segunda, 18 de janeiro de 2021

Saúde
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Uma droga para cada mal e a cultura da automedicação persiste entre médicos e pacientes

Bruna Vieira / 22 de maio de 2016
Foto: Assuero Lima
Se está com dor de cabeça, toma dipirona. Para dormir, um sedativo. Antibióticos para dor na garganta, pílula para não engravidar... E assim, a sociedade está cada vez mais acostumada a tomar medicamentos. Para cada mal, dá-se um jeito de conseguir alguma droga.

O que muita gente não sabe é que o organismo tem mecanismos de defesa que combatem as enfermidades e nem sempre é necessária a intervenção medicamentosa.

A cultura da medicação não é exclusividade dos pacientes. A precariedade no sistema de saúde e a influência da indústria farmacêutica, até mesmo com ‘presentes’ e patrocínio de festas de formaturas, levam alguns médicos a prescreverem remédios de forma indiscriminada.

A alopatia é muita mais aceita do que as terapias alternativas (como homeopatia e fitoterapia) também por causa dos seus efeitos imediatos.

A prova disso é que, no sempre movimentado Hospital Infantil Arlinda Marques, na Capital, a médica homeopata ‘se queixa’ da falta de pacientes.

Mas, também há um remédio para esse mal. Sem abrir mão dos medicamentos, hospitais públicos do Estado estão cultivando ‘plantinhas milagrosas’ para consumo de pacientes. Os defensores do tratamento fitoterápico sabem o bem que faz o ‘chazinho da vovó’.

'Coquetel’ pode até matar

Marcus Vinicius Andrade, diretor de Pesquisa do ICTQ aponta os riscos que a medicação inadequada acarreta à saúde. “Pode complicar um quadro clínico já existente, que a pessoa nem sabe que tem e toma o remédio errado. Em casos extremos pode levar à morte. Por exemplo, tomar um medicamento achando que está com uma simples dor de cabeça, quando na verdade é um tumor. Ao chegar no hospital já está nas últimas consequências. É perigoso, pode mascarar outras doenças. Toma um Epocler e quando o sintoma volta, toma de novo porque resolveu de forma rápida”, esclareceu.

Outro cuidado é com a mistura de tratamentos. “Toma um chá, depois um comprimido. Vira um coquetel. Por falta de conhecimento, as pessoas vão acumulando certas substâncias que atacam muito o fígado, o estômago e outras vezes provoca interações medicamentosas”, alertou Marcus Vinicius.

A indústria. A influência da indústria farmacêutica sobre os médicos leva ao excesso. “A indústria farmacêutica de forma geral tem impacto na prescrição do médico. O cidadão tem receio de que seja além do necessário. Às vezes o médico mal olha e já dá duas, três receitas. O sistema de saúde é falho e o atendimento precário da classe médica reforça a automedicação”.

Segundo ele, há influência do marketing sobre a classe médica desde a universidade até a carreira do médico. Algumas patrocinam a formatura. Em alguns consultórios há exposição de marcas. “A indústria trata bem com presentes, congressos e viagens pagas. Ganham benefícios diretos. Apesar de não ser ético, isso não é regulamentado. O Conselho de Medicina tenta barrar e até condena. Têm farmácias com sistema de controle para saber quais medicamentos e quem está prescrevendo”.

Produção de fitoterápicos da UFPB

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No Núcleo de Estudos e Pesquisas Homeopáticas e Fitoterápicas da UFPB são feitos sabonetes, xaropes, pomadas, tinturas e outros fitoterápicos. Porém, em nível de extensão e ensino e não de produção em larga escala. O professor do Departamento de Fisiologia e Patologia do Centro de Ciências da Saúde, Climério Avelino Figueiredo, explica que a grande vantagem é o custo.

“São plantas que as pessoas podem ter em casa a qualquer hora. O medicamento precisa ir à farmácia. Do ponto de vista teórico, qualquer doença pode ser tratada com plantas medicinais, ou de forma exclusiva ou associada ao medicamento alopático. Ansiedade, gastrite, úlcera, hipertensão, diabetes, problemas de pele. Depende do médico, do estágio da doença e do paciente... Não é que não tem efeito adverso. Uma ou outra tem, o risco é menor”.

Climério, que tem residência em psiquiatria e saúde pública falou o uso exacerbado de medicamentos. “Até para se resguardar, o médico prescreve. É uma ciranda da indústria. Tem influência ética e não ética. A ética é a cultura propagandista, folhetos dizendo que é bom. Tudo conspira a favor da medicalização. A não ética é ganhar congressos, viagens. Para toda doença, o organismo tem mecanismo de cura, que vão envelhecendo e falhando. Com alimentação e estilo de vida saudável é difícil adoecer. A fitoterapia tem eficiência na atividade antibiótica, inflamatória, analgésica, cicatrizante. É necessário prescrição de um profissional de saúde ou indicação, que não necessita aspecto legal, mas, tem que ter conhecimento técnico”.

Médica à espera de pacientes

No Hospital Arlinda Marques, tem homeopatia nas tardes de segunda e sexta-feira. O que falta é paciente. O tratamento era por demanda espontânea, porém, agora tem que ser referenciado pela Unidade de Saúde da Família. Os médicos não querem encaminhar ou não sabem do serviço. A médica Berenice Ramos acredita que falta divulgação.

“Em dois meses, atendi um paciente. Passou um tempo sem ter médico. Éramos quatro, me afastei por quatro anos e quando voltei não havia nenhum. Os médicos do sistema precisam saber para encaminhar. Os próprios médicos falam mal. Não interessa aos laboratórios que a homeopatia cresça, porque isso vai reduzir os exames, consultas, vendas de remédios e internações. É o capitalismo. Muitos dizem que é placebo, água com açúcar. Tem fama que é coisa lenta. Mas, atendemos casos agudos de asma e infecção e passa. Resolve no mesmo tempo e sem danos. Falta paciência, principalmente dos pais, que tem receio de complicar mais o quadro”, revelou Berenice.

A homeopatia é uma terapia energética, que visa bem-estar geral das pessoas. “Busca o equilíbrio”, disse.

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