segunda, 18 de janeiro de 2021

Saúde
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O poder de viver ‘à espera de um milagre’

Mislene Santos / 06 de junho de 2016
Foto: Mislene Santos
“Já pensei em tirar minha própria vida para acabar com esse sofrimento”. O desabafo é da professora Keyla Teixeira da Silva de 43 anos. Há três anos, ela recebeu um encaminhamento para fazer uma cirurgia bariátrica com urgência, pois segundo o laudo médico, seu caso era gravíssimo e ela poderia morrer a qualquer momento. No entanto, foi barrada pela burocracia. “Fui em todos os lugares que precisava para entrar na fila da cirurgia, mas a dificuldade foi tão grande que perdi as forças e a esperança”, lembrou.

Recentemente, ela recebeu um novo encaminhamento do endocrinologista com quem faz acompanhamento, mas foi informada que para dar entrada no programa para fazer a cirurgia bariátrica precisa perder dez quilos. “Até agora consegui perder três, porque tomo muito remédio à base de corticóide e o médico disse que não tem como tirar estes medicamentos e nem passar um para me ajudar a emagrecer. Mais de três anos se passaram e só consegui perder três quilos. Eu quero ajuda, é só o que peço”, desabafou Keyla Teixeira.

Com a saúde frágil, a professora já deu várias entradas nos hospitais de João Pessoa. “Cada vez que chego à urgência tenho a sensação de que não vou voltar e só imagino como será a vida do meu filho, porque ele só tem a mim”, disse Keyla com lágrimas nos olhos.

Samuel Teixeira da Silva de 22 anos é o único filho da professora. Ele foi adotado quando tinha quatro meses e teme pela vida da mãe.  “Ela é tudo que eu tenho. Eu fico muito triste em ver minha mãe nesta situação, em saber que essa cirurgia pode salvar a vida dela e nada é feito. Parece que estão esperando ela morrer para fazerem alguma coisa. Ela precisa de ajuda agora, depois pode ser tarde”, declarou o jovem.

Vida por um fio

Estar com a vida por um fio. Esta é a sensação diária de Keyla Teixeira. Todos os dias ao acordar, ela faz uma oração e agradece a Deus por ter lhe concedido mais um dia de vida, pois afirma que ao dormir não sabe se acordará devido aos inúmeros problemas de saúde que enfrenta e, por isso, vive cada dia como se fosse o último.

Vários deles foram provocados ou agravados pela obesidade, que atualmente está no grau quatro. Keyla tem 128 quilos, se locomove com dificuldades, tem diabetes, é hipertensa, está com gordura de grau três no fígado, tem problemas cardíacos e mal consegue dormir devido à apneia do sono grave. “Eu tenho muito medo de dormir e não acordar mais, porque se eu passar mal durante a madrugada as pessoas terão dificuldade para me socorrer, por conta do meu peso”, desabafou a professora.

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Atualmente, Keyla Teixeira toma mais de dez remédios por dia para controlar a diabetes, pressão, a gordura no fígado e para o coração. Como se não bastasse tantos problemas de saúde, recentemente surgiram problemas nos rins e em seu corpo apareceram várias feridas nas dobras da região abaixo do pescoço, braços, seios, pernas e partes intimas. “Meu pescoço rasgou de um lado ao outro, chegou a sangrar e a dermatologista disse que é por conta da diabetes e do stress que enfrento devido aos problemas de saúde que tenho”, explicou a professora.

Até os 15 anos a professora não apresentava nenhum problema de sobrepeso e de saúde, mas após passar por uma cirurgia para retirada de cistos nos ovários começou a engordar e não conseguiu controlar o peso. “Fiz de tudo para tentar emagrecer, mas nada serviu. Aí chegou o diabetes, a pressão alta, problemas na visão, no fígado, rins e essas coisas só foram piorando ao longo do tempo”, lamentou Keyla.

Depressão e dor

Além dos problemas físicos, Keyla Teixeira desenvolveu uma depressão profunda e precisa tomar vários medicamentos três vezes ao dia.  Durante a entrevista ao Correio Online, ela chegou a dizer que estava dopada de tanta medicação que tinha ingerido no início do dia. “É tanta dor que sinto que estou dopada e assim são todos os meus dias. Às vezes chego a me perguntar que vida é esta e se vale a pena continuar”, desabafou a professora. E continuou. “A pior de todas é a dor que a gente sente na alma de estar em uma situação como esta e não poder fazer nada”, lamentou.

