quarta, 20 de janeiro de 2021

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Por conta do preconceito, transexuais sofrem com a violência e a falta de oportunidades

Katiana Ramos / 12 de fevereiro de 2017
Foto: Arquivo
As inquietudes da criança que não entendia a si mesma e era motivo de chacota entre colegas. A ousadia de um garoto ao usar uma peça de roupa feminina, aos 16, acompanhada por tapas e gritos do pai. A exposição desse mesmo corpo às calçadas, agora com formas mais femininas, vulnerável mais à violência do que a carícias. Esta é a realidade de quem é e se assume transexual na Paraíba e no País onde mais se mata travestis e transexuais no mundo. É viver e aceitar o risco de se mostrar a uma sociedade machista e conservadora e levar um tapa – físico e simbólico – a cada peça de roupa vestida.

Éric Pachêco e Viviane Rodrigues se descobriram transexuais ainda na infância. A menina que nas brincadeiras queria sempre ser o ‘pai’, ‘o médico’, ‘o professor’ chamava a atenção dos colegas e era constantemente repreendida pelos pais. Por sua vez, o menino que sonhava em colocar um vestido foi motivo de expulsão de uma escola religiosa e apedrejamento público no interior do Rio Grande do Norte. O preconceito e discriminação enraizados nas ‘famílias tradicionais’ de Éric e Viviane desde sempre os excluíam daquele grupo. Aos 18 anos, os dois deixaram suas casas para viver a sexualidade e identidade e se depararam com comportamentos igualmente repressores.

“Foi difícil sair de casa, colocar o meu eu para fora, me expor. Eu não tinha apoio de ninguém. Quando cortei o cabelo, vesti as roupas que eu gostava e me olhei no espelho assim, era como se eu tivesse me visto pela primeira vez”, disse Éric Pachêco, que há dois anos faz tratamento hormonal e pretende fazer a cirurgia de mastectomia (retirada de mama).

Com o sonho de fazer a intervenção de redesignação de gênero para ser ‘totalmente mulher’, como ela se refere, Viviane Rodrigues conta que sofreu agressões dos familiares desde a infância. A situação piorou ao chegar a adolescência, quando, na escola, se assumiu gay e foi expulsa. “Eu era um menino por fora, mas por dentro, me sentia uma mulher. Lembro que quando tinha cinco anos, uma tia me empurrou contra a parede, me bateu e dizia que era para eu aprender a ser homem. Mas eu enfrentei toda minha família e me assumi mulher trans. Com 11 anos, via aquelas transexuais na TV e dizia: ‘quero ser daquele jeito’”, revelou a jovem.

Mercado tem portas fechadas

Com quase 1,80 metros de altura e loira, difícil é Marcella Bezerra passar despercebida. O encanto por cosméticos e a vaidade afloraram quando ela tinha 18 anos, quando pela primeira vez viu uma travesti em um baile de carnaval voltado ao público LGBT. “Eu amei aquilo e me vi ali. Disse para mim mesma que queria ser assim”, declarou. Há três anos, a mulher trans foi praticamente obrigada a optar entre ser quem é ou ficar no emprego onde era alvo de humilhações e preconceito.

“Não podia usar um vestido ou uma blusa feminina, brincos. O cabelo tinha que ser curto, unhas limpas, sem esmalte. Com um tempo deixei o cabelo crescer e dizia que tinha feito uma promessa”, disse Marcella Bezerra, de 45 anos. Ela foi demitida após 12 anos de serviço em uma mesma empresa. “Já trabalhei como cozinheira, serviços gerais, copeira. Estou procurando trabalho, mas o preconceito é grande. As empresas não entendem que a gente só precisa de uma oportunidade, uma porta aberta”, afirmou.

Para o procurador do Trabalho Eduardo Varandas, o preconceito no mundo do trabalho sofrido pelos transexuais, especificamente as mulheres trans, é uma extensão das dificuldades pelas quais também passam as mulheres de maneira geral.

“O preconceito se torna extremamente mais forte porque é visível naquele ser humano a sua identidade de gênero. Essa situação envolvendo as transexuais é a perpetuação de uma sociedade patriarcal, machista, conservadora”, reforçou o procurador. Eduardo Varandas lamentou ainda a falta de ações mais efetivas que contemplem todo o Estado e incentivem a comunidade trans a ter mais oportunidades no mercado de trabalho.

“A única ressalva que eu faço é o Programa TransCidadania, implantado pelo município de João Pessoa. Mas, infelizmente não temos uma prática semelhante no Estado e não há nenhuma preocupação dos legisladores quanto a inserção desse público, que é o mais sofrido, no mercado”, destacou.

Prostituição não é opção

A mesma rua onde Viviane Rodrigues foi apedrejada também a acolheu quando ela precisou de dinheiro para se manter longe de casa e da família que a rejeitou. A prostituição foi a única saída encontrada pela jovem, mesmo a contragosto. “Na prostituição você tem que agüentar muita coisa. Não é o que quero para minha vida”, declarou. Segundo a Associação Nacional das Travestis e Transexuais, mais de 90% das travestis e mulheres trans do País estão na prostituição.

Bruna Angel protagonizou esse dilema. Vestia nas noites de São Paulo as roupas que a mãe jamais quis ver na filha, para ela, sempre filho. “Minha mãe não queria me ver vestida de mulher. Mas, entendia meu lado. Eu podia me vestir, mas sem ela ver”, lembrou Bruna Angel.

Hoje, longe das ruas e da prostituição, ela retomou os estudos e pensa em ajudar outras trans futuramente. “A sociedade vê as travestis como pessoas que só fazem programa ou que são envolvidas com o tráfico. Mas não é assim. Estou batalhando para conseguir meu espaço através da educação, porque eu não posso lutar por mim e pelas outras sem instrução”, revelou.

A constante luta pela vida e dignidade

Embora o corpo, os gestos naturais e o comportamento revelem a personalidade e identidade de gênero das travestis e transexuais, encarar a indiferença e o preconceito social é uma luta constante para essa parcela da população. Josy Silva conhece bem essa realidade e a cada travesti ou transexual que atende no Centro LGBT de João Pessoa, onde atua como assessora técnica, revive a sua própria história.

“Quando a gente se olha no espelho, não consegue lidar com essa coisa masculinizada. A gente quer ver essa mulher interior. Não adianta falar da travestilidade e transexualidade se você não pegar minha mão, não me abraçar, se você não disser: ‘elas são corajosas, têm capacidade. Vamos fazer alguma coisa por elas? Mas, se a sociedade não fizer isso pela gente sempre vai haver essa dificuldade, essa rejeição, essa resistência”, declarou Josy Silva.

Com a expectativa de vida que atinge, em média, 35 anos no Brasil, segundo levantamento da Associação Nacional das Travestis e Transexuais (Antra), as transexuais vivem diariamente o desafio de escapar da violência. Para Josy Silva, uma das formas de mudar essa realidade é a educação e ampliação das políticas públicas para o público trans. “Sempre deixo bem claro uma coisa: apenas uma flechinha que nos dão, a gente faz um canhão de claridade, de felicidade. E nós somos pessoas capazes”, frisou.




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