quarta, 14 de novembro de 2018
Saúde
Compartilhar:

Remédio promete inovar combate a hipertensão

Ana Daniela Aragão / 19 de setembro de 2016
Foto: Divulgação
 

Há três anos, o aposentando Israel de Jesus Silva, 50, nasceu de novo. Palavras suas. Ele passou por uma cirurgia para desobstruir duas veias no coração. Com 45 anos, Israel começou a sentir que algo estava errado. “Eu ficava tonto, suando muito e sentia dores no peito de ficar sufocado. Uma vez pensei que iria morrer. Pedi a Deus para não me levar antes de criar todos os meus filhos. Mas eu não fazia ideia que tinha relação com hipertensão”, disse. Ele contou que não ligava para a alimentação e que achava que o futebol no final de semana já era o suficiente. Até que foi ao médico e ele confirmou a sua doença e afirmou que ele precisava da cirurgia urgentemente.

Após a operação, ele ficou três meses se recuperando. Mas só a cirurgia não foi o suficiente. O aposentado precisa tomar dois remédios por dia, sem falta, pelo resto da vida. “Com eles eu não sinto os sintomas de antes. Mas confesso que não tomo todo dia. Sei que é preciso manter a rotina porque caso eu fique sem tomar por muito tempo, posso voltar a ter os problemas da hipertensão. Fora isso, eu procuro me divertir dançando e ouvindo música. Tem que ser feliz. Isso também faz parte”, disse.

Israel faz parte de um grupo de 21,6% da população paraibana que sofre de hipertensão, sendo que desses 17,9% são homens e 24,8%, mulheres. E, para pacientes com esse mal, um medicamento capaz de combater a doença por um mecanismo inovador vem sendo testado por um grupo que reúne pesquisadores brasileiros, ingleses e neozelandeses. Ao invés de combater a hipertensão arterial bloqueando os efeitos da atividade neural excessiva sobre o coração e os vasos sanguíneos, esta nova abordagem visa reduzir a atividade dos corpúsculos carotídeos, um conjunto de pequenos órgãos sensoriais dedicados a controlar o oxigênio no sangue, que quando anormalmente ativados podem fazer com que a pressão arterial se mantenha elevada.

Os corpúsculos carotídeos estão situados nas bifurcações das artérias carótidas que levam o sangue para o cérebro e são os menores órgãos do corpo, sendo cada um do tamanho de um grão de arroz. Quando os níveis de oxigênio no sangue diminuem, as células dos corpúsculos carotídeos se tornam ativas e enviam sinais para o cérebro que provocam aumentos na pressão arterial.

Em indivíduos saudáveis os corpúsculos carotídeos têm níveis muito baixos de atividade. Essa equipe internacional e multidisciplinar coordenada pelo Professor Julian F. R. Paton, da Universidade de Bristol (Inglaterra),descobriu que esses órgãos sensoriais se tornam hiperativos em condições de hipertensão, aumentando a atividade de regiões do cérebro que geram a atividade nervosa para o coração e os vasos sanguíneos. Desta forma, alterações na atividade dos corpúsculos carotídeos podem determinar os níveis elevados depressão arterial e, portanto, dentro dessa nova estratégia passaram a representar um alvo terapêutico para combater a hipertensão arterial.

Um dos pesquisadores, Benedito Machado afirmou que, em condições fisiológicas, após a normalização do nível de oxigênio do sangue, a pressão arterial volta ao normal. Mas experimentos com ratos feitos na FMRP-USP indicaram que, em animais hipertensos, essas células ficam constantemente mandando sinais para o cérebro aumentar a atividade simpática.“Todos os medicamentos contra a hipertensão hoje disponíveis no mercado interferem nos efeitos finais dessa hiperatividade simpática, ou seja, nas terminações neurais dos vasos e do coração, induzindo a vasodilatação e a queda da pressão arterial. Este novo medicamente vai combater a hipertensão na sua origem, evitando o aumento da atividade simpática”, afirmou.

