terça, 24 de novembro de 2020

Saúde
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O mapa da microcefalia e a via-crucis dos que esperam o INSS para tratar doença

Bruna Vieira e Renata Fabrício / 04 de março de 2016
Foto: Assuero Lima
A Paraíba soma 63 casos de microcefalia confirmados pela Secretaria de Estado da Saúde. Desse total, 62 já nasceram, mas seis evoluíram para óbito.

As 56 crianças vivas têm direito ao Benefício de Prestação Continuada, mas, até agora, somente três foram concedidos. O processo para receber o auxílio pode demorar quase dois meses, já que além de atestar o diagnóstico para a doença, é preciso agendar perícia médica no INSS, que atende outros casos graves, como acidentes e todas as demais deficiências. O tratamento dos bebês não pode esperar e as famílias têm que arcar com as despesas. Em João Pessoa, nem todas sendo acompanhadas.

São 127 km percorridos pela família de Belém até João Pessoa duas vezes por semana, na viagem que pode durar até três horas. O esforço é para garantir que a filha caçula seja atendida. A bebê de quatro meses nasceu com microcefalia. O diagnóstico veio aos sete meses de gestação. Desempregado, o pai faz bicos de moto-taxi. A família enfrentou dificuldades para conseguir transporte. “Agora está dando certo, mas, no começo foi complicado. Às vezes a prefeitura dava, às vezes não. Tinho que pagar para ir de ônibus. Tem dias que o apurado que consigo é R$ 5”, contou Availdo Pereira.

O pai lamenta que não recebe a assistência necessária. “O município não tem profissional adequado. Só o pediatra, uma vez por mês. Mas, ela vai precisar de neurologista e 12 sessões de fisioterapia, por mês. Perco dia de serviço para acompanhar minha esposa, que também não pode trabalhar mais de doméstica, só se dedica ao bebê. O que eu acho ruim não é vir, porque sei que precisa, é porque estou parado há mais de três meses. O que eu pudesse gastar com ela, gastaria. A tomografia foi difícil, mas, conseguimos. Vamos mostrar para a neurologista, para que ela dê o laudo e a gente possa requerer o benefício do INSS”, desabafou.

A esposa Marcela da Silva pode ter sido uma das vítimas assintomáticas da doença. O casal nunca desconfiou da zika, porque a gravidez foi normal. “Ela chora muito. É como se o cérebro quisesse crescer e o crânio não deixa. Mas, já me acostumei”, disse.

Mapa microcefalia

Uma Vitória. Maria Vitória também é de Belém e com quatro meses teve um pouco mais de sorte, porque conseguiu que a pediatria e a fisioterapia fossem feitas em Belém. Mas, a neurologista, é em João Pessoa. “Vou mostrar a ressonância e transfontanela. Acordei 3h, mas tudo o que for de melhoria para ela eu enfrento”, relatou a mãe, Liliana da Silva Tavares.

No interior, espera é desumana

No interior do Estado, as mães que estão em busca do benefício de prestação continuada enfrentam uma verdadeira jornada. Miriam de França Araújo é de São José dos Cordeiros. Ela enfrenta uma viagem de 130 km até Campina Grande para ter acesso ao acompanhamento do bebê, no Pedro I.

A mãe de Miriam, a agricultora Joana Severina, conta que a filha já foi no INSS tentar o benefício, mas o atendimento para dar entrada no benefício foi marcado para 6 de maio, quando o bebê já estará com oito meses. “Ela já deu entrada, só que o INSS de Campina Grande marcou o atendimento para 6 de maio. Eles mandaram levar a documentação e tudo. Mas a perícia vai ser em maio. O menino nasceu em 24 de setembro”, contou.

Mesmo quem mora em Campina enfrenta a demora em conseguir atendimento no INSS. Alessandra Amorim, que tem Samuel de dois meses, disse que conseguiu atendimento para abril. Até lá, o dinheiro vai fazendo falta para a família pobre.

É direito!

Estatuto da Criança e do Adolescente assegura:

Art. 7º. A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.

Para toda a vida

Para ter direito ao BPC do INSS, a renda familiar não pode ultrapassar ¼ de salário mínimo por pessoa, o que equivale este ano a R$ 220,00. O benefício não é novo. É o mesmo que recebem as pessoas com deficiência. Tecnicamente, elas recebem até que se mantenha a incapacidade para o trabalho. Na prática, recebem por toda a vida, porque a incapacidade não vai embora.

Como obter BPC

▶ Procurar o Assistente Social da Prefeitura para pegar os formulários do Benefício

▶ Agendar pelo canal remoto 135.

▶ Ir à agência do INSS com documentos requerer.

▶ Agendar avaliação social e médica.

▶ Comprovar do diagnóstico da microcefalia.

▶ Beneficio sai no mês seguinte à concessão.

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