segunda, 10 de maio de 2021

Saúde
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Voluntários denunciam mau atendimento e pouca orientação no Hemocentro

Lucilene Meireles / 15 de agosto de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Todo mundo sabe da importância de um doador de sangue e de medula óssea para ajudar a salvar vidas. Porém, enquanto campanhas chamam novos doadores, os cadastrados denunciam que têm passado por situações embaraçosas no Hemocentro da Paraíba, em João Pessoa. Os problemas começam na recepção, com servidores mal humorados, passam pela sala dos médicos, que são desatenciosos e grosseiros. Além disso, falta privacidade durante a entrevista, com porta aberta e entra e sai de funcionários, expondo os doadores a constrangimento. A soma dos problemas agrava uma situação que o Hemocentro tenta combater: a redução no número de doadores. Alguns estão cada vez menos frequentes, o que aumenta a dificuldade de manter o estoque de sangue. O Conselho Regional de Medicina (CRM) vai pedir explicações à direção do órgão.

Um doador, cadastrado há 19 anos, relatou que tem faltado zelo, informação e atenção. “Houve mudança, mas para pior. A começar da recepção, com atendentes mal humoradas. No serviço social e na triagem, mal dão bom dia. Ao seguir para a sala do médico, ele faz as perguntas sem o menor cuidado. No lugar de questionar se tem um relacionamento homossexual, por exemplo, perguntam diretamente se está transando com homem, se usa camisinha, se faz sexo só com a esposa. Acho que a forma de questionar deveria ser diferente. Sem contar que quando estou na entrevista, ficam entrando funcionários, não fecham a porta direito. Não há privacidade”, relatou.

Outro cadastrado acrescentou que foi fazer a doação, acompanhado da esposa, e se sentiu constrangido quando o médico perguntou se ele havia feito sexo na noite anterior e se tinha sido com a esposa. “Foi no questionário. Eu achei constrangedor a mulher perguntar se eu tinha feito sexo no dia anterior e eu, do lado da minha mulher. O resto, perguntando se a gente já foi preso. Tive informação de que são perguntas de praxe, mas achei esquisito perguntar se faz sexo ou não, se usa camisinha ou não. Se eu estivesse sozinho, tudo bem, mas eu estava com a minha mulher e, evidentemente, é uma pergunta constrangedora”, avaliou.

No local, segundo o primeiro entrevistado, não oferecem preservativos, quando isso deveria ser incentivado. “Se quiser pegar, tem que ir para uma sala do Serviço Social, com três, quatro pessoas. A porta aberta, perto da recepção, cheio de gente aguardando. Acho que isso também inibe as pessoas”, reclamou.

Ele acrescentou que, ao chegar, finalmente, no setor de doação, a ficha é entregue e o doador senta na cadeira. “A enfermeira chega, fura, liga o aparelho, vira as costas e fica conversando com as colegas, falando mal dos chefes, quando deveriam falar com o paciente sobre quantas pessoas ele pode salvar com aquela doação. Hoje, no Hemocentro, só as funcionárias da cantina são simpáticas e nos dão atenção. Muito tempo atrás, a gente recebia até mensagem de feliz aniversário. Acho que a situação hoje é bem desestimulante”, lamentou.

As identidades dos doadores foram preservadas.

Não há check-up

Além destas situações vexatórias, os doadores afirmam que os médicos, durante a entrevista, mal olham na cara de quem se dispõe a doar sangue. “Fazem as perguntas, anotam e pronto. Não dão um bom dia, não perguntam como o doador está, se fez check-up recentemente. Por ser um banco de sangue, deveriam fazer as análises básicas do sangue, para ver como estão as taxas e acompanhar a saúde do doador. De repente, ele está com algum problema e nem sabe”, disse.

Não há também, segundo ele, incentivo para que o doador procure um médico. “Deveria haver um setor para avaliar o sangue e, se tivesse com alguma taxa fora do normal, já orientar sobre o que fazer”, observou.

