quinta, 27 de junho de 2019
Saúde
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‘Saúde da Paraíba está à beira de um colapso’, diz o presidente do CRM-PB

Lucilene Meireles / 06 de junho de 2019
Foto: Divulgação/CRM-PB
“A Saúde da Paraíba está à beira de um colapso”. Foi assim que o presidente do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), Roberto Magliano, resumiu as condições das unidades de saúde do Estado. Faltam materiais básicos como seringas, luvas e tubos. A prateleira onde deveria estar armazenado o estoque de dipirona, vazia. Faltam roupas hospitalares, há carência de médicos, sobram pacientes. Sem local para ficar, acompanhantes se amontoam no chão úmido pelas infiltrações e por onde circulam baratas. Estes são apenas alguns exemplos de situações encontradas em 28 unidades de saúde fiscalizadas pelo CRM-PB de janeiro a maio de 2019 e fazem parte do Dossiê da Saúde Pública Paraibana, apresentado ontem.

São constatações que revelam as condições precárias das principais unidades de saúde do Estado e mostram o caos que se instalou na saúde pública do Estado, de acordo com Magliano. Os problemas atingem todos os setores, desde clínica geral, cirurgia e pediatria à maternidade e até mesmo oncologia. Todos os casos foram denunciados pelo CRM-PB aos Ministérios Públicos Estadual e Federal, Governo do Estado, principais prefeituras. O Conselho pediu soluções. Algumas ocorreram, mas a maioria, não.

“Temos uma grande preocupação com a saúde pública da Paraíba, mas ao longo dos anos, nos acostumamos com a piora progressiva”, observou. “É necessário que a população, gestores e a opinião pública saibam o que está acontecendo em nosso Estado”, frisou.

O CRM tem uma capacidade de fiscalização limitada e nunca foram vistos tantos problemas juntos na saúde da Paraíba, segundo o diretor de Fiscalização, João Alberto Morais Pessoa. Apesar da dificuldade, o CRM vai continuar fiscalizando, especialmente as unidades que não foram vistoriadas. “É um absurdo, mas cerca de 64% das unidades fiscalizadas colocam em risco o atendimento seguro à população. Nós temos dados para comprovar isso”, ressaltou Magliano. Um problema frequente está relacionado aos recursos humanos. Mais de metade das unidades fiscalizadas não tem escala médica completa. Faltam enfermeiros, técnicos de enfermagem e médicos em quantidade suficiente para atender a demanda.

Tratamento do câncer

Responsável pelo atendimento de 70% da população com câncer na Paraíba, o Hospital Napoleão Laureano sofre um problema sério no que diz respeito aos recursos materiais. Durante a fiscalização, não havia sequer um soro. “Cirurgias foram suspensas por conta disso. É um problema absolutamente inaceitável, considerando que esse é o maior hospital de atendimento oncológico da Paraíba”, declarou Roberto Magliano.

E não é apenas esta unidade que padece com a escassez de material. “Infelizmente, ocorre em cerca de 60% das unidades de saúde do Estado. Se você vai a qualquer unidade de saúde, a chance de não ter o medicamento que precisa é de 60%”, afirmou.

Em termos de problemas estruturais, a maioria das grandes unidades hospitalares do Estado não apresentou, mas 36% delas têm, e quando eles existem, são graves. “Por exemplo, no Hospital Laureano, os médicos disseram que se sentiam extremamente incomodados quando começavam um tratamento de um paciente com câncer e não podiam dar continuidade porque faltava o medicamento”, lamentou.

Roberto Magliano afirmou que não há comprometimento apenas no tratamento quimioterápico. Na radioterapia, há entre 200 e 300 pacientes aguardando. No bloco cirúrgico, segundo ele, pacientes não conseguem realizar o procedimento.

8 É o número de unidades de saúde interditadas na Paraíba entre janeiro e maio deste ano.

Hospital merece cuidados



“Esse hospital, cronicamente, há muitos anos, vem merecendo cuidados, atenção dos gestores. Se nós fôssemos ser extremamente rigorosos, deveríamos interditar o Trauminha. Só não fazemos isso porque a população iria ficar desassistida”, declarou o presidente do CRM-PB, Roberto Magliano. O CRM tem solicitado aos gestores, diretores, providências para melhorar os cuidados aos pacientes.

