quinta, 26 de novembro de 2020

Saúde
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Não há vacina eficiente e Nem cura para o diabetes, garante médico

Luiz Carlos Souza / 11 de junho de 2017
Foto: Assuero Lima
Apesar da circulação de informações, especialmente nas redes sociais, sobre o uso da vacina BCG – contra a tuberculose – como uma nova “arma” para combater o diabetes, a verdade é que os estudos indicam avanços no tratamento, mas não apontam para a prevenção total ou a cura. Segundo o endocrinologista João Modesto Filho, novos protocolos de pesquisa estão sendo desenvolvidos e há expectativa de resultados dentro de cinco anos, mas, por enquanto, tudo ainda é pesquisa. O fato é que para lidar com a doença, o indivíduo tem que primar por uma vida saudável – dieta, combate ao sedentarismo e vigilância sobre o peso – para evitar complicações que podem levar ao infarto ou ao AVC.

 

- O que há de definitivo na vacina contra o diabetes?

- Na realidade é um assunto razoavelmente antigo. Há pelo menos umas quatro ou cinco décadas se propõe uma vacina – até um medicamento para tratar ascaris já foi tentado, mas não tivemos bons resultados.

- Mas a utilização da BCG – vacina contra a tuberculose – não está sendo apontada como o tratamento definitivo?

- O que saiu recentemente – trabalho feito nos Estados Unidos – foi exatamente com o uso da vacina contra a tuberculose. É uma vacina que tem mais de 100 anos e começou a ter esse novo enfoque até porque ela começou a ser vista também contra o câncer de bexiga. Já se manuseia com ela um pouco.

 

- Quais os resultados?

- Se notou que pacientes poderiam retomar a produção de insulina. Foi feito um estudo piloto e se viu que funcionava. Não tanto como se gostaria, mas revelou indícios de que algumas coisas poderiam ser feitas mais adiante.

 

- Como a vacina age?

- Nós temos umas células chamadas de “T”, que, às vezes, têm um tipo de ação maléfica no organismo. No caso do pâncreas, ela vai interferir na produção de insulina. Quando se toma a vacina BCG contra a tuberculose, ele eleva uma substância chamada “TNF”, que é o fator de necrose tumoral, que chega a destruir essas células danosas. Com isso há uma revitalização das células beta, que produzem insulina.

 

- O que se constatou com o estudo?

- O estudo foi feito num intervalo de quatro semanas, aplicando-se duas injeções da vacina. Os resultados foram promissores. A partir daí a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos aprovou a produção de novo estudo, que a gente chama de fase intermediária. Era o que deveria ter sido divulgado e não dizer que havia uma vacina contra o diabetes.

 

- Será para que tipo de diabetes?

- Para o tipo 1 – aquele que necessita tomar insulina. O diabetes tipo 1 é aquele que tem fundo imunológico, uma doença que tem auto-agressão. O tipo 2, que geralmente atinge o adulto é aquele em que a genética é bem forte – se meu pai e minha mãe são diabéticos, tenho uma chance de 80%, se não tomar cuidado, de ter a doença após os 40 anos. O tipo 1 também tem um componente genético, mas não tão forte. É mais um defeito imunológico.

 

- O que é esse defeito imunológico?

- Se produz substâncias, que vão atacar o próprio corpo. Temos vários exemplos de doenças autoimunes, como, por exemplo, vitiligo, o diabetes tipo 1, artrite reumatóide, lúpus.

 

- O que a vacina vai fazer?

- Justamente pegar esse “desvio imunológico” – a produção de células “T” e inibi-las. Não vão ter ação para isso. Então, nessa nova pesquisa intermediária, com 150 indivíduos, eles vão tomar a BCG em duas doses, com intervalo de quatro semanas e depois, anualmente, uma vez e após cinco anos, se vai ver o resultado, inclusive para o diabetes tipo 2.

 

-Há outros estudos?

- Há em outras direções, para ver se previne o diabetes tipo 1 ou se atua logo no início dele para fazer o controle. Nesse final de semana começa o Congresso Norte-americano de Diabetes, um dos ias importantes do mundo e há três aspectos que vão ser mostrados. O primeiro seria a insulina oral para tratar parentes de diabéticos para prevenir a doença.

 

- Quais são os outros?

- Outro estudo é sobre uma substância para tratamento de alguns tipos de câncer chamada imatinib, que está sendo testada para identificar ou prevenir o aparecimento do tipo 2.  O terceiro é um estudo sobre uma vacina GAD, uma enzima que há nas células betas no pâncreas, que está presente em 80% dos diabéticos recém-diagnosticados do tipo1. Os anticorpos anti GAD são os mais fortes para desenvolver o diabetes tipo1. Há anticorpos anti-insulina, anti-células beta, há quem tenha os três juntos, mas a maioria tem o anti GAD. Alguns resultados são promissores, mas nenhum definitivo.

 

- Então, a cura do diabetes ou a prevenção via vacina ainda não são possíveis?

- São resultados iniciais. Ninguém pode falar em cura do diabetes ou que o diabetes vai se acabar, porque o diabetes até o estágio atual se sabe que é uma doença heterogênea e que tem várias causas junto com obesidade, sedentarismo, o estilo de vida totalmente errado que temos na modernidade.

 

- O que mostram os últimos estudos sobre o diabetes?

- O que chama a atenção nos últimos estudos é um aumento incidência e na prevalência, tanto do tipo1 como do tipo2.  Outro fato que está chamando a atenção é que se sabe que o diabetes tipo2 tem íntima relação com doenças cardiovasculares se não for bem tratado – e que o diabetes tipo 2 começa a ocorrer com uma frequência entre 5% e 12% em crianças e adolescentes.

