segunda, 20 de maio de 2019
Segurança
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Unidades de Polícia Solidária não agradam a população

Ainoã Geminiano / 16 de fevereiro de 2019
O Governo do Estado inaugurou, no final da semana passada, mais uma Unidade de Polícia Solidária (UPS), na Capital, desta vez no loteamento Colinas do Sul, chegando a 27 UPSs, em seis cidades do Estado. Na teoria, as UPSs têm a finalidade de aproximar a polícia da comunidade, criando laços de convivência entre moradores e policiais, facilitando assim o acesso ao socorro, em caso de necessidade. Mas não é isso que os moradores de algumas comunidades têm visto acontecer. Em três bairros da Capital, onde existe UPS há pelo menos dois anos, embora gostem da existência da unidade, os moradores reclamam de falta de atendimento, portas fechadas e não fazem a menor ideia de que são os policiais que atuam na unidade.

Segundo o tenente-coronel, Ismar Mota, Coordenador de Integração Comunitária e Direitos Humanos da Polícia Militar, a UPS é o produto final dessa política e tem, entre as diretrizes a serem seguidas, a quebra do distanciamento entre a polícia e a comunidade. “A partir dessa aproximação, o policial vai conhecer as rotinas e demandas da comunidade onde está inserido e melhorar assim sua capacidade de resposta aos eventos adversos”, acrescentou.

Durante a cerimônia de inauguração da UPS do Colinas do Sul, o governador João Azevedo disse que a segurança pública é um compromisso do Governo do Estado e que a Paraíba é vista como modelo de segurança, sem especificar por quem é vista assim. O secretário de Segurança, Jean Francisco disse que a UPS é um equipamento de ocupação de área. Já o comandante Geral da PM, coronel Euller Chaves disse que as UPSs tem buscado mais proximidade entre polícia e população. Disse ainda ser importante que as pessoas conheçam a polícia e a polícia conheça as pessoas.

No entanto, na contramão dos pronunciamentos oficiais, no bairro dos Bancários, por exemplo, o comerciante Antônio Carlos, que tem um estabelecimento quase em frente a UPS, disse não fazer ideia de quem são os militares que trabalham na unidade e que o único contato que tem com eles é quando algum policial vai a seu comércio, comprar uma mercadoria. “Quando começaram a construir esse posto aí nós imaginávamos que melhoraria muito a segurança aqui, que ficariam policiais aí pra nos atender, mas depois percebemos que é apenas um ponto de apoio para eles trocarem de turno, fazer um repouso. Fica grande parte do tempo com a porta fechada e os roubos continuam acontecendo”, denunciou.

O estudante José Felipe Lacerda, que mora um quarteirão à frente da UPS também reclamou da unidade. “Uma colega minha foi assaltada dias atrás, na porta do prédio. Ela foi na UPS pedir ajuda e o policial que estava lá mandou ela ligar para o 190. Porque precisamos ligar se há uma base da polícia aqui perto? ”, disse.

Unidade sempre fechada



No bairro do Alto do Mateus, a unidade de polícia solidária foi inaugurada em 2012, com a mesma proposta de aproximar a PM da comunidade. Mas, no bairro, a principal queixa dos moradores é que a unidade passa a maior parte do tempo fechada. Há cerca de dois meses, o comerciante Carlos Alberto passou por uma madrugada de terro, junto com sua mulher, dominados por bandidos que invadiram a residência, à procura de um suposto dinheiro que ele teria para pagar funcionários. “Eles entraram na minha casa por volta das 4h, fizeram um rapa na casa, ficaram mais de 2 horas, me amarraram, amarraram minha mulher, jogaram bebida alcoólica na gente, ameaçando nos queimar vivos, exigindo um cofre com dinheiro que diziam que eu tinha. Quando eles foram embora, fui na UPS, estava fechada, foi na Central de Polícia e, no final das contas, só fiz um BO”, contou.

O vigilante Eliosvaldo Barbosa mora duas ruas atrás da UPS e, além de confirmar o relato de Carlos, de que a unidade passa maior tempo fechada, também disse que não existe nenhuma interação entre os policiais e a comunidade. “O que vemos por aqui é uma viatura passando nas principais ruas, apenas passando, sem parar para conversar. Essa ideia de que os policiais devem conhecer e interagir com a comunidade é novidade pra mim”, disse.

Polícia tenta resolver problemas



O tenente-coronel Ismar Mota, coordenador da política de UPSs, reconheceu que ainda existem falhas no funcionamento das unidades, embora tenha destacado que algumas UPSs se tornaram modelo da filosofia de policiamento solidário. “Recentemente fizemos um levantamento de resultados e, no ano passado, realizamos um seminário, para mostrar os exemplos exitosos e realinhar os procedimentos nas outras unidades. Algumas unidades ainda estão distantes da filosofia de policiamento solidário, mas estamos trabalhando junto a elas. A UPS recém-inaugurada do Colinas do Sul servirá como projeto-piloto, para renovação desse modelo de policiamento”, afirmou.

Segundo o oficial, a PM também está prestes a receber uma tropa de soldados que estão concluindo o curso de formação, além de outro efetivo que passou por uma especialização e policiamento solidário. Sobre a comunicação entre os moradores e a UPS, Mota disse que existe um projeto para ser implementado a curto prazo, criando novos canais de comunicação.

Reclamação. Sobre o casoque uma vítima de assalto procurou a UPS dos Bancários e foi orientada a ligar para o 190, o coronel Ismar Mota disse que é preciso analisar caso a caso. “É possível que o policial estivesse sozinho ou que analisasse não ser seguro agir sem reforço. Mas em linhas gerais, o princípio universal do policial é fazer os atendimentos emergenciais. Eu mesmo já fiz vários atendimentos quando estava me deslocando de minha casa para o quartel. O policial é ensinado a isso. Porém cada caso é um caso. É possível que essa recusa tenha sido um erro ou de fato ele tenha feito a melhor avaliação da situação”, afirmou.

Presença de PMs recebe elogios



No bairro de Mandacaru, a UPS existe desde 2011 e é uma das mais movimentadas da cidade. Na vizinhança, os moradores elogiam a presença dos policiais, embora também relatem a falta de relacionamento entre os militares e os moradores, previsto na filosofia do policiamento solidário. “Essa UPS aqui é show. Sempre que precisamos eles nos atendem. Percebemos que diminuiu um pouco as rondas da polícia por aqui, mas o serviço da unidade é muito bom”, disse o montador de móveis Ronaldo Júnior Barbosa. Apesar disso, o morador disse que ainda acontecem roubos a pessoa na região, principalmente de telefones celulares.

Já a comerciante Irânia Avelino, que também elogiou a unidade, disse não conhecer nenhum dos policiais. “Aqui no bairro só conheço um policial que mora na rua de trás, mas que mora aqui desde menino e virou policial. Mas ele não trabalha nessa UPS. Não sei exatamente onde ele trabalha. Aqui em casa, nunca recebi visita da polícia para saber de nada”, disse. Irânia tem um ponto comercial duas ruas atrás da UPS.

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