“Deveriam disponibilizar clínico geral, cardiologista, urologista, proctologista para atender os doadores. Se não estivermos bem de saúde, como vamos doar sangue? Como vamos doar a medula?”, questionou.

Para quem depende de posto de saúde, segundo o doador, a situação é complicada. “Primeiro tem que cuidar da saúde do doador. Só assim, ele vai estar apto a doar sangue e medula. Já era para isso existir, mesmo que o doador não procurasse. Deveria ser oferecido um check-up”.

Cadastro de medula óssea

Quase duas décadas atrás, segundo um dos doadores entrevistados, os funcionários falavam da importância de ser um doador de medula. “Havia, inclusive, panfletos explicando todos os detalhes. Eles perguntavam se já éramos doadores e tinha uma equipe para isso. Acessavam o banco e verificavam se o nome estava no banco de dados. Mas, isso mudou. Eu só fiz o meu recadastramento como doador de medula óssea porque vi um panfleto e, por curiosidade, li. Mas, se dependesse dos funcionários, não ficaria sabendo e não teria atualizado meus dados”, contou.

Ele disse que só soube como eram os procedimentos numa campanha nacional e que foi informado da existência de um banco nacional e internacional, como seria se houvesse um paciente compatível. Quando fez o recadastramento, não disseram nada. Só preencheram a ficha. Os dados dos doadores ficam no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome), do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Sugestão

Na opinião do doador, para melhorar, é preciso atender bem, desde a recepção, com um bom dia, um tratamento mais humano, inclusive na triagem. Uma sugestão do doador é que o Hemocentro faça parceria com a Secretaria de Saúde e use as campanhas, como Novembro Azul, para atender os doadores dentro do órgão, com consulta e orientação. No que se refere à medula óssea, ele observou que seria interessante receber informações.

O que é preciso para melhorar

Na opinião do doador, para melhorar, é preciso atender bem, desde a recepção, com um bom dia, um tratamento mais humano, inclusive na triagem. “Os médicos também precisam ter mais jeito ao falar e que a sala seja, de fato, reservada. Além disso, que a espera não seja tão grande, porque o médico fica trancado na sala, e os doadores esperando no corredor”, afirmou.

Uma sugestão do doador é que o Hemocentro faça parceria com a Secretaria de Saúde e use as campanhas, como Novembro Azul, para atender os doadores dentro do órgão, com consulta e orientação. “Deveria haver um meio de procurar encurtar o atendimento de saúde ao doador, para que ele se cuide. Uma equipe que entre em contato quando ele for fiel e demorar a doar, uma ligação perguntando os motivos de não ter ido mais. O doador não tem obrigação de doar. Ele vai se quiser, por questão humanitária e, por isso mesmo, deveria ser bem mais cativado”, opinou.

Ainda segundo ele, passam as datas comemorativas, como o Dia dos Pais, aniversário e não chega uma mensagem. “Eles sabem no sistema quem é casado, se tem filho. Isso demonstra atenção e quanto mais se agradar o doador, mais ele vai gostar de ir. Quem não gosta de ir para um lugar onde é bem tratado e recebe atenção? Agora, quando o doador é mal recebido, não dá mais vontade de voltar”, lamentou.

No que se refere à medula óssea, ele observou que seria interessante receber informações. “Deveriam explicar como é, caso não seja doador. Como, através da doação da medula, é possível salvar vida. Perguntar se gostaria de ser doador. Dizer se já houve alguma vida salva por doador cadastrado da Paraíba. Mostrar que ser cadastrado como doador de medula óssea é tão importante quanto ser doador de sangue ou até mais, porque quando alguém vem precisar de uma medula, está numa situação bem difícil e depende da boa vontade de alguém em querer doar”.

Ele disse ainda que seria interessante, inclusive, o Hemocentro mostrar aos doadores depoimentos de pessoas que foram salvas através de alguém que fez a doação de medula, histórias de famílias que se conheceram e se aproximaram depois do procedimento. “Seria uma forma de incentivar ainda mais”, completou.

