domingo, 19 de maio de 2019
Saúde
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Terapia pode livrar pacientes hemofílicos dos remédios

Lucilene Meireles / 16 de abril de 2019
Foto: Assuero Lima
Pacientes brasileiros estão participando de pesquisas realizadas na Inglaterra e Estados Unidos que analisam a possibilidade de livrar os hemofílicos da medicação. Trata-se da terapia gênica que, apesar de ainda estar em fase de estudos, representa um avanço no tratamento caso seja liberada em alguns anos. A informação é da hematologista Sandra Sibele Figueiredo, responsável técnica pelo Hemocentro da Paraíba, gestora da Hemorrede Estadual e do Programa de Coagulopatias Hereditárias do Estado da Paraíba. Ela alertou, porém, que ainda não se pode falar em cura.

“Está em fase de estudo e é uma pesquisa promissora, mas ninguém sabe se as células hepáticas que carreiam o vírus vão produzir o fator a longo prazo. É isso que as pesquisas têm que dizer”, ressaltou. Outro ponto a destacar, segundo ela, é que, quando a terapia gênica estiver disponível, nem todo paciente terá acesso. “Se ele tiver problema hepático, se beber, se já tiver tido hepatite, não poderá se submeter a esse tipo de tratamento. Ou seja, não são todos os pacientes que terão acesso à terapia gênica, mas é uma pesquisa promissora”, frisou.

A terapia gênica consiste na utilização de um vírus não patogênico. Nele, é injetado o gene que fabrica o fator VIII. Ela explicou que esse vírus é levado para dentro do fígado do paciente hemofílico, dentro das células do fígado, os hepatócitos. As células hepáticas com o vírus que carrega o gene da produção do fator VIII ou IX vão começar a produzir o fator VIII ou IX dentro do organismo, conforme a hematologista.

As pesquisas, porém, podem demorar anos. “Não sei se vamos ver isso, se nos próximos 30 anos estará liberada para todos os pacientes. As pesquisas têm de mostrar que a terapia gênica vai funcionar a longo prazo, porque só é possível se submeter uma vez a ela. É isso que os pesquisadores estão estudando, se as células hepáticas dos pacientes irão continuar produzindo o fator por um longo prazo. Se esse vírus que é considerado não patogênico realmente não é patogênico, se realmente pode provocar algum dano hepático. Enquanto as pesquisas não mostrarem isso com segurança, a terapia gênica não terá início”, esclareceu.

Paciente. O engenheiro Océlio Alves Teixeira Júnior, 27, é hemofílico grave, do tipo B, e foi informado sobre as pesquisas. Ela considera muito positivas, mas tem ciência de que, talvez, não chegue a ter acesso.

“Essas pesquisas ainda estão engatinhando e, por isso, não nos empolgam muito, pois a possibilidade de fazer algum tratamento do tipo ainda parece muito distante da nossa realidade. Mas, são estudos promissores e acredito que, para as próximas gerações de hemofílicos, serão de grande valia”, observou.

Sempre preocupado com a saúde, ele relatou que faz academia por saber da importância para o corpo. “Esporte é a solução para fortalecer o corpo e favorecer uma vida saudável a todo hemofílico”, destacou. A profilaxia, segundo ele, continua sendo o segredo da saúde para o hemofílico. “Todo o corpo de médicos do Hemocentro têm orientado os pacientes nessa direção, o que nos garante uma vida 99% normal”, garantiu.

Para se fazer a profilaxia, é preciso tomar o fator - que no caso da hemofilia tipo B é o fator IX - de duas a três vezes por semana. Océlio explicou que o consumo do medicamento tem se feito muito mais necessário e vez por outra os pacientes têm receio de que falte, um medo que leva em conta o alto custo da medicação para os cofres públicos.

“Graças a Deus, estamos recebendo esse remédio e, grande parte desse sucesso se deve ao esforço da equipe do Hemocentro que luta muito por nós e pela aplicação dessas novas técnicas que nos proporcionam uma vida mais saudável”, acrescentou.

O engenheiro afirmou que, apesar de não ter uma vida muito regrada, é necessário evitar extravagâncias, tomar cuidado com a intensidade dos exercícios, evitar esportes de grande impacto.

“Os inchaços nas articulações são a principal causa da restrição ao movimento na fase adulta. Então, podemos e devemos fazer esporte e atividades físicas, mas sempre com inteligência e ponderação”, completou.

Hemocentro realiza diagnóstico



O Hemocentro da Paraíba faz o diagnóstico da hemofilia, cadastra o paciente, fornece o medicamento e oferece tratamento multidisciplinar a todos eles. Ele possui o melhor laboratório de coagulopatias do Estado, sendo capaz de dar o diagnóstico de hemofilia numa criança em 4 horas. O paciente tem acesso a todas as medicações e recebe todo o acompanhamento necessário.

Enquanto as pesquisas relativas à terapia gênica não trazem resultados concretos, a hematologista Sandra Sibele Figueiredo destacou que o Brasil hoje oferece um tratamento que é considerado de excelência em hemofilia.

“A vida do hemofílico atualmente é totalmente diferente de 30 anos atrás. Ele leva o fator para casa, está perto dele. Se aplica na veia, e tem fatores que se aplicam na via subcutânea. O hemofílico joga bola, faz judô, anda de bicicleta, é esportista, nada, faz tudo. Tem uma vida praticamente normal”, contou Sibele Figueiredo.

A hemofilia. É uma doença hemorrágica hereditária caudadas por deficiência em duas das proteínas que participam da coagulação sanguínea , fator VIII na hemofilia A e fator IX , na hemofilia B. Na hemofilia A, a deficiência é do fator VIII e, na B, a deficiência é do fator IX. A causa, conforme a hematologista Sandra Sibele, é uma mutação nos genes que codificam a produção dos fatores VIII e IX, localizados no cromossomo X. Já o tratamento depende da gravidade da hemofilia. Pode ser feito através da profilaxia com fator VIII ou IX, duas a três vezes por semana, para evitar sangramentos. Esse tipo de tratamento é feito na hemofilia grave e na moderada. Além deste, tem o tratamento sob demanda, em que se aplica o fator VIII ou IX quando o paciente sangra ou vai fazer cirurgia.

“Caso os hemofílicos graves não façam o tratamento correto, poderão ter vários sangramentos dentro das articulações que podem levar a destruição total da articulação, levando a deficiências físicas”, alertou Sandra Sibele Figueiredo.

Saiba mais

283 É o número de pacientes com coagulopatias hereditárias, que levam a sangramentos ao longo da vida, cadastrados no Hemocentro da Paraíba. São 245 do tipo A e 38 do tipo B. Todos recebem medicação de graça pelo Ministério da Saúde. O Hemocentro é o único local da Paraíba que faz o diagnóstico de hemofilia pelo SUS.

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