quarta, 12 de maio de 2021

Saúde
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Paraíba perde mais de 1,2 mil leitos de internação

Lucilene Meireles / 14 de julho de 2018
Foto: Arquivo
A cada dia, cerca de 12 leitos de internação – aqueles destinados a quem precisa permanecer num hospital por mais de 24 horas – deixam de atender pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Só nos últimos dois anos, mais de oito mil unidades desta natureza foram desativadas, segundo informações do Conselho Federal de Medicina (CFM) junto ao Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde. Na Paraíba, se comparados os dados de 2010 com 2018, são 1.286 leitos a menos para internação pelo SUS.

“Se formos pegar as declarações dos ministros da saúde, políticos, vão dizer o contrário, mas na prática o que estamos assistindo é um verdadeiro desmonte do SUS. A população que precisa, geralmente não tem os holofotes sobre si e não tem a quem reclamar. A imprensa cumpre esse papel”, declarou o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina na Paraíba (CRM-PB), Roberto Magliano.

Ele afirmou que o CRM-PB lamenta essa postura do SUS e do governo federal para com a saúde. “Comparando com outros países até mais pobres, o percentual de investimento no Brasil é muito menor. A consequência disso é que a população acaba ficando desassistida. É muito comum observar, na frente dos hospitais, fila, superlotação, e isso mostra a falta de cuidado, preocupação, investimento na saúde da população”, constatou.

Um ponto observado pelo médico é o comportamento dos gestores em período eleitoral. “Na época da política, vemos que alguns mostram propagandas de que estão investindo, mas no final das contas, quando olhamos números objetivos, vemos realmente qual é o compromisso que têm com a política de saúde”.

Nos últimos oito anos, conforme Magliano, os recursos estão desaparecendo aos poucos. “Se a gente for observar o que vem acontecendo nesse período, percebemos que, lentamente, o governo vem tirando investimento da área da saúde e deixando que a privada atenda. Diminui o percentual público. É uma política perversa, porque o Brasil é um país de desigualdade”, lamentou.

Na opinião do vice-presidente do CRM-PB, as pessoas que têm condições financeiras boas têm acesso facilitado, mas a população que, de fato, precisa de um serviço público eficiente, não. “A política de retirar do SUS e privilegiar o privado é desfavorável a uma assistência de saúde séria. A população deve estar alerta e cobrar das autoridades. O profissional de saúde, muitas vezes, é responsabilizado por uma violência institucional na área da saúde”, destacou.

Hospitais fechados

A Paraíba perdeu hospitais nos últimos anos, entre eles, o São Domingos, em Bayeux, Santa Paula, em João Pessoa, a Maternidade de Guarabira. Eles foram descredenciados e, com isso, o Estado também teve o número de leitos reduzido. Só em pediatria, mais de 300 leitos desapareceram nos últimos seis anos, não só por hospitais que fecharam, mas porque não foi ampliada a quantidade de leitos. Dos que fecharam, o mais recente foi o hospital Rodrigues de Aguiar, na Capital. A situação, inclusive, foi constatada em uma pesquisa do Conselho Regional de Medicina na Paraíba (CRM-PB).

“Nós fizemos um levantamento e verificamos uma redução exacerbada de leitos. Eu acho que está havendo uma falta de interesse dos gestores em fazer saúde no Estado, seja nas prefeituras ou o governo estadual. Hoje não temos, em João Pessoa, um hospital que faça cirurgias eletivas pelo SUS e há uma fila enorme. Há cerca de três anos, só para cirurgia de vesícula, havia 300 pessoas esperando”, relatou o diretor de Fiscalização do CRM-PB, João Alberto Morais Pessoa.

Ele não sabe se esse número aumentou ou diminuiu, mas afirmou que a fila existe e os pacientes pagam caro enquanto esperam, alguns até com a vida. “Hoje, no lugar de hospitais, constroem UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) que não têm internação e o custo é menor”, observou. Embora sem acesso aos valores repassados pelo Governo Federal, ele disse que os investimentos em saúde estão muito ruins.

Com o fechamento de hospitais e falhas no investimento dos recursos, a tendência é que a população tenha ainda mais dificuldade no acesso à saúde, de acordo com João Alberto. “Quem depende do SUS, vai passar por muito sofrimento e pode morrer no meio de caminho. O maior bem que temos é a saúde. Se não temos, como fica? Qual a resolutividade de um PSF? Poucos exames feitos, espera de oito meses para uma cirurgia de vesícula eletiva. Quando tem emergência, vai para o Trauma pela falta de hospitais, mas não é a especialidade de lá”, constatou.

Hospital Metropolitano. É o único recentemente construído e realiza as cirurgias de alta complexidade, como as cardíacas e as neurocirurgias. Porém, no que se refere ao atendimento geral, não é a referência, deixando a população carente. Na verdade, conforme João Alberto, diretor de Fiscalização do CRM-PB, muitos planos que deveriam estar sendo colocados em execução, não funcionam por questões de cunho político.

“O plano real do cartão SUS é sensacional, mas se dependesse dos municípios iria falir. Os municípios vivem às custas de encaminhamento de paciente, sem tentar solucionar nos seus municípios por questão dos custos. Muitos trabalham só com enfermagem. Acho que falta prioridade. Pensam mais em roubar do que investir em saúde pública e saúde da população”, lamentou.

Quem está à frente dos recursos, conforme o diretor, tem a responsabilidade de investir bem. “Às vezes, os secretários não têm condições de fazer nada, porque muitas vezes o recurso não vai direto para a secretaria. Fica com o gestor maior, prefeito e governador, e isso dificulta as aplicações. Mas, espero que o SUS não se acabe, porque se isso acontecer vai morrer muita gente. Apesar de tudo, o SUS é o único que pode atender um pouco os menos favorecidos”, completou.

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