CRM-PB vai pedir explicações ao Hemocentro

O Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB) vai pedir explicações ao Hemocentro da Paraíba sobre as denúncias feitas pelos doadores, segundo o diretor de Fiscalização, João Alberto Morais Pessoa. Vamos inquirir a direção técnica (do Hemocentro) para que se justifique perante o conselho e faça as correções”, afirmou.

“A falta de pudor, seja do ponto de vista do corpo ou quanto ao sigilo profissional, são situações antiéticas que o CRM não permite que ocorra. Tudo que discrimina, que fere o pudor, vai contra os conceitos de sigilo da própria profissão. O CRM não concorda. A privacidade é uma obrigação e uma condição ética do médico. Nenhuma determinação pode impedir que seja mantida a privacidade do paciente, e isso não depende da instituição”, afirmou.

Ele ressaltou, porém, que a população precisa denunciar. “Quando chegam as denúncias, colocamos na frente de tudo. Se os pacientes estão se sentindo desconsiderados em relação a seu pudor, o CRM não permite. Isso é antiético. O médico não pode desrespeitar, nem o sigilo da informação, nem em relação ao corpo”. O diretor lembrou que o Código de Ética Médica possui alguns capítulos que falam sobre a necessidade de preservação do pudor das pessoas.

Em relação à questão do banco de doadores, denunciada por um doador, o CRM não pode intervir. “Essa desorganização é na área administrativa. O banco de doadores é nacional, inclusive, quando é feita a captação entra no banco nacional, disponibilizando para o Brasil inteiro. Infelizmente, é de cunho administrativo e o Conselho não pode acionar o Hemocentro”.

1 para cada 100 mil

São as chances de um paciente encontrar um doador compatível, em média, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

O que é preciso para se cadastrar e ser um doador de medula óssea

Procure o hemocentro mais próximo de sua casa para esclarecer dúvidas.

Será feita a coleta de uma amostra de sangue (10 ml) para a tipagem de HLA (exame de histocompatibilidade que identifica as características genéticas de cada indivíduo).

Os dados do doador são inseridos no cadastro do Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome).

Sempre que surgir um novo paciente, a compatibilidade será verificada.

Uma vez confirmada, o doador será consultado para decidir quanto à doação.

Como é feita a doação

– A doação é um procedimento que se faz em centro cirúrgico, sob anestesia peridural ou geral, e requer internação de 24 horas.

– A medula é retirada do interior de ossos da bacia, por meio de punções.

– O procedimento leva em torno de 90 minutos.

– A medula óssea do doador se recompõe em apenas 15 dias.

– Nos primeiros três dias após a doação pode haver desconforto localizado, de leve a moderado, que pode ser amenizado com o uso de analgésicos e medidas simples.

– Normalmente, os doadores retornam às suas atividades habituais depois da primeira semana após a doação.

Outro método para doação de medula

Há outro método de doação chamado coleta por aférese, mas a decisão sobre a forma é do médico. Neste caso, o doador faz uso de uma medicação por cinco dias com o objetivo de aumentar o número de células-tronco (células mais importantes para o transplante de medula óssea) circulantes no seu sangue. Após esse período, a pessoa faz a doação por meio de uma máquina de aférese, que colhe o sangue da veia do doador, separa as células-tronco e devolve os elementos do sangue que não são necessários para o paciente. Não há necessidade de internação nem de anestesia, sendo todos os procedimentos feitos pela veia.

Onde é feito o cadastro

Paraíba

Hemocentro Coordenador Paraíba

Avenida Dom Pedro II, 1119 - Centro - João Pessoa

Telefone – 3218-5690.

 

Quem pode doar

– Ter entre 18 e 55 anos de idade.

– Estar em bom estado geral de saúde.

– Não ter doença infecciosa ou incapacitante.

– Não apresentar doença neoplásica (câncer), hematológica (do sangue) ou do sistema imunológico.

– Algumas complicações de saúde não são impeditivas para doação, sendo analisado caso a caso.