O conjunto de doenças fez com que a professora fosse afastada das suas atividades normais. Ela não consegue ficar muito tempo em pé devido ao peso, a artrite e artrose. Por conta de tudo isso, a falta de esperança predomina em sua vida. “Se eu disser que tenho esperança em conseguir essa cirurgia estaria mentindo, porque cada dia que passa aparece uma coisa diferente e fica mais difícil a minha vida”, disse Keyla Teixeira.

Fila da morte

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“Na Paraíba não existe fila para cirurgia, porque as pessoas não têm esperança, existe fila para morte, pois as cirurgias andam a passos de tartaruga amarrada”. A declaração é do médico Cirurgião do Aparelho Digestivo, Augusto Almeida Júnior. Segundo ele, em 2015 apenas 13 cirurgias foram realizadas no Estado, enquanto que no Rio Grande no Norte, são realizados de três a quatro procedimentos por semana.

Para o cirurgião, há falta vontade política e administrativa de mudar a realidade em relação à cirurgia bariátrica na Paraíba. Ele disse ainda que no Estado existe uma equipe multidisciplinar disponível para realizar as cirurgias pelo SUS e sem gerar custos para a Saúde, pois os profissionais são funcionários efetivos do Estado e, segundo ele, há hospitais com a estrutura suficiente para realização das cirurgias .

“Uma vez perguntei ao diretor de hospital público em João Pessoa, porque não implantava o serviço lá. Para minha surpresa, a resposta foi porque ele não tinha interesse. Então, eu disse que ele podia não ter interesse, mas a Paraíba inteira e as famílias de várias pessoas que sofrem com a obesidade e com as consequências dela tinham”, lembrou o médico Augusto Almeida Júnior que se disse decepcionado com a realidade da Paraíba em relação às cirurgias bariátricas.

De acordo com o cirurgião, a rede privada de saúde realiza uma média de 25 cirurgias por mês. “Eu fico muito triste em saber que milhares de pessoas precisam se submeter a este procedimento e não conseguem por puro descaso de quem tem o poder de resolver a situação”, declarou Augusto Almeida.  Ele disse ainda que há 13 anos vem tentando implantar o serviço nos hospitais de João Pessoa, mas não tem conseguido apoio por parte dos órgão competentes.

Estado e município não realizam o procedimento

Assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde do Estado informou que a cirurgia bariátrica, na Paraíba, é realizada exclusivamente no Hospital Universitário Lauro Wanderley (HU), que é a unidade pactuada com os municípios para a realização do procedimento. Ou seja, os pacientes são encaminhados pelos municípios, por meio da Regulação, diretamente para HU.

A Diretoria de Regulação da Secretaria de Saúde de João Pessoa informou que chegou a realizar cirurgias bariátricas no Hospital Santa Isabel com recursos próprios, por não ser credenciado pelo SUS, mas interrompeu o serviço devido aos altos custos. Atualmente, aguarda o resultado do pedido de credenciamento por parte do Ministério da Saúde.

Segundo a Diretoria de Regulação, a indicação cirúrgica deverá ser construída a partir da atenção básica de saúde percorrendo todos os níveis de complexidade, pois paciente portador de obesidade grave necessita não somente do acompanhamento médico especializado e multiprofissional, como também da intervenção da atenção básica, por meio das estratégias de saúde da família e de ações de prevenção de agravos e promoção de hábitos saudáveis permanentes.

Na contra mão

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Na Paraíba, o Hospital Universitário Lauro Wanderley é o serviço que possui habilitação como Unidade de Assistência de Alta Complexidade ao portador de obesidade grave desde 2010. Enquanto os números de cirurgia no Brasil só aumentam na Paraíba o serviço está estagnado, segundo informações do Ministério da Saúde.

De acordo com o Ministério da Saúde, entre os anos 2010 e 2015 o número de cirurgias bariátricas realizadas pelo SUS no País passou de 4.900 para 7.316, o que representa um aumento de 49,31%. Até março desde ano, foram 1.826 intervenções cirúrgicas, o que equivale a uma média de 608 por mês.

Na Paraíba, o serviço parece andar na contra mão do País e em cinco anos, apenas 122 cirurgias bariátricas foram realizadas pelo SUS, uma média de 10 por ano e menos de uma por mês. De janeiro a março desde ano, foram realizadas quatro procedimentos.