 

- Mais um motivo para preocupação das autoridades em saúde...

- Sendo uma doença que traz problemas cardiovasculares, os jovens que desenvolvem o tipo2 e não se tratam bem estão fadados a ter problemas cardiovasculares graves, muito mais precocemente do que a gente vê hoje.



- O que explica a influência da obesidade e do sedentarismo no diabetes?

- Junte-se a isso também o estresse – a parte emocional também termina contribuindo. Mas veja: sempre que há sedentarismo se perde poucas calorias, o que já é um motivo para não se perder peso. Se há uma ingestão calórica maior do que as necessidades do organismo se ganha peso.

 

- Que outros fatores devem ser levados em consideração?

- Há outras coisas que precisamos observar como os chamados receptores de insulina. A insulina quando cai na circulação depois que sai do pâncreas ela vai atuar em determinado sítio em determinado órgão. Vai estimular o receptor daquela célula – digamos periférica – para que haja a entrada da glicose na célula e haja a combustão – no fundo a glicose é o combustível do nosso organismo. Se o indivíduo tem excesso de peso esses receptores começam a não responder bem à insulina – é o que a gente chama de resistência à insulina, quando ocorre uma diminuição da sensibilidade dos receptores à insulina.

 

- Essa resistência à insulina provoca o que no organismo?

- Ela começa a aumentar para vencer essa barreira da obesidade, por exemplo, e vai causar mais problemas ainda porque o excesso de insulina vai fazer com o indivíduo engorde mais, pode reter sódio, vai contribuir para a hipertensão arterial e a partir daí toda uma gama de processos metabólicos danosos ao organismo vai ocorrer.

 

-Por que há essa intimidade também de problemas cardiovasculares com o diabetes?

- A hiperglicemia é nefasta. O sangue se transforma ficando muito mais viscoso quanto mais se tem glicose na circulação. Esse aumento da glicose no sangue é o fator que vai atuar no endotélio vascular, que é a parte íntima das artérias. Um terço dos diabéticos tem excesso de gordura no sangue. Quando se juntam todos esses excessos – glicose e gordura – com outro fator muito importante, a hipertensão arterial – em torno de 50% dos diabéticos tem hipertensão arterial – então são quatro coisas extremamente danosas: diabetes, gordura no sangue, hipertensão e obesidade. Esses fatores vão produzir um dano, que a gente chama tecnicamente de injúria do endotélio.

 

O que a injúria provoca?

- Essa lesão é uma porta para se formar placas de gordura, que são chamadas de ateromas. Então a arteriosclerose é muito mais comum no diabético não tratado do que no indivíduo não diabético. E a partir daí todos os problemas cardiovasculares podem ocorrer no diabético.

 

- Qual é a maior causa de morte dos diabéticos?

- Justamente infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC) – exatamente em artérias de médio calibre – coronárias e cerebrais, que quando são “entupidas”, o sangue não vai passar e haverá uma isquemia, que vai levar à necrose.

 

- Por que o diabetes está crescendo tanto?

- Envelhecimento da população - a humanidade está vivendo mais. Se há 100 anos a expectativa de vida no Brasil era de 35 anos hoje está em pouco mais de 70 dependendo se é homem ou mulher. Os diabéticos também estão vivendo mais.

 

- Como fatores alimentares e sedentarismo influenciam no diabetes?

- Há pouco tempo saiu um estudo com os índios Ximenes na Bolívia. São em torno de 16 mil índios que vivem no habitat deles. Usam canoas, montam cavalos para caçar, enfim têm uma atividade física muito grande. Um dado interessante: eles costumam dar mais de 16 mil passos por dia, enquanto a média do ocidente é de 10 mil passos. E outra questão, que é muito discutida:  eles não se alimentam de nada que é industrializado. Setenta por cento da alimentação deles é de hidrato de carbono, em torno de 15% de proteínas, que vêm da caça e da pesca. Eles comem pouca gordura e não têm o açúcar que nós temos. E eles têm um histórico de cálcio – que é um estudo que se faz para ver como estão os vasos – e o deles, mesmo em indivíduos com mais de 60 anos, as artérias estão quase sem nenhum problema. Isso mostra como o estilo de vida saudável evita uma série de doenças, inclusive do ponto de vista cardíaco.

 

- As pesquisas com células-tronco apontam para alguma solução?

- Aqui no Brasil, em Ribeirão Preto, em São Paulo, há estudos de alguns anos mostrando resultados bem favoráveis. Esses estudos, inclusive, estão sendo reproduzidos em vários países. O que eles estão fazendo? O indivíduo recém-diagnosticado com diabetes tipo 1 é submetido a uma quimioterapia que é justamente para destruir as células danosos do sistema imunológico. Antes eles colhem material que tem as células-tronco. Depois da quimioterapia eles reintroduzem as células beta, como se fosse uma renovação. No número que eles fizeram – me parece 25 diabéticos – dois não tomam insulina e a grande maioria diminuiu a quantidade de insulina ou passou algum tempo sem tomá-la. Eles estão continuando os estudos com novo protocolo. Mais um detalhe que tem que ser citado é que a pesquisa com células-tronco é algo que ainda não está terminado. Ninguém sabe, por exemplo, se pode ocorrer mutação genética ou se o indivíduo pode desenvolver algum outro tipo de problema de saúde.

 

- Tudo ainda é pesquisa?

- Ninguém pode falar em cura. Há resultados promissores para os estudos da vacina nos Estados Unidos, para o transplante de células beta. São pesquisas em andamento.

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