Quem se beneficia do transplante de medula óssea

O transplante de medula óssea é indicado para doenças relacionadas com a fabricação de células do sangue e com deficiências no sistema imunológico. Os principais beneficiados são pacientes com leucemias originárias das células da medula óssea, linfomas, doenças originadas do sistema imune em geral, dos gânglios e do baço, e anemias graves, adquiridas ou congênitas. Outras doenças, menos frequentes, também podem ser tratadas com transplante de medula, como as mielodisplasias, doenças do metabolismo, doenças autoimunes e vários tipos de tumores.

Importância de ser um doador

O transplante de medula óssea pode beneficiar o tratamento de cerca de 80 doenças em diferentes estágios e faixas etárias. De acordo com o Inca, o fator que mais dificulta a realização do procedimento é a falta de doador compatível.

O doador ideal, que seria um irmão compatível, só está disponível em cerca de 25% das famílias brasileiras. Isso significa que, para 75% dos pacientes, é necessário identificar um doador alternativo a partir dos registros de doadores voluntários, bancos públicos de sangue de cordão umbilical ou familiares parcialmente compatíveis, também chamados haploidênticos.

Para aumentar as chances de êxito na localização, é fundamental manter os dados cadastrais atualizados no Redome. Se houver alguma mudança de informação, é preciso atualizá-las. O voluntário pode ser chamado para efetuar a doação com até 60 anos de idade.

Como atualizar os dados

Em caso de mudança de informações, o doador deve preencher o formulário, disponível no link http://redome.inca.gov.br/doador/como-atualizar-os-dados/ ou entrar em contato pelos telefones (21) 2505-5656/ 2505-5639 / 2505-5638.

Doenças que impedem a doação

AIDS/HIV

Hepatite

Diagnóstico das Hepatites B e C

– Portadores do vírus das Hepatites B e C (conhecido como infecção crônica)

O cadastro será permitido nos casos de vacinação para prevenção da doença ou histórico de tratamento completo de Hepatite A

Câncer

Histórico de lesões pré-cancerosas; câncer de pele localizado (células basais ou células escamosas); melanoma in situ curado; câncer cervical in situ curado; câncer de mama curado; câncer de bexiga curado.

Doenças autoimunes

Artrite reumatóide, lúpus, fibromialgia, esclerose múltipla, psoríase, vitiligo, síndrome de Guillain-Barré, púrpura, síndrome antifosfolipídica, Síndrome de Sjogren, Doença de Crohn, espondilite anquilosante.

Epilepsia

O cadastro é permitido nos casos da doença controlada, com ausência de convulsões no último ano.

Doenças Sexualmente Transmissíveis

Cadastro permitido em casos de doenças sexualmente transmissíveis, como herpes, HPV, clamídia e sífilis.

Diabetes

Pessoas diagnosticadas dom diabetes devem consultar o médico para analisar a atual situação clínica. Geralmente, se a doença estiver bem controlada, seja por dieta ou medicamento, será permitido o cadastro. Se há uso de insulina ou outra medicação injetável, o cadastro não será permitido.

DADOS

Brasil

4.629.147 é o número de doadores cadastrados no Redome.

850 é o número de pacientes em busca de doador não aparentado (média).

Número de doadores cadastrados no Nordeste

175.672 - Ceará

156.406 - Bahia

128.419 - Pernambuco

83.863 - Piauí

66.749 - Paraíba

70.174 - Rio Grande do Norte

46.005 - Alagoas

40.829 - Sergipe

22.034 - Maranhão

Total de pacientes inscritos no Rereme

673 - Bahia

604 - Pernambuco

448 - Ceará

245 - Rio Grande do Norte

214 - Paraíba

179 - Piauí

175 - Maranhão

129 - Alagoas

88 - Sergipe

Número de transplantes não aparentados realizados a cada ano - Brasil

2007 - 137

2008 - 136

2009 - 132

2010 - 167

2011 - 198

2012 - 250

2013 - 253

2014 - 272

2015 - 299

2016 - 381

2017 - 392

2018 - 192

Fonte: Instituto Nacional do Câncer (Inca)/Registro Nacional de Receptores de Medula Óssea (REREME)/Dados atualizados em junho/2018.

 

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