segunda, 23 de novembro de 2020

Saúde
Compartilhar:

Obesidade não é preguiça, é doença

Rammom Monte / 19 de setembro de 2016
Foto: Divulgação
Uma doença que atinge mais da metade dos brasileiros e que pode trazer inúmeros outros problemas de saúde relacionados a ela. Além disto, é considerada um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. A projeção é que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos já estejam acometidos a este problema. Pode não parecer, mas estamos falando da obesidade. Só no Nordeste, mais de 44% dos adultos estão acima do peso. Mas, como toda doença, há tratamento, seja através de mudança de hábito aliado aos exercícios físicos, passando pelos remédios, até a cirurgia bariátrica.

O estudante Iann Nóbrega, de 21 anos, é um dos que compunham estes dados. Com 1,82m, Iann chegou a pesar 154 kg, tendo 25% de percentual de gordura. Porém, hoje a história é diferente. Com uma mudança de hábitos e prática de exercícios físicos, ele atualmente pesa 95kg e tem 14% de gordura em seu corpo. Ele explica que não foi fácil. Ao todo, foram 2 anos e seis meses até chegar à situação atual.

“Mudei drasticamente minha alimentação, saí da minha vida sedentária. Uma vez que comecei a praticar exercícios físicos diariamente e comecei uma dieta, sempre acompanhado de um profissional. Não passei por nenhuma situação embaraçosa nem humilhante, simplesmente um dia parei e me olhei no espelho e senti um incômodo, uma vontade de mudar e assim o fiz no outro dia comecei a fazer atividades”, explicou Iann, que teve que fazer uma cirurgia para retirar o excesso de pele.

fotos-juntas - obesidadeMas não foi só a parte estética que mudou. E é exatamente neste ponto que mora o tabu. Muitas pessoas não veem a obesidade como uma doença. De acordo com dados de pesquisa do ConscienHealthnos EUA, somente 27% dos adultos concordam que, se uma pessoa tem obesidade, não é necessariamente culpa dela. Ou seja, mais de 70% atribuem o sobrepeso como culpa das pessoas que estão nesta situação. Com a perda de peso, Iann diminuiu alguns problemas que já estavam surgindo, mesmo sendo jovem.

“Quanto à autoestima, era bem para cima, porque apesar do excesso de peso, não ligava com a opinião alheia e nunca me incomodava com a situação. Quanto à saúde, eu tinha colesterol e glicose acima do normal, o que mais preocupa minha mãe. Além de cansaço e indisposição”, disse.

Apesar de Iann ter conseguido perder todo este peso (foram 59 quilos ao todo), nem sempre é assim. A obesidade não está ligada só a hábitos alimentares ruins e o sedentarismo. E um grande desafio é manter a perda de peso, como explica a Gerente Médica de Obesidade da Novo Nordisk Brasil, a endocrinologista Dra. Rocio Della Coletta,

“É super importante perder peso, por uma questão de saúde, mas a manutenção da perda de peso ela também deve ser acompanhada, também faz parte do tratamento o acompanhamento da perda de peso, se não, você volta a ganhar. Eu acho que o importante é pensar na obesidade como doença. Aumentar a consciência das pessoas. É um tratamento contínuo”, explicou.

E esta é uma das preocupações de Iann: não recuperar o peso perdido.

“Eu não diria medo (de retomar o peso), pois minha consciência não deixa eu chegar nem perto de voltar àquele peso, mas é importante sim se cuidar diariamente e como consequência disso acabo me afastando da obesidade. Minha vida hoje é voltada a pratica de exercício físico.Eu gosto de cuidar do meu corpo, logo, tenho um estilo de vida mais saudável e não faço por obrigação, mas sim com muito gosto, me sinto muito melhor que antes, larguei a vida sedentária e as besteiras que comia e me sinto muito bem fazendo meus exercícios diários”, disse.

A difícil tarefa de perder peso

Como dito acima, não é tão fácil perder peso como possa parecer. Algumas pessoas, por mais que mudem seus hábitos e passem a praticar exercício, não conseguem chegar ao objetivo traçado. E é aí que entram outros tipos de tratamento, como a cirurgia bariátrica e os remédios, este último mais desconhecido por boa parte da população.

