domingo, 19 de maio de 2019
Saúde
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Paraíba disponibiliza atendimento médico para população trans

Beto Pessoa / 17 de maio de 2019
Foto: Nalva Figueiredo
O acesso à saúde pública de qualidade nem sempre é fácil no Brasil. Para a população trans, que além de tudo precisa lidar com preconceitos históricos, a dificuldade é ainda maior. Um equipamento público há seis anos tem tentando reverter este cenário: o Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (TT), anexo do Complexo Hospitalar Clementino Fraga, na Capital, único no Estado a realizar a hormonoterapia (processo transexualizador).

Hoje são 559 pessoas atendidas no espaço. Quando foi criado, em 2013, eram 12. Para o gerente do espaço, Sérgio Araújo, este é um equipamento que garante cidadania à população trans. “É uma mudança de 100% na vida dessas pessoas. São 559 pessoas que estavam vulneráveis na questão da saúde e hoje têm a segurança de realizar tratamento. Temos uma equipe multidisciplinar com psiquiatra, endócrino, ginecologista, psicólogos, profissionais que garantem a saúde física e mental dessas pessoas”.

Natasha Maysa, 40 anos, iniciou a hormonoterapia em 2013. Ela diz que o acesso ao serviço tem sido importante para a sua saúde física e mental. “Quando busquei o ambulatório para fazer o processo não sabia como seria, foi tudo muito novo. Porque vivia na base do ‘achismo’. Quando fui, fiz todos os parâmetros, fiz toda bateria de exames, o endocrinologista viu o que seria melhor para mim, onde estavam minhas limitações e até hoje nunca tive nenhum tipo de problema”.

O acesso ao procedimento pelo Sistema Único de saúde (SUS), segundo a cabeleireira, é um importante passo para diminuir as desigualdades ainda comuns no País.

“Pelo SUS fica mais fácil. Tem muitas mulheres e homens trans que não têm emprego, colocação profissional, e fica mais difícil. Infelizmente, vivemos num País onde a aparência influi e existe muito preconceito e desigualdade social com nossa classe. Graças a Deus o SUS facilitou a acessibilidade de quem vive no interior e quem não tem condições. É um tratamento que, não tendo no SUS, seria só para quem tem condições. É uma forma de diminuir a desigualdade. Dão importância e atenção para a nossa cidadania”, disse.

Em 19 novembro de 2013 foi publicada a Portaria nº 2.803 que redefiniu e ampliou o Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde, até então realizado apenas em hospitais universitários. O Ministério da Saúde (MS) afirma que o objetivo foi atender as pessoas que sofrem com a incompatibilidade de gênero, quando não há reconhecimento do próprio corpo em relação à identidade de gênero (masculino ou feminino), gerando um intenso sofrimento ao não se reconhecerem no corpo biológico. Esta situação leva a diversos distúrbios de ordem psicológica acompanhados de tendências à automutilação e ao suicídio.

Explicações no 1º contato



Na Paraíba, a porta de entrada para o serviço é o Centro Estadual de Referência dos Direitos de LGBT e Enfrentamento a Homofobia na Paraíba (Espaço LGBT), em João Pessoa, e Centro Estadual de Referência dos Direitos de LGBT e Enfrentamento à LGBTfobia (Espaço LGBT Luciano Bezerra), em Campina Grande. De lá saem os encaminhamentos para o Ambulatório TT, onde os usuários têm, a princípio, uma roda de conversa com os profissionais do local. Neste primeiro contato, eles explicam no que consiste a hormonoterapia.

Aos que desejam de fato iniciar o tratamento, é aberto um prontuário, onde são marcadas as consultas com psiquiatra e endocrinologista. Após consultas, os usuários recebem o receituário e começam a hormonização. Os medicamentos ainda não são ofertados pelo ambulatório, cabendo aos pacientes a aquisição. Mas todo o acompanhamento e administração do fármaco é realizado no Ambulatório TT, diminuindo os riscos. “Eles continuam frequentando o Ambulatório, porque a hormonoterapia é vitalícia. Aqui eles têm psicólogo e médicos que acompam todo o processo, dando mais segurança. Muita gente não busca ajuda médica, toma os medicamentos por conta própria e corre vários riscos, podendo ter trombo e ataque cardíaco, por exemplo”, disse Sérgio Araújo, gerente do Ambulatório.

Saiba mais. Sobre a hormonoterapia:

-A implementação do Processo Transexualizador no SUS, que regulamenta os procedimentos para a readequação sexual, se insere no contexto da Política Nacional de Saúde Integral LGBT.

-Na Paraíba ainda não há hospital habilitado para realizar as cirurgias de redesignação sexual. Transexuais que buscam o procedimento precisam passar no mínimo dois anos de hormonização e entrar numa lista de espera em Estados onde o procedimento já é realizado gratuitamente, a exemplo de Pernambuco, São Paulo e Paraná.

-O Ambulatório TT foi habilitado pelo Ministério da Saúde em 2018. Agora, estão buscando o credenciamento para habilitar o setor farmacológico, quando poderá se fazer a padronização dos hormônios e oferta gratuita aos usuários.

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