segunda, 25 de janeiro de 2021

Segurança
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Trabalho da PRF vai muito além de fiscalizar e multar

Aline Martins / 23 de maio de 2016
Apesar de não ter um “menu” específico de atendimentos, policiais rodoviários federais, na Paraíba, já atenderam situações nada comuns, mas que os deixaram emocionados ao ajudar o semelhante. Imagine você cometendo uma infração de trânsito ao passar por uma rodovia federal e ao ser parado e multado, um policial, que por curiosidade, descobre que uma filha busca pelo pai e ajuda nesse encontro? E quando a criança resolve nascer antes de chegar em uma unidade de saúde? Pois bem, essas situações já aconteceram e receberam o apoio da PRF mesmo que não sejam de suas responsabilidades. No entanto, o órgão sempre recebe pedidos de ajuda. Somente no ano passado foram 701 atendimentos a condutores decorrentes de pedidos feitos pelo número telefônico 191.

Com 12 anos na Polícia Rodoviária Federal, o policial rodoviário federal Daniel Pereira já ajudou algumas pessoas nas BRs na Paraíba. Ele realizou dois partos no meio da estrada em 2006 e 2009 e mais recentemente, em dezembro de 2014, ajudou um pai a encontrar a filha que não a via desde bebê. Nesse último caso, o policial rodoviário federal contou que aconteceu no momento que uma equipe da PRF fazia rondas pela rodovia, no trecho da BR-230, em Campina Grande, quando se deparou com um motorista de uma carreta cometendo uma infração de trânsito. Ele foi parado e foram consultadas as placas e documentação do veículo e do condutor. O motorista fazia um frente entre Marabá e Campina Grande.

O policial rodoviário federal, que estava na base nesse momento, fez uma consulta que geralmente tem costume de fazer no Google. “Às vezes quando a pessoa tem um nome diferente, eu consulto para verificar se tem mais alguma informação. Às vezes até uma notícia sobre aquela pessoa, alguma coisa. E para minha surpresa, para o nome Sidor Albrecht tinha uma mensagem de uma menina que era a Vitória que estava procurando o pai. Ela tinha colocado em um site de busca de pessoas desaparecidas”, comentou. Após encontrar essa mensagem Daniel Pereira ligou para a equipe que estava no local e pediu para segurar ele porque tinha algo a ser dito.

“Tinha uma colega no posto, a Soraya. Então pensei: já que é uma mensagem de uma moça, então uma voz feminina é para melhor ela ler. Fala para ele que tem uma mensagem de uma moça chamada Vitória que está dizendo que é filha dele. Pergunta se ele tem interesse em ouvir porque poderia ser que ele não quisesse ouvir. E eles foram lá e perguntaram e ele disse: pode passar a mensagem sim. E Soraya leu a mensagem. Ele ficou emocionado e anotou os telefones”, afirmou, destacando que não acreditava que a história fosse para frente, mas foi. O motorista ligou para ele ainda à noite dizendo que tinha entrado em contato a filha e marcado um encontro em Fortaleza, onde residia.  “Ele agradeceu porque aquela multa tinha o feito encontrar a filha dele”, frisou.

“Esse tipo de ocorrência são as melhores que a gente vive na Polícia. A gente apreende muita droga, muita gente com arma. Tudo é satisfatório. É compensador. Mas esse tipo de ocorrência especificamente é mais gratificante a gente poder contribuir. É emocionante você poder ajudar”, Daniel Pereira – policial rodoviário federal na PB.

Dois partos realizados nas estradas

O primeiro parto ocorreu em 2006, na região Campina Grande no sentido Sertão. Daniel Pereira contou que uma equipe fiscalizava um trecho da BR-230, perto de um local onde estava ocorrendo um evento de moto, onde inclusive ocorreu um acidente e fez com que os policiais permanecessem por mais tempo no local. Ele relatou que um veículo parou e uma mulher pediu desesperadamente ajuda, pois uma jovem estava em trabalho de parto. A equipe ainda tentou levá-la em uma maternidade, mas não deu tempo. Ele relatou que o bebê nasceu com o cordão enrolado no pescoço, mas realizou alguns procedimentos e a criança retornou a vida.   O outro parto aconteceu em 2009, em frente ao posto de Queimadas. Na época o hospital não estava funcionando. Uma adolescente de 14 anos, grávida, estava em uma ambulância da cidade de Riacho de Santo Antonio com destino a Campina Grande. Na época, os policiais faziam blitz para testes de alcoolemia. A ambulância parou no acostamento e o motorista ao abrir, a adolescente já estava com metade da criança nascendo.