Os testes em humanos já estão sendo planejados na Inglaterra. Caso a terapia se mostre eficaz e segura, poderá beneficiar também pacientes com hipertensão resistente, ou seja, que não respondem aos tratamentos farmacológicos atualmente disponíveis.“Este novo medicamento atua bloqueando uma classe de receptores celulares conhecidos como P2X3, ou receptores purinérgicos, presentes em um órgão chamado corpúsculo carotídeo, localizado nas artérias carótidas. Essas células estão anormalmente ativadas em indivíduos hipertensos”, explicou. O medicamento foi desenvolvido pelo laboratório AfferentPharmaceuticals.

hipertensao

Os ensaios

Nos experimentos feitos na USP, pelo professor Davi José de Almeida Moraes e pela pesquisadora Melina Pires da Silva, ambos do Departamento de Fisiologia da FMRP, foi usada uma linhagem de ratos que espontaneamente se tornam hipertensos a partir de cinco semanas de vida – resultado de anos de cruzamento entre animais com pressão arterial elevada.

Para medir o nível de atividade das células do corpúsculo carotídeo em diferentes situações, os pesquisadores usaram técnicas de eletrofisiologia, ou seja, por meio de microeletrodos mediram a atividade de um grupo de neurônios – localizados em gânglios na região do pescoço dos ratos – responsáveis por levar os sinais emitidos pelo corpúsculo carotídeo até o cérebro.

“Por meio do registro da atividade neural, observamos que as células do corpúsculo carotídeo dos animais hipertensos estão continuamente mais ativadas que as dos animais controle. Além disso, quando os animais são submetidos a uma situação de redução de oxigênio, as células dos hipertensos respondem de forma mais exacerbada”, contou Moraes.

Na tentativa de desvendar a causa dessa maior excitabilidade, os pesquisadores decidiram estudar os receptores do tipo P2X3. Notaram que além de estarem mais expressos nas células dos ratos hipertensos, eles também respondem exageradamente quando o ATP é aplicado no local.

Por meio de análises histológicas, esse estudo mostrou que nas células do corpúsculo carotídeo humano esses receptores também são expressos.O passo seguinte foi testar o efeito do tratamento com o bloqueador do P2X3 em animais. Inicialmente, o composto MK-7264/AF-219 foi aplicado diretamente no corpúsculo carotídeo dos ratos hipertensos e, por meio do registro da atividade neural, o grupo observou diminuição na atividade desses neurônios e também na atividade simpática.

O efeito do medicamento sobre a pressão arterial foi testado por meio de um tratamento agudo feito por via endovenosa. Os animais hipertensos receberam uma infusão do bloqueador durante 60 minutos e, em seguida, tiveram a pressão monitorada por mais uma hora.

“Nesse período os valores pressóricos ficaram semelhantes ao de animais normotensos. Depois disso, a pressão arterial tende a voltar para os níveis elevados. Para potencializar o efeito nos ensaios clínicos, será preciso planejar cuidadosamente a dose para a administração oral”, comentou Moraes.

Um primeiro indício de que a nova estratégia terapêutica pode funcionar em humanos foi também demonstrado no estudo divulgado na Nature Medicine. Em um experimento feito na Inglaterra, pacientes hipertensos receberam por via endovenosa durante cinco minutos o neurotransmissor dopamina – substância capaz de inibir a atividade do corpúsculo carotídeo. O tratamento causou diminuição na respiração dos voluntários, indicando que em humanos hipertensos os corpúsculos carotídeos também estão hiperativos.

“Acreditamos que essa estratégia usando a dopamina poderá ajudar, no futuro, a identificar quais pacientes poderão se beneficiar com os bloqueadores de P2X3. Nem todos os casos de hipertensão estão relacionados com a hiperatividade das células do corpúsculo carotídeo”, comentou Moraes.

De acordo com o pesquisador, a remoção cirúrgica de um dos corpúsculos carotídeos já foi testada na Inglaterra como um tratamento para casos de hipertensão maligna – aqueles que não são controlados com medicamentos. Na maioria dos pacientes submetido a esse procedimento foi observada redução da pressão arterial e melhora da qualidade de vida.

“A desvantagem desse método é o fato de envolver cirurgia em uma região muito delicada. Além disso, não se pode remover os dois corpúsculos carotídeos, pois o paciente correria o risco de morrer durante um episódio de apneia do sono, por exemplo. Já com o bloqueador de P2X3, o sistema de alarme do organismo continua funcionando, ele apenas deixa de estar mais ativado do que deveria”, disse Machado.

Já há testes clínicos em andamento com o composto MK-7264/AF-219 para o tratamento de tosse crônica, condição também relacionada à hiperatividade dos receptores purinérgicos. “O composto já foi aprovado nos primeiros testes para avaliação de toxicidade e já se encontra em fase adiantada dos ensaios clínicos”, disse Machado

 

 

Relacionadas