O chefe do grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e consultor científico e speaker da empresa Novo Nordisk, Dr. Márcio C. Mancini, explica que há um grupo de pessoas que, por motivos diversos, como hormonais, por exemplo, não conseguem perder peso apenas com a mudança de hábitos. E, muitas vezes, algumas dessas pessoas não se enquadram no grupo que está apto para fazer a cirurgia bariátrica. E é aí que entram os remédios.

Segundo ele, o tratamento da obesidade através de remédios é indicado em quatro situações:

- Quando houver falha do tratamento com mudança do estilo de vida (dieta e exercícios);

- Em pacientes com IMC ≥30 kg/m²;

- Em pacientes com IMC ≥ 25 kg/m² associado a outros fatores de risco, como hipertensão arterial, diabetes, colesterol ou triglicerídeos alterados, apneia do sono, osteoartrose, gota, e outras doenças;

- Em pacientes com circunferência abdominal maior ou igual a 94 cm (homens) e 80 cm (mulheres) ou com relação cintura/estatura >0,5 (valor da cintura maior do que a metade da altura).

Na última semana, houve o lançamento de mais um novo medicamento para este tipo de tratamento, trata-se do Saxenda™ (liraglutida 3 mg). O medicamento foi aprovado pela Anvisa para controle de peso em adultos em complemento a uma dieta com redução calórica e aumento da atividade física. Saxenda™ é o primeiro análogo do hormônio natural GLP-1 aprovado para o tratamento da obesidade no Brasil.

Porém, o Dr. Márcio Mancini faz um alerta, apesar de ser um importante auxiliar no combate à obesidade, ele afirma que a doença não tem cura e que, por conta disto, “o tratamento farmacológico da obesidade não cura a obesidade.” Ou seja, é algo que tem que ser combatido a todo tempo.

cidades-obesidades-2-e-3Obesidade tem que ser tratada como uma doença e combatida desde a infância

A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) diz que “Indivíduos obesos devem ter seguimento de longo prazo e controle crônico do peso, pois a obesidade é uma doença crônica que tende a recorrer após a perda de peso...”. E é este o desafio principal, conscientizar a população que a obesidade é uma doença e que precisa ser tratada como tal.

E como doença, ela pode ser prevenida. E essa prevenção pode começar desde a infância. O Dr. Márcio diz que há inúmeras formas de prevenção.

“A gente sempre fica muito focado em alimentação. E prevenção envolve, voltar a educação física na escola, nos primeiros anos da educação. Envolve a educação nutricional para a criança. Envolve os pais saberem que duas horas de tela é o máximo para as crianças, envolve ter parques disponíveis para a população, iluminação urbana, calçada boa para caminhar, menos violência, todo esse ambiente urbano melhor, incluindo transporte público, ajuda a diminuir a obesidade. Educar as crianças e os pais é fundamental”, explicou.

cidades-obesidadesA Endocrinologista do grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do HCFMUSP e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, a Dra. Cintia Cercato, complementa o que falou o Dr. Márcio e explica que um fator que contribui muito para o grande número de crianças obesas são o tempo que elas ficam expostas a telas.

“Mudou o padrão das crianças nos primeiros anos de vida. Temos um percentual grande de criança com menos de dois anos de idade com altíssimo consumo de macarrão instantâneo. As pessoas não sabem que ele tem todo aquele sódio e gordura. Ou então a criança exposta a doces, antes dos dois anos de idade. É importante evitar os alimentos ultra processados.  Muitas coisas mudaram, não é a questão que a gente só está comendo fora, não está se exercitando, acho que tempo de tela é uma coisa espantosa. O indicado é menos de duas horas por dia e a média no nosso ambulatório é de 5 horas no ambulatório obesidade infantil do Hospital das Clínicas. A gente faz um levantamento, a gente tem cinco horas de média de tempo de tela por dia nas crianças obesas no nosso ambulatório, o que não deveria ser mais de duas horas. Quando a gente fala de tempo de tela, a gente fala de smartphones, hoje em dia você vê a criancinha com telefone, tablet, computador”, alertou e completou.

