terça, 16 de julho de 2019
Saúde
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Telemedicina gera polêmica e desagrada médicos

Lucilene Meireles / 10 de março de 2019
Foto: Imagem ilustrativa
A resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que regulamenta a prática da Telemedicina – consultas via teleconferência - só deve entrar em vigor no mês de maio, mas antes mesmo de começar a valer virou alvo de polêmica. A norma, que define e disciplina a prestação de serviços médicos mediados por tecnologias, desagradou médicos de todo o País, o que levou o CFM a abrir consulta pública até 7 de abril para que eles possam opinar. Na Paraíba, em reunião realizada recentemente foram pontuadas várias mudanças no texto que serão enviadas ao CFM para análise.

Na opinião do presidente do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), Roberto Magliano, há muitas mudanças a serem feitas no documento. “A primeira coisa com que nos preocupamos é com relação à teleconsulta. Entendemos que é muito preocupante fazer uma consulta médica à distância colocando de um lado um médico e um profissional de saúde que não seja médico para fazer o atendimento. Isso é negativo e vai precarizar a relação médico–paciente, a qualidade do atendimento”, avaliou.

Em relação ao profissional que fica ao lado do paciente durante a teleconsulta, ele observou que quando o médico treinado, com pelo menos nove anos de formação, é substituído por um profissional que não tem uma formação médica compromete o atendimento.

“Outra questão é que a gente acha que a redação da resolução não é boa, abrindo muitas brechas. Na teleinterconsulta (troca de informações e opiniões entre médicos com ou sem a presença do paciente), da forma como foi colocada, vai favorecer as grandes empresas que pretendem baratear o atendimento sem melhorar a qualidade”, analisou.

Como exemplo, ele citou a possibilidade de um médico recém-formado, sem especialização, ser colocado para atender em João Pessoa, e um médico que fica no Hospital Albert Einsten, em São Paulo, para atender lá. “Esse médico da teleinterconsulta vai, possivelmente, atender o paciente baseado na informação que é dada do Albert Einstein. No nosso entendimento, não é satisfatório, é uma exploração. Querem baratear a consulta”, disse.

Hoje, uma consulta de plano de saúde custa, em média, R$ 80. “Querem transformar isso numa coisa muito barata e perde em qualidade, e quem perde é o paciente. Isso, possivelmente, vai desestimular os profissionais médicos a fazerem uma especialização e vamos ter os postos ocupados por eles”, lamentou.

Forma de fiscalizar preocupa o CRM-PB



A dificuldade para fiscalizar é outro ponto que preocupa o CRM-PB. “Se acontece algum problema com um profissional que está dando atendimento, se esse atendimento não está sendo adequado, na resolução diz que se o médico da circunscrição deve responder àquele conselho. Como vamos saber se ele está dando um atendimento bom ou não? Não vai ter como os Conselhos de Medicina estarem estruturados para fazer o acompanhamento. Já fazemos das centenas de milhares de serviços no país, e vamos ter que fazer uma verdadeira mágica”, constatou Roberto Magliano.

CFM já previa ajustes. O presidente do CRM-PB, Roberto Magliano, afirmou que vários pontos precisam ser melhorados. Ele explicou que, quando o CFM publicou a resolução esclareceu que estava num período de sofrer ajustes e, durante 90 dias, prorrogáveis, qualquer médico poderia oferecer sugestões.

No último sábado, em reunião com várias entidades médicas preocupadas com o tema, foram discutidos todos os pontos da resolução.

“Fizemos um relatório com os ajustes que consideramos pertinentes, vamos encaminhar ao CFM e esperamos que sejam acatados. Nossa preocupação é melhorar a qualidade do atendimento, mas temos receio de que da forma como está, a resolução venha favorecer empresas , grandes corporações interessadas em criar um novo filão de atendimento que visa o lucro e não a melhoria do atendimento de saúde. Pode estar precarizando o atendimento médico”, alertou.

Ponto positivo. Um dos poucos pontos positivos na resolução, conforme Roberto Magliano, é o fato de que é necessário regulamentar a telemedicina. “Hoje, todos nós estamos nos tornando cada vez mais eletrônicos em todas as áreas. Esse processo de transformação precisa ser regularizado, porque existem muitas questões legais e éticas neste meio. É preciso que seja regulamentada, mas não da maneira como foi”, ressaltou.

Segundo ele, existe uma resolução que tratava do tema em 2002 e, por conta dos avanços tecnológicos, justificou-se a adoção de uma norma mais moderna. “A teleintersconsulta no Hapvida é um atendimento que vemos com preocupação. O paciente precisa de uma determinada especialidade, fica ao lado do paciente e outro, lá do outro lado, fazendo a consulta”. Isso, conforme o presidente do CRM-PB, pode comprometer a qualidade do atendimento.

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