terça, 24 de novembro de 2020

Saúde
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Zika pode aumentar abortos clandestinos na Paraíba

Bruna Vieira e Fernanda Figueiredo / 09 de fevereiro de 2016
Foto: Arquivo
A legalização do aborto para fetos com microcefalia tem gerado polêmica no País. Em matéria divulgada pela Folha de São Paulo no início da semana passada, foi revelado que gestantes que tiveram zika estavam recorrendo ao aborto ilegal por medo do bebê desenvolver microcefalia, mesmo sem qualquer diagnóstico positivo para a síndrome. Os abortos clandestinos têm preocupado entidades em todo o mundo. Na Paraíba, por dia, 10 mulheres em média, passam por serviços de saúde para fazer curetagens de abortos espontâneos ou provocados. Se teme que, com medo da zika, aumente o número de mulheres se arriscando em abortos clandestinos.

A urgência da epidemia e o aumento de casos de microcefalia relacionados ao zika fez com que um grupo preparasse uma ação que será impetrada em até dois meses no Superior Tribunal Federal, para que a autorização do aborto seja garantida com a confirmação da infecção. Para Débora Diniz, líder do movimento, a medida é para garantir um direito da mulher violado pela falha do Estado em controlar a epidemia.

“O primeiro pedido é a garantia de políticas amplas para o planejamento familiar, incluindo a testagem de infecção por zika as todas as gestantes. Quando o resultado for positivo, encaminhar a grávida para o pré-natal de risco, se ela desejar prosseguir com a gravidez. Ou direito ao aborto legal, caso deseje interromper. O segundo pedido é por políticas sociais focalizadas para a deficiência, que garantam assistência integral às crianças com singularidades neurológicas decorrentes da infecção, às suas mães e famílias. Esse é um ponto do qual não abrimos mão”, declarou Débora, do Instituto de Bioética Anis.

Para Débora, a ação não vai controlar a epidemia, mas, deve reduzir os abortos clandestinos. “A autorização do aborto para estes casos evitará com que as mulheres que mais estão sofrendo em regiões endêmicas do vírus, mulheres pobres, em sua maioria negras e nordestinas, recorram a um aborto clandestino e inseguro. Será uma medida de proteção ao direito à saúde, à vida e à dignidade dessas mulheres”, destacou a antropóloga.

Ela alerta que o aborto ilegal é um fato no País e precisa de medidas que controlem. “O aborto ilegal é um fato no Brasil, e um fato comum na vida reprodutiva das mulheres. Então é certo que as mulheres estão abortando neste momento. Considerando a extensão da epidemia, é possível que esteja aumentando esse número, mas ainda não é algo que possamos afirmar. O certo é que o fenômeno continua acontecendo”, acrescentou Débora.

20% das mulheres até os 40 anos já realizou aborto, segundo pesquisa da Anis.

Assunto controverso

Para o pediatra Bruno Souza, é preciso investir no planejamento familiar. Ao decidir por ter um filho, o casal deve estar ciente que o bebê pode desenvolver alguma doença e precisa estar preparado para recebê-lo da forma como vier. Não se pode decidir pelo nascimento da criança somente se ela for saudável. “Como é uma coisa nova, todo mundo quer levar para o lado crítico. Toda gravidez deve ser bem planejada. Não há indicação de aborto para microcefalia, a menos que venha acompanhada por anencefalia”, disse.

“A microcefalia pode levar a limitações severas, mas algumas são compatíveis com a vida sociável. Não gera impossibilidade de realizar tarefas. Tem criança que pode nascer sem enxergar. Mas, não se pode determinar o grau antes da criança nascer e isso não justifica a morte do embrião. Acho difícil um juiz liberar um abortamento nesse caso. No Brasil, é regulamentado por estupro, risco de vida da mãe e anencefalia. Em alguns outros casos, com determinação judicial”, concluiu Bruno.

O especialista não recomenda o aborto para os casos de microcefalia. “Não existe gravidez sem risco. Tem doenças preveníveis, pré-natal antecipado. Mas, infelizmente essa não é a realidade e há muita gravidez indesejada. Do ponto de vista ético, o abortamento por microcefalia é totalmente inviável. Não se recomenda”, enfatizou.

Curetagem na Paraíba:

2011: 4.292

2012: 4.321

2013: 3.896

2014: 3.551

2015: 2.846 (até novembro)

OPINIÃO DIVIDIDA

Em Campina Grande, o debate acerca da possibilidade do aborto para grávidas com fetos diagnosticados com microcefalia divide opiniões, embora a maioria das mulheres seja contra o direito de interromper a gravidez, independente da situação. A equipe de reportagem do Jornal Correio da Paraíba foi até a maternidade Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (Isea) e ouviu algumas mulheres. Para a dona de casa Adriana Nunes, de 22 anos, grávida do segundo filho, a opção do aborto não deveria nem existir. “Se tiver que passar por sofrimento, que passe. Matar uma criança está fora de questão, não importa o motivo”, pontuou.

Já Verônica Correia completa que crianças com microcefalia podem se desenvolver tão bem quanto as outras. Ela conhece de perto a situação, já que tem uma sobrinha de 17 anos portadora da doença. “Ela é esperta, gentil, a alegria da família. Não imagino nossas vidas sem ela. Então não sou capaz de aceitar que o Estado permita o aborto nesses casos. Na verdade, em caso nenhum”, disse.

A gestante Juliana de Souza, de 25 anos, defende que a legalização do procedimento nesses casos é uma decisão acertada. “Cabe à mulher decidir. Só ela sabe o que vai sofrer junto com um filho nessa situação, só ela sabe se tem condições de criá-lo. Eu faria, se fosse necessário e legalizado. Agora estou grávida de quatro meses, já tive um aborto espontâneo há pouco tempo, quero muito meu filho, mas desejo muito mais que ele tenha saúde”, ressaltou.

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