terça, 19 de janeiro de 2021

Saúde
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Pessoas portadoras do vírus HIV se dividem entre o medo e a esperança na Paraíba

Alyf Santos especial para o Correio / 27 de fevereiro de 2017
Foto: Divulgação
O estigma, o preconceito e o estereótipo incidem com tamanha força na sociedade perante o cidadão que tenha uma doença retroviral. Essas atitudes fazem com que as pessoas portadoras do HIV vivam em um mundo isolado ou renunciem à própria vida. Muitos pacientes quando são diagnosticadas se tornam frágeis e pensar que a morte poderá ser sua companheira nas próximas horas. As defesas delas se tornam fracas quando não procuram o tratamento correto ou interrompem os medicamentos.

A peregrinação de Sandra (nome fictício escolhido pela reportagem) iniciou em 2002 quando descobriu que estava com a doença. Ela é mãe de cinco filhos e o exame que seria para verificar a diabete acabou revelando que ela tinha o vírus. “Eu fiz uns exames de sangue para saber se eu tinha diabetes, acabei descobri que tinha HIV. Mas, não deixei de viver por causa desse problema de saúde. Eu sou tão feliz que não importo com o que os outros falam, porque eu vivo minha vida tranquilamente”, disse, afirmando que os familiares são bases para essa felicidade. “Não posso parar de viver por causa da minha família. Preciso acompanhar o crescimento dos meus filhos e distribuir muito amor para eles”.

Ela via o esposo chegar com os medicamentos em casa e não desconfia que ele tivesse o vírus. Segundo ela, não tinha leitura para identificar os frascos. “Eu o via chegando com os remédios, não sabia ler e quando perguntava ele respondia umas coisas totalmente diferentes”, relatou.

Quem também conhece de perto essa luta é a Luciana (nome fictício) que há um ano convive com o vírus e até hoje não está sendo fácil encará-lo. “Quando eu descobri fiquei isolada, só fiquei tomando café e fumando cigarro. Pensei que o mundo estivesse acabado. E estava suportando aquele momento sozinha, não tinha coragem para dizer a ninguém”, comenta, acrescentando que a esperança em obter longos dias de vidas fez com que lutasse sem medo.

Emocionada, ela lembra como contraiu o vírus. “Acredito que o contágio foi por meio da relação sexual com o meu esposo. Ao falar para ele, logo me questionou se eu tinha o traído. Respondi que eu não sou mulher para isso. Mas, por ele ser caminhoneiro desconfiei que ele traísse a nossa relação. Hoje, não o tenho ao meu lado e não quero mais nenhuma relação sexual”, disse.

Uma das partes mais difíceis da doença, segundo ela, é a medicação. Mas, a soropositiva precisa seguir corretamente com os remédios e coquetel que são ingeridos toda semana.  “É meio difícil encarar o tratamento no inicio. Hoje, estou firme, pois eu quero viver muitos dias para cuidar dos meus três filhos que precisam da minha presença”, comenta, acrescentando que não vale apena renunciar à vida e nem desistir dos tratamentos.

Tratamento

As pessoas diagnosticadas com HIV buscam ajudas em dois pontos de apoio em João Pessoa. O Hospital Clementino Fraga é a referencia no tratamento de doenças virais na Paraíba. Além de atender os pacientes, a unidade hospitalar também orientar as pessoas para se prevenirem e evitar infecção. Além das ações ofertadas no hospital, elas também chegam ao interior do estado por meio de campanhas educativas.

Segundo a diretora técnica da unidade, Ana Paiva, os primeiros serviços do hospital são iniciados após comprovação total da doença. “Quando o paciente é detectado pelo teste rápido que é portador de HIV, ele é encaminhado para o médico infectologista que é solicitado o exame de carga viral, através desse exame o médico ver a necessidade do tratamento desse paciente”, disse, acrescentando que os números dos casos estão crescendo assustadoramente.

Há 18 anos a Casa de Convivência João Paulo II é um dos pontos, ele fica dentro das instalações do Hospital Padre Zé. Cerca de 150 pessoas recebem atendimentos psicológicos e outros que visam elevar a autoconfiança dos pacientes. À frente da coordenação da Casa de Convivência João Paulo II, Goretti Felismino conta que é um dos papéis da Casa é reconstruir os passos das pessoas que estão sendo ajudadas.

“Temos muitas pessoas que estão escondendo o vírus porque tem medo de enfrentar a sociedade, família e a se mesmo. O nosso trabalho é para elevar a autoestima dessas pessoas que vivem na escuridão. O objetivo é doar amor, o amor de Deus”, disse. A Casa recebe pessoas entre os 20 a 70 anos de idades e cerca de 65% dos frequentadores são homens.

Na Casa de Convivência, os soropositivos produzem obras de artes e fabricam medicamentos com plantas medicinais. “O ambiente da Casa de Convivência tem ajudado na minha recuperação e tenho certeza que também ajudará outras pessoas”, comenta uma usuária e portadora do HIV/AIDS.

Dados na Paraíba

Em 2016, a Paraíba registrou 649 novos casos de HIV e Aids, sendo 363 do primeiro e 438 do segundo. Já em 2015, foram 742 ocorrência das doenças. Os homens são os mais atingidos, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde.  Ainda segundo o órgão, o coquetel de medicamentos é fornecido tanto pelo Estado, quanto pelo Ministério da Saúde. Estima-se que quase 3700 recebam o tratamento, que estão espalhados em todo o Estado, em João Pessoa (CTA, SAE do HU Lauro Wanderley, Complexo Clementino Fraga.  Em Campina Grande (CTA, SAE municipal e HU Alcides Carneiro. Temos SAE (Santa Rita, Cabedelo e Patos. Além desses serviços, há duas unidades dispensadoras (UDM'S) de antirretrovirais em Sousa e Cajazeiras.

A cidade com maior número de casos de pessoas soropositivas é em João Pessoa, com 292 ocorrências, seguido de Campina Grande (43), Santa Rita (35), Patos e Cabedelo (27, cada).  Ao todo, 76 municípios da Paraíba registraram casos em 2016.

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