preparação do docente

Para a professora e pesquisadora de sexualidade e gênero na escola da Universidade do Rio Grande (FURG), Paulo Ribeiro, as questões de gênero devem ser trabalhadas ainda durante a formação dos futuros professores para que a escola se torne um ambiente inclusivo e multicultural, como propõe os currículos.

“Tenho alunos trans que falam que a escola era o pior lugar para eles. São sujeitos que pararam de estudar, por um bom tempo, por conta da exclusão, e depois voltaram. Temos que fazer da escola um espaço de igualdade. Na escola a gente trabalha com a ideia de tolerância e não com o respeito. Temos que desconstruir isso e trabalhar com o respeito, com a multiplicidade de gênero”, frisou a pesquisadora de sexualidade e gênero na escola da Universidade do Rio Grande (FURG).

Resolução que propaga o respeito

Em 17 de janeiro deste ano, foi homologada pelo Ministério da Educação a resolução que autoriza o uso do nome social de travestis e transgêneros nos registros escolares da educação básica. Com isso, maiores de 18 anos podem solicitar que a matrícula nas instituições de ensino seja feita usando o nome social.

No caso de estudantes menores de idade, a solicitação deve ser apresentada pelos seus representantes legais. Essa resolução foi aprovada de forma unânime pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em setembro do ano passado. O uso do nome social por travestis e transgêneros é uma reivindicação antiga de representantes do grupo social, e já era possível nas inscrições do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A resolução busca propagar o respeito à identidade de gênero e minimizar estatísticas de violência e abandono da escola em função de bullying, assédio, constrangimento e preconceitos.

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