O Hospital do Valentina se destina ao atendimento infantil, com boa estrutura. Porém, é subutilizado, sendo aproveitados 60%. Enquanto isso, o Arlinda Marques, que também é infantil, vive superlotado. De acordo com Magliano, as informações foram repassadas à Prefeitura de João Pessoa e ao secretário de Saúde.

O caos na saúde vem se tornando insustentável e gerando conflitos entre médicos e pacientes. “Médicos vêm sendo agredidos no pronto atendimento desses hospitais porque, simplesmente, os pacientes insatisfeitos, não tendo a quem recorrer, acabam transferindo essa sua insatisfação ao profissional que está ali para atendê-los”, disse Magliano.

Assistência crítica

Ele avaliou a assistência pediátrica na Paraíba como absolutamente crítica. O Hospital da Criança e do Adolescente, em Campina Grande, tem problema de superlotação, falta de medicamentos, a manutenção predial é precária e falta até dipirona para as crianças.

Na maternidade Peregrino Filho, em Patos, são cinco meses de salários atrasados. É a terceira maternidade mais importante do Estado e enfrenta também problemas de falta de medicamentos, além da falta de pagamento. A Secretaria de Saúde do Estado (SES) e o Governo do Estado foram informados sobre a preocupação do CRM.

Sertão

O Hospital Janduhy Carneiro, em Patos, que atende cerca de 60 municípios da região, só tem dois médicos no pronto atendimento. Já o Hospital do Bem, que atende pacientes com câncer do Sertão, não conta com médico para atendimento dessas pessoas. Na fiscalização, a informação repassada foi de que, se houver algum problema, o médico que está no pronto atendimento tem que sair do Hospital Janduhy Carneiro, andar 130 metros, até o Hospital do Bem.

O que diz o Estado



O secretário de Saúde do Estado, Geraldo Medeiros, minimizou os problemas apontados nas fiscalizações do CRM e disse que 90% deles já estariam resolvidos. Sobre os riscos de exercício da Medicina, Medeiros negou e falou ainda que as unidades de saúde têm condições de trabalho adequadas para os profissionais. (Alisson Correia- Portal Correio)

Medidas de segurança



Sobre a segurança e integridade física dos usuários e profissionais de saúde, a Secretaria de Saúde da Capital (SMS) disse em nota que adota Plano de Segurança, que conta com trabalho da Guarda Municipal e de profissionais terceirizados.

Com relação ao Hospital do Valentina, a SMS informou que a unidade está com a escala de médicos completa.

Quanto ao Complexo Hospitalar de Mangabeira, a SMS reforçou que a instituição realiza uma grande prestação de serviço de saúde pública à população, principalmente no que diz respeito a assistência às pessoas envolvidas em acidentes de trânsito.

Hospital Laureano

“Em nota, o Hospital Napoleão Laureano negou que a unidade hospitalar tenha equipamentos quebrados. O hospital informou que meses atrás, após um raio atingir uma subestação da Energisa, alguns equipamentos foram danificados, porém todos já se encontram em funcionamento. Sobre os estoques de medicamentos, o hospital disse que tem enfrentado dura batalha para mantê-los e ressalta o caráter filantrópico do Hospital Napoleão Laureano. A unidade fez um apelo para que mais doadores ajudem a manter o hospital”. (Nice Almeida e Halan Azevedo - Portal Correio)

Unidades de saúde. Casos mais graves

João Pessoa

Hospital Napoleão Laureano

Falta de medicamentos oncológicos para dar continuidade ao tratamento de pacientes com câncer, equipamentos quebrados, contingenciamento da fila de pacientes para tratamento.

Complexo Hospitalar de Mangabeira Salas de cirurgia com buracos no teto, infiltrações, ferrugem e mofo. Infraestrutura precária, com infiltrações nas paredes, infestação de baratas na enfermaria, superlotação e demora na realização de cirurgias.

Hospital do Valentina Figueiredo

Falta de médicos, subutilização do centro cirúrgico.

Maternidade Frei Damião

Precária conservação predial e risco de colapso elétrico.

Santa Rita

Caps Santa Rita

Precária conservação predial.

Campina Grande

Hospital da Criança e do Adolescente

Sem roupa hospitalar e lavanderia desativada, superlotação, falta de medicamentos, manutenção predial precária.

Patos

Maternidade Peregrino Filho Falta de materiais básicos na UTI neonatal, a exemplo de tubos, seringas, luvas.

Hospital Geral Janduhy Carneiro Falta de Materiais básicos em bloco cirúrgico e UTI, superlotação, número insuficiente de médicos.

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