Anda com bisturi

“Passou um filme na minha cabeça. Os colegas tiram meu colete. Mas esse foi mais dramático porque a criança não estava chorando, estava rocha. Eu virei ela de cabeça para baixo. Dei tapinha na bunda e nada dela chorar. Foi ai que vi que ela não estava respirando. Coloquei a minha boca no nariz e boca da criança e suguei o líquido que fica. Suguei e cuspi, suguei e cuspi. E depois fiz o inverso – coloquei a minha boca na boca e nariz da criança e suguei o líquido e cuspi e fazendo respiração boca a boca e massagem e insistindo. Depois de um tempo ela começou a dar os primeiros sinais de vida e insisti um pouco mais e ela começou a chorar. Cortei o cordão com o canivete também que tinha na época. Hoje eu ando com um bisturi na bolsa. Sabe lá se acontece de novo. E levamos ao hospital”

Fez batedor para ajudar mulher em trabalho de parto chegar ao hospital

O agente da PRF, Gustavo Grisi, em 11 anos de carreira, também já ajudou a diversas pessoas. Um dos casos, segundo relatou, foi quando um casal pediu apoio para chegar a um hospital mais próximo, pois a esposa do homem estava em trabalho de parto. O casal havia passado por um hospital e o médico orientou que fosse para Campina Grande. Como achavam que não daria tempo, por conta do fluxo de veículos que é intenso na região, parou no posto da PRF para pedir auxílio. Foi nesse momento que a viatura seguiu fazendo batedor para abrir o caminho.

Uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionada para que pudesse encontrar com o veículo no meio do caminho e diminuir o tempo de espera por um atendimento “Só que quando a gente chegou em São José da Mata, eles pararam e a gente parou também. Imaginando que tivesse acontecendo alguma coisa foi quando a criança nasceu”, comentou, destacando que não realizou o parto, mas ajudou em diversos momentos a família. Eles seguiram e mais adiante, na alça sudoeste encontrou o Samu, que fez os procedimentos médicos.

“Geralmente a gente se ver diante de situações bem inusitadas. E a gente faz porque é o que geralmente a sociedade espera de nós. Para a sociedade, você está ali e tem que dá alguma resposta e a gente faz o que a gente pode. Tem situações que a gente na vai interferir para piorar a situação como um acidente com vítima grave”, Gustavo Grisi – agente da PRF.

Socorro a enfermo no período de Carnaval

Na segunda-feira de Carnaval deste ano, na BR-101 em Mata Redonda, um motorista passou mal enquanto dirigia seu caminhão do tipo bi-trem. A combinação que transportava produto perigoso transitava em ziguezague pela rodovia e foi constatado que o condutor apresentava sinais de AVC. Os primeiros socorros foram realizados na cabine do caminhão por um PRF que também é médico e estava de serviço naquela unidade operacional. Foi acionada a equipe do Samu e solicitado o apoio da aeronave da Secretaria de Segurança Pública que realizou o transporte do enfermo que já encontrava-se estabilizado . A aeronave pousou em frente a unidade operacional sobre a pista de rolamento, sendo necessário desviar o trânsito durante todo o período do atendimento. O enfermo foi levado com vida pela aeronave para o Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa.

Atendimentos da PRF por meio de pedidos telefônicos 

2015: 701

2016: 384

- 10 é o número de BRs na Paraíba;

- 1291.1 quilômetros rodovias federais para fiscalizar;

Não teve a mesma sorte

Em fevereiro deste ano, o jornalista Adelson Barbosa dos Santos precisou da ajuda da PRF, mas acabou não conseguindo. O seu veículo teve uma pane elétrica e parou no meio da estrada durante a noite, na BR-230, a menos de três quilômetros do posto da PRF de Café do Vento, perto da entrada da cidade de Sapé, na Mata paraibana. Ele contou que, por duas vezes, viaturas da PRF passarem, mas não pararam para lhe perguntar o que aconteceu, se estava precisando de ajuda mecânica ou médica. “Eu liguei para o seguro e eles, a todo o momento, ficavam me ligando para saber se estava tudo bem até o reboque chegar, mas não nenhum policial me ajudou”, comentou. O jornalista comentou ainda que, em um determinado momento, viu duas motos com quatro homens se aproximando. “Quando eu vi, meu coração começou a disparar. Do jeito que a violência está, a gente já imagina o que poderia acontecer. Mas pelo contrário, eles me ajudaram. Um era mecânico e tentou ver se poderia ajudar. Tentaram até empurrar o carro, mas não conseguiu”, revelou.

Policiais poderiam estar em outra ocorrência

A chefe do Núcleo de Comunicação da PRF, inspetora Nathália Freire, comentou que, em casos de veículos parados no acostamento, é normal que as viaturas parem e perguntem o que aconteceu. “No caso específico como esse, várias situações podem ter acontecido para a equipe não ter aguardado. Ou estava se deslocando para atender alguma ocorrência ou atrás de outro veículo e isso tem que ser averiguado para poder saber. Eu garanto que é natural a PRF prestar assistência aos usuários independente da situação. Dependendo do caso, é satisfação a PRF, além de proporcionar segurança, é uma atitude cidadã”, frisou.

Necessário manifestar pedido de ajuda

De acordo com a Nathália Freire, é necessário que o condutor manifeste a necessidade de ajuda. Ela comentou também que a PRF tem equipes médicas de plantão, inclusive policiais formados na área de saúde, que ajudam a atender em alguns casos. Lembrou que o órgão já realizou partos na estrada e também atendeu diversas pessoas com os mais variados pedidos de ajuda. Por conta disso não há uma lista de serviços específicos que o condutor possa recorrer a PRF. Segundo o inspetor Eder Rommel, os números de atendimentos são decorrentes de pedidos feitos através de telefone (191), recados de terceiros, que avisam nos postos da PRF, por exemplo, de pessoas que estão precisando de ajuda e, finalmente, de atendimentos feitos quando as próprias equipes da PRF se deparam com as demandas.

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