Em 2015, foram realizados 487 cirurgias bariátricas nos nove estados da Região Nordeste. O valor desses procedimentos foi R$ 2,8 milhões.

“É importante esclarecer que as secretarias estaduais e municipais de Saúde são responsáveis por organizar o serviço nos hospitais e solicitarem habilitação junto ao Ministério da Saúde. Dessa forma, cabe aos gestores locais monitorar os pacientes que – por indicação médica – serão submetidos às intervenções operatórias”, afirmou o Ministério da Saúde através de sua assessoria de imprensa.

Demanda reprimida na PB

O cirurgião chefe do HU e responsável pelas cirurgias bariátricas na unidade hospitalar, Luís Antônio Fonseca, reconhece que há uma demanda reprimida que não tem como o hospital atender. Agora, comparado com outros Estados "aqui é o céu”, afirmou.  Segundo ele, há pesquisas que apontam João Pessoa como a 12ª capital com mais obesos do País, mas que não há perspectiva do serviço aumentar o número de atendimentos.

“A tendência é de as coisas piorarem, porque nós temos um Sistema Único de Saúde falido e isso não acontece só na Paraíba, mas em todo Brasil e quem sofre com isso é a população”, afirmou Luís Antônio. Segundo ele, as pessoas não conseguem ter acesso sequer ao atendimento básico que seria a porta de acesso para o encaminhamento para a cirurgia.

Segundo o cirurgião, o ideal seria que, no mínimo, fossem realizados dois procedimentos por semana. “Mas como marcar duas cirurgias se tem dia que falta o material básico, como anestesia para fazer uma?”, indagou o médico.  Ele disse ainda que cerca de 200 pessoas estão fazendo o acompanhamento pré-operatório no HU.

“Um único profissional, que sou eu, jamais conseguiria atender todos os pacientes do Estado. O serviço do HU está no limite, pois não adianta implantar o serviço tem que dar condições para ele funcionar”, ressaltou Luís Antônio que só atende as sextas-feiras no Hospital Universitário.

Para cada cirurgia o SUS paga R$ 6,2 mil para bancar todo o serviço como anestesia, vaga na UTI, alimentação do paciente e do acompanhante. “Isso não paga os custos de forma alguma”, afirmou Luís Antônio.

Quem pode fazer a cirurgia

O Ministério da Saúde oferece, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), cobertura para cirurgias bariátricas e reparadoras aos cidadãos maiores de 16 anos, diagnosticados com obesidade grave, inclusive àqueles que reduziram peso voluntariamente. A pasta esclarece que os procedimentos cirúrgicos são o último recurso para esses casos, permitidos apenas para pacientes que passaram por avaliação clínica e acompanhamento com equipe multidisciplinar, por pelo menos dois anos.

A realização das cirurgias depende de avaliações da equipe médica, que incluem dieta e recomendações clínicas para redução do peso sem a intervenção cirúrgica, assim como exames preparatórios e orientações nutricional e psicológica. Vale reforçar que a cirurgia – bariátrica ou reparadora – não poderá ser realizada se os resultados obtidos na preparação não forem positivos.

76 mil obesos na Paraíba

A estimativa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) é que na Paraíba 76 mil pessoas têm obesidade mórbida, o que representa cerca de 2% da população. Porém, o Hospital Universitário, único credenciado pelo Sistema Único de Saúde para realizar a cirurgia Bariátrica no Estado não consegue atender a demanda como deveria.

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Josemberg Campos, explicou ao Correio Online que a cirurgia bariátrica é comprovadamente a maneira mais segura e eficaz para tratar casos de obesidade severa, bem como as doenças associadas que acompanham esse quadro.

Segundo ele, assim como a obesidade o volume de procedimentos vem crescendo a cada ano em todo o mundo. De acordo com Josemberg Campos, a resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que aumentou o rol de comorbidades para indicação da Cirurgia Bariátrica foi extremamente importante para quem necessita se submeter ao procedimento.

“Com a melhor definição das doenças associadas uma parcela considerável de pacientes se beneficiará da cirurgia, não só com a redução de peso, mas, principalmente, com o controle das doenças associadas que são descompensadas nesses pacientes específicos”, afirmou Josemberg Campos.

Equipe do HU

1 - cirurgião

3 - endocrinologistas

1 – psicólogo

2 – estagiarias

Pneumologista

Cardiologista

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