“A media de obesidade infantil é assustadora. Nos últimos anos, cresceu 300% a obesidade na infância. Se a gente está vendo crianças tão obesas, a gente vai ver adultos obesos. Daí a importância de se falar sobre o assunto”.

Obesidade não é só o que você vê

Os especialistas alertam ainda que nem só aquela pessoa que está visivelmente acima do peso é que poder ter problemas de obesidade. De acordo com a Dra. Cinthia uma pessoas “visivelmente magra” pode ter problemas de obesidade.

“Hoje em dia, a gente sabe que as complicações relacionadas ao sobrepeso estão muito relacionadas com a quantidade de gordura que a gente chama de gordura visceral, a gordura que está em volta das vísceras ou até o depósito da gordura em outros órgãos, como o fígado. A gente tem hoje em dia até algumas classificações. A gente tem o magro metabolicamente obeso, que são pessoas que tem o IMC dentro do valor normal e tem essa adiposopatia, esse tecido adiposo disfuncional, o depósito no fígado, o aumento da gordura visceral, apesar de magro, tem barriga, mas tem o IMC normal. Assim como temos o outro extremo, o paciente que tem obesidade grau 3, severa, e que do ponto de vista metabólico é completamente normal. Glicemia normal, colesterol normal, e que são pessoas que, apesar de estarem obesas, elas tem pouca quantidade de gordura visceral, a obesidade também é uma doença heterogênea, só o IMC, só aquilo que você vê não é suficiente para te dar a noção da saúde daquele indivíduo, muito mais importante até do que o grau de excesso de peso, o mais importante é como esse excesso de peso está distribuído”, explicou.

O Dr. Márcio complementou e afirmou que a melhor forma de se verificar se uma pessoa está acima do peso ou não, é através da relação cintura/altura.

“Aquele obeso não vai ter complicação metabólica, mas vai ter mecânica, como por exemplo artrose de joelho, de coluna, pode ter doenças psicológicas por conta da obesidade. E é por isto que a gente colocou aquela relação cintura/estatura como a melhor forma. Uma mulher de 1,60m deve ter uma cintura de no máximo 80. Um homem de 1,80m uma cintura de no máximo 90. Porque isto acaba ajustando o tamanho da cintura. É melhor este índice do que estabelecer um ponto de corte único para qualquer pessoa”, explicou.

Já a Dra. Roccio alertou para o fato de se combater a obesidade a todo tempo.

“Ao mesmo tempo que o diabetes é progressivo, a obesidade também pode ser. Hoje pode está completamente bem e com o tempo começar a aparecer os problemas . Uma doença crônica que traz outras. Então a gente está prevenindo muitas outras doenças e uma coisa que eu sempre falo, para que esperar ficar diabético, por que não cuidar antes? A mesma coisa com o sobrepeso, não existe o pré-obeso, existe a pessoa com a condição e pré-disposição”, afirmou.

cidades-obesidades-2-e-32Campanha contra a obesidade

Em meio aos alarmantes números divulgados, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) lançou a campanha “Obesidade é o que você não vê - #saúdenãosepesa”, que contou com a atualização das Diretrizes Brasileiras de Obesidades. A campanha foi lançada no site WWW.saudenaosepesa.com.br, onde o internauta pode conferir várias informações sobre a obesidade, perda de peso, além de número e estatísticas.

Não espere a doença se agravar

Com a perda do peso e com a saúde em dia, a mensagem que Iann quer passar não é só que ele conseguiu, mas que todos podem conseguir, seja de uma maneira ou outra. O importante é tratar a obesidade como uma doença e se cuidar.

“Só tenho a dizer a essas pessoas que se eu consegui eles também conseguem , que nunca desistam nem deixem ninguém os desmotivar, é muito importante que a iniciativa de mudar seja por vontade própria e não para agradar alguém a não ser você mesmo. Garanto que no momento que você se sentir à vontade para começar a mudar vai perseverar e conseguir atingir seus objetivos”,finalizou.

Relacionadas