sábado, 23 de março de 2019
Saúde
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Paraíba possui apenas 608 leitos de UTI, marca considerada insuficiente

Bárbara Wanderley / 13 de setembro de 2018
Foto: Arquivo
A quantidade de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) na Paraíba, disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é insuficiente. É o que aponta pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). O estado possui 608 leitos de UTI, sendo 378 do SUS, uma razão de 0,94 leito para cada 10 mil habitantes. A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) aponta como proporção ideal um índice de 1 a 3 leitos de UTI para cada 10 mil habitantes.

Os 230 leitos da rede privada atendem apenas 10,41% da população do Estado, o equivalente a 419.264 beneficiários de planos privados de saúde. A razão é de 5,49 leitos para cada 10 mil usuários.

João Pessoa concentra 322 leitos de UTI, sendo 200 do SUS e 133 da rede privada. Pelo SUS, a proporção é de 4,02 leitos para cada 10 mil habitantes, quantidade que atende à recomendação da Amib.

O problema é que em muitos outros municípios sequer existe UTI, o que leva a remoção dos pacientes e consequente sobrecarga nas cidades que possuem unidades, conforme explicou o chefe de fiscalização do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), João Alberto Morais de Pessoa, que é médico intensivista. “Nós temos leitos no que eu chamo de ‘espinha dorsal’ da Paraíba: Cajazeiras, Patos, Sousa, Campina Grande e João Pessoa. Talvez em uma ou outra cidade próxima”, disse.

João Alberto argumentou que manter uma UTI é muito caro e muitos municípios não têm interesse ou mesmo verba para isso. “Só um respirador custa de R$ 40 a R$ 60 mil. Um monitor custa de R$ 8 a R$ 10 mil. Para compensar, é preciso ter no mínimo quatro leitos e no máximo dez, porque tem que ter uma equipe para cada dez leitos”, esclareceu. Ele afirmou ainda que não é qualquer profissional que pode trabalhar em UTI e a Paraíba tem poucos médicos especializados para serem intensivistas.

Distribuição é desigual

O estudo do CFM também chama a atenção para a distribuição geográfica dos leitos. Outro alerta do CFM é de que 44% dos leitos SUS e 56% dos leitos privados do Brasil se encontram apenas nas capitais. Se observada a repartição entre as Regiões Metropolitanas, constata-se que 68% dos leitos de UTI do SUS e 80% leitos da rede privada e suplementar estão concentrados nestas áreas.

Sem parâmetros. Em 2002, o Ministério da Saúde definiu em portaria (nº 1.101/2002) os parâmetros mínimos a serem considerados na distribuição de leitos pelo País para o bom atendimento da população. À época, a norma preconizava que deveria existir de 2,5 a 3 leitos hospitalares para cada grupo de 10 mil habitantes e que a oferta de leitos de UTI deveria ficar entre 4% e 10% do total de leitos hospitalares. A portaria foi revogada (portaria nº 1.631/2015), mas o parâmetro continua sendo referenciado pela Amib.

SUS só em 532 municípios

Os leitos de UTI em estabelecimentos públicos, conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS) ou particulares estão disponíveis em somente 532 dos 5.570 municípios brasileiros. Se considerada apenas a rede pública, apenas 466 destes municípios oferecem tratamento em Medicina Intensiva no País.

Segundo o levantamento do CFM, o País conta atualmente com 2,13 leitos de UTI (públicos e privados) para cada grupo de 10 mil habitantes. No SUS, no entanto, essa razão é de apenas 1,04 leito de UTI para cada grupo de 10 mil habitantes, enquanto a rede “não SUS” tem 4,84 leitos para cada 10 mil beneficiários de planos de saúde – quase cinco vezes a oferta da rede pública.

De acordo com o CFM, os números revelam um cenário que aflige milhares de médicos diariamente: hospitais com alas vermelhas superlotadas, com pacientes à espera de infraestrutura apropriada.

Segundo o 1º secretário e coordenador da Câmara Técnica de Medicina Intensiva do CFM, Hermann von Tiesenhausen, as mudanças epidemiológicas dos últimos anos demandam o empenho dos gestores púbicos. “A infraestrutura de saúde do País precisa acompanhar, na velocidade e em proporção, as necessidades da população. Só as internações pelas chamadas causas externas – acidentes e violências – aumentaram cerca de 25% nos últimos oito anos, sendo que os acidentes de trânsito aumentaram 30% neste mesmo período”, destacou.

Idosos: maioria dos usuários

Estudos estimam que 60% dos leitos de UTI são ocupados por pacientes acima de 65 anos de idade e que o tempo médio de permanência desse grupo é sete vezes maior que o da população mais jovem. Desde 2010, o número de idosos a partir desta faixa etária saltou quase 40%, passando de 13,3 milhões naquele ano para 18,4 milhões em 2018.

Além do maior risco envolvendo a população idosa, o conselheiro lembra que estudos epidemiológicos coordenados pelo Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS) apontam que cerca de 30% dos leitos das unidades de terapia intensiva no País são ocupados por pacientes com sepse.

“Conhecida como infecção generalizada ou septicemia, a doença leva milhares de brasileiros à internação todos os anos. Ora, estamos falando de uma única doença, que nos últimos oito anos aumentou em 52% o número internações”, criticou. Para ele, a complexidade envolvida no tratamento intensivo exige planejamento, investimento e capacitação de equipes, a fim de preservar a qualidade e a segurança nos cuidados necessários.

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