domingo, 17 de novembro de 2019
Saúde
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Quase mil pessoas são vítimas de cirrose hepática nos últimos cinco anos

Beto Pessoa / 16 de agosto de 2017
Foto: RAFAEL PASSOS
Nos últimos cinco anos 939 pessoas morreram de cirrose hepática na Paraíba, apontam dados do Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. O cenário fica ainda mais alarmante quando se leva em consideração que o consumo de álcool, principal causa da doença, aumentou 43,5% em todo país, segundo informações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O número tende a ser ainda maior, se cruzados os casos de cirrose hepática com hemorragia digestiva alta e câncer de fígado, complicações cada vez mais comuns no estado, destaca o médico hepatologista José Eymard Medeiros Filho, do ambulatorial do fígado do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW).

“Somente lá no HU tivemos três mortes deste tipo na última semana. A cirrose é a parte final de uma série de doenças comuns, relacionadas sobretudo ao alto consumo de álcool e ao fígado gorduroso”, disse o especialista em saúde do fígado.

De acordo com o hepatologista, a naturalização do consumo do álcool é um dos fatores que contribuem para o aumento das doenças hepáticas. “A gente tem uma cultura muito permissiva, começamos a beber muito cedo, entre 14 e 16 anos, muitas vezes estimulados pelos próprios familiares. Além disso, hoje em dia se bebe mais vezes por semana, muita gente já bebe a partir da quarta e quinta-feira”, disse José Eymard.

O último Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Doenças e Agravos não Transmissíveis, divulgado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), analisou o consumo de álcool em diversas capitais do país. Em João Pessoa, 32,4% das pessoas com 15 anos ou mais relataram ter consumido pelo menos uma dose de álcool nos últimos 30 dias.

Quantidade e tempo de consumo do álcool são os dois principais fatores que se levam em consideração para descobrir se a ingestão de bebidas é sadia ou não. O consumo é considerado alto quando passa de 60 gramas de álcool por dia. Uma lata de cerveja, uma dose de uísque, um copo de cachaça ou meia taça de vinho têm aproximadamente 20 gramas de álcool, logo 3 doses dessas por dia seria um número considerado alto.

“Quem toma três doses dessas por dia ao longo de dez anos tem risco potencial de desenvolver uma doença de fígado. É importante frisar que, se a pessoa não bebe durante a semana, mas no final de semana bebe, por exemplo, 22 doses de uísque, ele estará tomando o equivalente a 3,1 doses por dia. Esse paciente tem risco de desenvolver cirrose”, explicou o médico José Eymard Filho.

Importância do check-up

A ingestão de álcool é a principal causa da cirrose, mas problemas como gordura no fígado e uma série de outras disfunções podem ocasionar a doença. Muitas vezes negligenciado, o órgão nem sempre diz quando está com problemas, daí a importância de requerer check-ups, sobretudo quando se está inserido em grupos de risco, seja por histórico de doenças ou por consumo de álcool rotineiro.

“É importante pedir exames que analisem as taxas do fígado, porque nem sempre ele dá sinal, não demonstra ao paciente alteração até a fase avançada das doenças. O fígado segue silencioso, até a hora que começam os sangramentos e problemas visíveis”, disse o especialista.

Foi o caso do servidor público José Eduardo Araújo, de 41 anos. Ele teve cirrose hepática devido ao agravo da Hepatite C, adquirida por transfusão de sangue no nascimento. A doença só foi descoberta quando estava em estágio avançado.

“Sempre fui muito pálido e indisposto. Também tinha muito sangramento nasal, na gengiva, mas não sabia que era cirrose. A cirrose altera a coagulação do sangue. Um dia fui ao hospital por causa de um desses sangramentos. Fiquei internado e entrei em coma. Nos exames descobriram Hepatite C e cirrose. Eu já estava em estágio terminal”, lembra José Eduardo.

Em abril de 2015, no entanto, o servidor público conseguiu realizar o transplante de fígado no Recife, Pernambuco, seis meses depois de entrar na fila de espera da operação. Nunca ter ingerido álcool pode ter sido uma das razões do servidor ter vencido a doença. “Nunca bebi na vida. Eu não sabia da minha doença, mas se eu tivesse uma vida de consumo de álcool provavelmente eu estaria morto agora”, disse o servidor público.

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